sábado, 24 de maio de 2014

Constelação

Pouso as mãos sobre meus seios
no vão central do peito,
os dedos acolhidos.
Os seios quentes, quentes
mais ensolarados
que os dias lá fora.

Gosto de tocar-me na pele
percorrer-me.
Aprendo agora que são belos,
meus caminhos.
Sóis não passam de estrelas.
Minhas mãos abraçam estrelas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O fim do oceano

Há corpos boiando
nas profundezas.
Às vezes ainda se vê
restos de luzes piscando
nos cômodos dos navios
oblíquos
ou talvez seja apenas
mentira dos peixes,
loucuras.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Diagnóstico

De amor não morreremos.
De fome, de droga, de tiro
de dores, cansaço, ciúmes
acidentes e desvios biológicos,
disso tudo morreremos.
De amor não.
O amor não serve para isso
não cria vítimas por aí.

Mas confundem tudo
tomam o amor por qualquer coisa
um sopro de domingo
pronto, já insistem ser amor.
Até um soco no rosto inventaram
chamar de amor.

Mas soco dói,
quebra,
sangra,
entorta,
emudece.
Amor não.
Amor é mais bonito.

Chega das tolices
desse mundo viciado
que gira, gira, gira
faz rotas, translada
e nunca dá passos novos.
O amor nunca matou ninguém.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Para dizer alguma coisa

Antes de tudo o que houve
acreditei piamente no trágico e no fim
das coisas.
O finito, o limite
os pulmões para o ar,
soleiras de porta.
Como se não pudesse existir
algo que seja tudo
porque sempre falta alguma coisa --
e nem é "sempre"
porque se houvesse sempre
teríamos tudo.

Quem garante que não haja mastodontes voando no céu?
Bem na hora em que se pisca
ou talvez escondidos pelas nuvens
pelos prédios atrás das cortinas
rindo.
Existem linhas retas
ou apenas segmentos?
Os pontos são quantos
dentro da palma da minha mão?
Creio que todos,
reticentemente.

As estátuas estão se mexendo,
basta olhar
mas olhar com muita atenção.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Atrasos

Não sei o que se passa
em meu ventre
nunca foi de clamar por mim
mas agora está aqui
mudo e calado
numa desonestidade suprema

essa de não me deixar
dormir
pensando quais conteúdos
e infortúnios
meu ventre prepara
ao meu futuro.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Solitária

Tive medo de baratas, Ricardo
em tempos distantes que virão.
Vi e previ, precavida
o reflexo dos vidros
e das rugas monstruosas em meu rosto
até encontrar, no estático
o relance do vento central
aquilo que move os períodos
as determinações lexicais
a luz e sombra no contraste
daquilo que vejo
e que move o foco dos olhos.

As pupilas balançam
impressionáveis
como pedaços pesados de granizo
em chuvas mal programadas.
E ainda assim
lentas
não alcançam o corpo que sentiram passar
não conseguem encostar
em coisas outras que não sejam
o reflexo apenas mal dormido
de um cômodo meio sujo,
com barulho próprios, invisíveis,
de qualquer cômodo.

Ricardo, Ricardo
já deve ter passado por passados parecidos
quando partiu para o Rio de Janeiro
quando Rita arranjou um emprego
(pobre Rita, presa em seus punhos)
e quando morreu sua cachorra branca
vítima de doenças neurais.

O medo dos fantasmas
é o pior dos medos
dentre todos o mais exclamado
ou escondido
nos escombros do que há de vivo
arfando pelos narizes.
nunca se sabe o que pode aparecer.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quando eu crescer

quando eu crescer
quero ser
que nem a ana cristina cesar.
quebrar vidraças coloridas
e, no canto final
exposta ao mundo e à avenida da frente
encruzilhada
esconder os segredos das ostras.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Organismo

Hoje tive dor nas costas
arranquei as costas fora.

Ontem tive dor nos pés
os pés já se foram embora.

Anteontem encravou-me a unha
foi-se a unha
e todas as demais
para evitar problemas
entrando na carne lateral.

A carne lateral eu raspei no asfalto
no dia em que tropecei
e hoje não a tenho mais.

Na semana em que o sangue desce morri
com cólicas envolvendo o útero
o ventre a explodir.
Não tenho mais útero e ventre
não tenho mais sangue.

E sinto que me chega
neste instante como um prego
uma dor de cabeça...

O coração, esse sim
segue intacto
mas tão intacto que nem bate mais.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Os sons da cidade

passarinho passarinho passarinho passarinho
passarinho passarinho
passarinho passarinho passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho passarinho passarinho passarinho passarinho passarinho, passarinho
passarinho?
e os edifícios.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O que resiste

Mofou o queijo.
Mofou o pão.
De todos teus ângulos só
vejo
bolor
uma película verde
branca
marrom
na razão do incremento,
o ar que respiro.
Mofou o bolo
que fiz com carinho.
Até o leite coalhou.

O resto de doce
do fim de semana clama
formigas!
e apodrece em sua
rasgada embalagem.

Choveu toda noite
e pela madrugada
em sono a brisa nos fez
do relento à garoa.
Dores no corpo
catarro.
A cama nos prende inertes.

Chove e
enquanto caem as gotas
do esgoto indiscreto
vejo que racham o teto e as paredes.
Uma goteira insiste
aprisionada ao mistério fútil deste
labirinto
de caixas, papéis e leopardos
nossa casa.

Mofou tudo
que havia ao redor.
Tudo de cheiro e de som morreu
intoxicado.

Mas o corpo de nós dois,
este continua vivo,
a pulsar,
no frágil frescor das frutas pequenas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Anatomia expandida

Você tem uma cabeça
com dois olhos
nariz e narinas
lábios, dente, gengiva
um par de orelhas de porcelana
quebrada e semi-surda.

E de dentro da sua cabeça
saem dúzias de borboletas
em todas as cores frias
a montar, pouco a pouco,
um exército com mais de duzentas.

De dentro da sua boca
você cospe as borboletas
como quem come ao contrário
do grande prato que é bosque
e parque e avenidas
o mundo que te habita
no ar que respira.

Você e as vozes
você e os vizinhos
você e o verde macabro que invade
a janela de seu quarto
e o perfume da correspondênciade produto de limpeza
no liso das paredes.

As borboletas
cruéis, não cessam
este furacão de asas finas
do seu desprezo
a recordar as mil folhas ao vento
de um arbusto faminto
em outubro.

Mandei
que se faça o amor.
O amor não veio.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O sintoma

Sorrindo tem um homem na frente do outro homem, completamente paralelos os dois. Sorri porque saiu de casa, andou até o ponto de ônibus, parou. Havia um homem em sua frente, o mesmo homem para o qual agora ele sorri, amarelado, não porque é feliz, mas porque, das chances que tinha de desviar falsamente, e assim ir para o mesmo lado do outro homem, e essas chances equivaliam a cinquenta por cento, nem mais nem menos, ambos quase se trombaram. Agora quase se trombam de novo. Sorriso. A linha cruzada saiu de seu limiar e extravasou na ruptura cotidiana de dois homens, um para cada lado. 

Às seis horas cumprem o horário, chegam em casa às sete. Depois do banho, se olham em seus espelhos na procura de fios de barba a despontar pelo rosto. Mas o rosto, desde o banal encontro, havia sido trocado, e assim permanece, como o reflexo do sol na água. Eles gritam, apavorados. Mas ninguém nota qualquer diferença, mínima que seja, a ser digna de reparo. O homem sério, sem vontade alguma, sorri com os dentes amarelos que não lhe pertencem, e sente medo da sua própria face.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Poema sem pulso

Quantos passarinhos é preciso trazer-te
para que me tenha ao seu lado?
Dez, cem, mil?
Ou será que um origami
no papel de jornal velho?
Talvez dois canários
talvez uma pomba suja.
Mal sei o número de passos
que devo dar, inequívoca,
até te alcançar
mesmo em braços esticados
pontas dos dedos.
Sei quantos posso por mim
não sei quantos você
me permite.

Criar sacrifícios e provas de amor
falsificar simulacros
entre os astros do universo,
gigantesco universo
que ninguém conhece o fim.
Os fins dos romances já sabemos
está escrito na última página.
Mas dentre tudo isso, que dizer
do fim de nós dois?

Esse fim se resguarda, à espreita,
guardado nos confins dos bons organismos
não como um vírus da gripe
mas uma doença fatal e rara
de poucos estudos e maus tratamentos
onde se guardam
nossos sublimes segredos
que nos tornam
apenas
a essência do que somos.
Sumo.

Quero que acredite em mim
como acreditou não em minha voz
não minhas cordas vocais ou gengivas
mas acreditou em meus lábios.
E acreditou, piamente, e quase chorou
naquele romance de mortes
que leu no mês passado, sozinho,
mas repetiu para mim,
deitados na grama
esperando o ônibus,
as suas frases favoritas.
Um romance de mortos
para um homem vivo,
dotado e detido na angústia e
raiva
que palpita de suas orelhas
pelas fendas que te chegam no cérebro
e do cérebro invade o sangue
até explodir em bomba o coração.

Odeio usar a palavra coração.
Coração Coração Coração.
Me parece que a palavra coração carrega
sugestões de filmes estúpidos
rimas fracas, publicitárias
e a tosca perfeição de um amor
em olhos azuis.
No entanto seguimos aqui.
Estamos vivos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Relato do amor invisível

Eu amo esta criatura enquanto ser vivo e sobrevivente, como célula de resistência, e ao mesmo tempo posso nutrir amor como a pessoa que é, completamente humana. Desta soma, imersa na mesma criatura, resulta que amo e que não tenho capacidade nem vontade de amar agora e desta forma a ninguém além deste único organismo. 

De repente fiquei cego. Não tão instantâneo foi o processo mas alguns poucos meses parecem horas se comparados a toda uma vida de vista. E ainda mais esta vida. Não quero assegurar que minha dor tenha maior valor ou que seja eu o único resumo vivo do sofrimento. Embacei gradativamente, um pé depois do outro, e uma vista cansada normalíssima para a meia idade então se transformou no mais imenso infinito. Garoas se transformam em tempestades. Parece, porém, que todas as galáxias dormem, quase hibernam. E eu ando, ando, ando mais, mas não encontro o lugar de encruzilhada entre o conhecido e o nada. O espaço do nada, denso, flúido, flácido, plasma, duro, não se sabe, deve ser lindo, tanto inimaginável que até agora parece ser impossível - onde possa encontrar qualquer coisa diferente da treva tátil, ultrassonora, aos quais meus sentidos me submeteram. Ouço espirros que antes os ouvidos não alcançavam e tenho então a leve sensação de que o mundo está um pouco mais resfriado. Não é o mundo, sou eu, que vivia do contraste e da luz e sombra. Me lembro inclusive de andar pelas ruas e, ao início da noite, quando as luzes dos postes se acendem, me lembro do medo ridículo que tinha da minha própria sombra. Hoje a sombra é geral. Fez-se a luz ao meu redor, em todos os possíveis ângulos. Misteriosamente, o resultado não foi a claridade total, como se esperava, e sim o breu da sombra espalhada como um oceano ao redor da ilha. A ilha sou eu.

Me apaixonei quando vi que aquele corpo era completamente único; não só aquele como todos. Mas então já era tarde, o caminho agridoce da vida conjunta já nos tinha unido e nos feito trocar toques. Depois, em tempo recorde, amei. Agora me lembro, chorando, que éramos visualmente a beleza, e assim nos reproduzíamos em nós, de manhã, de tarde e de noite. Na madrugada nos encarávamos nos olhos falando da rotina. A última semana foi inteira uma aflição sobre a retina, e o globo ocular, membranas, nervos ópticos.

- Hoje no trabalho ouvi coisas engraçadas nas fofocas do chefe; Hoje para mim foi um pouco mais chato, o serviço estava vazio, o tédio reinando… - e por aí ia. 

Hoje eu estou em um leito até que confortável, nos primeiros dias de recuperação após o baque da cegueira total. Amanhã cedo irei para casa, sentir os cheiros específicos do meu lar e de meus sabonetes, minhas plantinhas em vaso, a bosta amanhecida dos cães no quintal, todo esse conjunto é lindo. Agora tenho em minha diagonal a pessoa que me ama, a qual eu amo/desejo/quero/jogo-me de volta. Não chega a roncar, é apenas um sussuro sonâmbulo, penso agora de forma dócil. Esta nova cegueira está me colocando uma poesia nos poros que chega a ser ridícula. Já deve ser de madrugada. Só acordará amanhã, me trazendo nas mãos um copo de café ou coisa do gênero. Penso agora que poderia, não fossem meus olhos a atrapalhar, estar na cama comigo, a de casa, o corpo macio estirado ao meu lado. Sinto saudade desse corpo, já, e choro apenas de pensar que nunca mais verei suas peculiaridades e formas tortas, sua pele fria e seus pelos espalhados. Sinto que ver o teor deste corpo será uma magia de sentidos em falta. É claro que as mãos, as bocas, as narinas e o encostar de meu corpo ao outro, há isso tudo, e há a lembrança e a capacidade de rememoração, o desejo de ter olhos bons só para ver os olhares e sorrisos do ser que amo, e que desta forma muito me dizia em momentos de silêncio. Fica na cabeça o retrato de quando começamos a namorar, bem como de meu último aniversário, e criamos rugas. O corpo é forte, e pulsa forte, e mastiga forte, digere, processa, sente dores de passagem e retorna ao equilíbrio. Parte da cabeça de pouco cabelo, desce aos olhos, ao nariz apontado como flecha, ao pescoço curto, os ombros, o peito e barriga, a cintura, coxas e pés.

Os pés, quando o corpo não dorme, vestem sempre botas de couro, e me guiarão amanhã quando acordarem, um passeio, ir ao banheiro, até que eu, como um bebê que engatinha, aprenda de novo a andar em um mundo recém possuído. Por enquanto eu não tenho mais nada. Não tenho o poder de ver o chão que me carrega, a pessoa que me guia, não posso saber nem se meu lençol está sujo. Em compensação, sinto mais força no vento que me baterá no rosto quando encarar a cidade novamente, daqui a mais ou menos três horas. O vento ninguém vê. A dança das folhas talvez, mas apenas os mais desavisados. Não tenho alcance às coisas que tenho, pois não vejo onde estão. Não tenho projetos, me desiludi. Não tenho sequer o corpo de quem amo/desejo/quero/jogo-me, mas nisso não há problema. Nós nos vemos todos os dias e agora mesmo, e nos conhecemos de cor e salteado. Largura da testa, bundas pequenas, dedos tortos nas mãos e unhas meticulosamente cortadas uma vez por semana, as particularidades do ser humano nada impedem de tornar-se, a minha cegueira, um pouco mais feliz. O médico bate na porta. Finalmente iremos para casa, contemplando a paisagem.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Eternas ameixas

Mais ou menos sei da vida.
aprendi menina em trilhos
do trem que não tomei
mas que vi partir meu pai
à jornada sem retorno
até a guerra, em terras frias.
Vencemos,
vencemos!
e um buraco negro desmanchando
nos lençóis de minha mãe,
a forma de seus olhos transformando-se
em ameixas
inchadas, prestes a explodir
no melancólico.

O trem seguinte
muito mal adormecido
repetia-se na procissão:
a vida segue,
e toda aquela história
do rodar da Lusitana
uma Lusitana
duas Lusitanas.
Quem é essa, com tal nome?
Eu nunca nem ouvi falar
mas pelo nome de florista
deve ser boa mulher.

Pelos trilhos corria Zuquim, irmão meu
pequeno sem carnes
a cabeça desnuda
pronta para os sóis de futebol.
Por um fio de sapato ficou preso,
e então o pé inteiro
e o corpo
enjaulado na prisão
que prende ao chão de terra
e não coube tempo –
de lá afundou-se no solo
qual destino, tragédia levara
e juntos levamos, nós
por um fio sem nó do sapato.

Hoje já estou velha
a pele fina a recordar papel de seda
amassado.
Durmo cedo.
Mas toda noite abro os olhos
uma vez para ir ao banheiro
outra para esperar
que se acabe o tremer da terra
que me treme a casa,
que me treme a cama
e a cabeça, e os porta-retratos
os dedos e minha vista cansada
quando sinto que o trem passa.