_____Quando
a gente começou a se falar, Marco era um homem lúcido, repleto de
coerências. Tínhamos eu e ele uma diferença bruta de idade, como
se aos gritos, e mesmo assim nos falávamos uma vez ao dia, por volta
das duas da tarde, que era depois do almoço e depois da sesta dele.
No começo, o assunto era amplo e atento, eu sempre botando as vistas
no jeito com que Marco lidava com a vida.
_____Ele
chegava e se movia como se seu corpo estivesse almofadado com plumas
de sofá, e falava manso olhando sempre para a luminária de alumínio
no canto da minha pequena sala – ou isso ou era outra coisa que
olhava, porém com igual desimportância. A impressão que sempre
tive foi a de que o velho Marco até gostava de mim, só que aos
poucos, e torto. Em todas as conversas que fizemos, falamos a
respeito de hojes e ontens, muitos ontens: ontens de guerras e
presidentes, ontens de televisão e cinema, ontens de cabelo, comida,
trabalho. Marco, velho, vira passar quase todo o antigo século, o já
ido. Mas eu, em contaponto, não tinha como saber se não confiava em
mim o bastante para causos mais íntimos – logo ele que mal tinha
amigos –, ou se era àquela porção de histórias que se resumia
sua vida. Pelo sim, pelo não, preferi não arriscar.
_____Àquela
época eu estava desempregado e, como não fosse pouco, também
desencontrado, dizimando a mim mesmo por nada. O dinheiro que sobrava
do último batente deixou que, por algumas semanas, eu me desse ao
luxo de acordar tarde e gastar meu tempo fazendo feijão e couve.
Regando as plantas. Limpando janelas limpas. Por isso, as idas e
vindas de Marco me eram boas pelo seu tom teórico de me impedir a
loucura – pois para ser louco é preciso ter tempo. Eu,
desempregado, tinha todas as tardes do mundo para ouvir Marco, ainda
que por alguns dias. O bom dele, de seu modo pouco sociável, é que
mal se importava se me atrapalhava ou não: chegava porque queria,
saía porque queria, mas isso só quando atingimos um estágio mais
radical de amizade, que é aquele de se ver todos os dias. Porque,
das duas uma, sobre tudo o que penso: ou tive uma vida chata por
demais, ou são os outros que inventam detalhes para acrescentar em
suas rotinas regadas de tédio. De vez em quando dá para ter um dia
genial, coisa-de-louco, desses que se conta tudo no dia seguinte, e
isso só de vez em quando. Mas Marco não, Marco era velho e vivido,
Marco falava todo dia e, quando já não tinha mais o que falar,
repetia algum passado.
_____Eu,
que sou mais novo, sempre tive uma vida craseada, desde menino.
Acentuava-me aos poucos, de vez em quando, e sempre com dúvidas. Aos
oito, ganhei um cão e perdi uma avó. Eram esses os tipos de crase
que permeavam meus parágrafos, até que arranjei uma namorada de
sobrancelhas finas e olhos largos. Grande coisa: acabou sendo só mais
uma fase – ou crase – até mesmo um travessão, que durou três
meses e se acabou sem prantos. Hoje, não é que estou triste, não é
que acabei. Mas vejo a vida de Marco todos os dias, às vespertinas
horas, e me torno contrapontos. Como se tudo o que passei virasse um
poema do Mario Quintana, lotado de reticências e com eterno sem-fim.
_____Já
ontem, Marco me mostrou uma foto três por quatro de quando beirava
os vinte anos, já há mais de meia década. Não era um rapaz
exatamente bonito, e na verdade nem um pouco bonito. Tinha um rosto
sério e medroso, típico de timidez tamanha que impeça até o
cantar durante o banho. Era o rosto de um jovem centrado e, como já
dito, repleto de coerências.
_____Levantei
os olhos e Marco chorava. Se
empapava na mudez das lágrimas e olhava para a ponta de meu nariz
(não para mim). Eu ainda não havia percebido, mas desde que
acabou-se o ano passado Marco anda distraído, com cara de luar.
Ainda assim, apesar de um pouco louco, tentava contar histórias
sempre que chegava em minha casa. Ontem, porém, quando vendo a
fotografia, não estávamos em meu sofá, na minha sala de estar,
mirando meu abajur de alumínio. Estávamos na casa de Marco, uma
casa chata e, ao extremo, sem graça. Ele sumira por dois dias, por
isso lá fui eu saber que diabos lhe havia acontecido. Vestia pijamas
quando eu cheguei, e falava pouco, pouco. Até hoje não sei porque
não me contou. A única coisa que sei é que saí para botar o lixo
para fora e vi uma crosta de cartazes sobre todos os postes da rua.
_____Frederico
sumiu.
_____Frederico
era um gato marrom, já com feição de velho, e Marco nunca havia me
contado sobre nenhum gato, bem como nenhum romance, nenhuma
demonstração de vida – assim como eu. Quando cheguei em visita,
choramos juntos, antes até das fotografias. Ele pelo gato, eu por
ele, pelo gato e, egoísta confesso, por mim. Não trocamos mais
palavras e eu nem quero mais vê-lo.O mês é de chuvas, todos os
dias, por muitos milímetros. Chove o dia inteiro e, como que por
mágica, os cartazes continuam nos postes, intactos. Como que de
propósito, Frederico me encara sempre que saio ao mercado.
_____Desculpa,
Marco. Um gato marrom apareceu em meu quintal durante a madrugada. Eu
matei, e sinto muito, matei porque tenho tempo livre e sou louco;
matei em segredo que nunca contarei. Eu sou um idiota.