sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Costura

bordei meus amigos
numa saia rodada
de algodão e boas rendas;
                             fazenda.

brotei incontáveis flores de linha
carinho sorriso
teoria na prática
e falta de idade

na dança a saia
                         girou
arre-------------mate
como se fosse um abraço
onde também fui bordada
e de meus amigos matei a saudade

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Botões

abotoei nosso carinho
que-nem vestido de algodão
em menina de pele macia

o carinho desbotou
ficou largado no armário
e a casa do botão
ficou
vazia

sem companhia
nem campainha

de nada servia mais
o tapete de
boas
vindas
(que então se encheu de pó)
e ninguém nem se importou
pois ninguém abriu
a porta.

terça-feira, 31 de julho de 2012

malmequeres

triste foi o dia que
não te vi:
tu saíste em transatlântico
e eu fiquei a ver
                          na
                          vi
                          os

na frente fronte sem ponte de férias
o mar que tricotei nos olhos
quando parada na beira do porto

tu nas eu
           ro
           pas viraste senhor
nas casas de meia-calça nas coxas de cinta-liga

já eu
te dei como morto
segui minha vida sozinha
(e muito bem, obrigada)
diga-se de passagem
diga-se ao pé da
                            e  s  t  r  a  d  a

sábado, 28 de julho de 2012

falls

ponteiro     LEAF
poesia        LIFE
poema        FILE


até que leia e releia
chegue à falência and


LEAVE IT ALL.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

p.s.

mando a mais nova polêmica
acerca do ser-poema,
selo em carta pelo mundo:

mando dez beijos nos pés
indo até o cocoruto
de amor bruto inconse-
                                   quente
conselhos de quem suspira
sustenidos nos ouvidos
(malucos, alucinados
sob as luzes do abajur)

sei de cor e salteado
-- sapato sem salto,
solado descalço --
cada palavra (dis)cursiva
decisiva em nossas curvas

e deixo um p.s., pergunta
percalço de cada pegada
quiçás em sementes insones:
pois 
"onde anda a poesia
nessas linhas de poema?"

(enquanto isso
nossos versos
se abraçam;
qual fossem, do outro,
vereda.)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Conto da despertação

A Louca da Rua, apelido Maria do Pranto, tanto gritou, esganiçada, que tirou da cama o Seu Osaías, e cortou pela metade cada mariposa que dele habitava os sonhos naquela noite. Era mariposa da cor que fosse, grandes pequenas falantes dançavam com as antenas por entre Seu Osaías tão sorridente como nunca antes. Se chacoalhava com a música que saía do farfalhar das asas, mas isso tudo em pirlimpisques foi só piscar os olhos e se acabou -- depois de acordado foi aos poucos se esquecendo de tudo, embrutecendo o tecido da face sem feição, até que só restaram aos dias de hoje uns calmos tiques, meio obsessivos, quando ele avista uma mariposa, ainda que do outro lado da janela (o lado ao qual ele nunca se aventura aliás).

Acordado mais cedo, olhou pela janela, os olhos nauseabundos, e e assistir ao nascer tosco do sol urbano e responder o bom-dia da Louca da Rua, preferiu a primeira opção. Ela seguia choramingosa e de voz fraca após tanto berro, que só acalmava quando a luz do sol amarelava tudo o que havia sido sombra debaixo da amendoeira da calçada. Lá, apertada no canteiro mão-de-vaca, a mulher passava seu tempo de mil horas, roçando os dedos sobre a fibra da roupa todinha em tons de marrom. 

O sol subiu naquela manhã igual a todos.o.s.dias, sem graça de beleza, e Seu Osaías sem graça sem rima só eterno pretérito imperfeito voltou a dormir até a hora do almoço. Maria do pranto morreu nalgum dia amanhecido, em seu voo capenga de asas marrons, na direção de todas as chuvas. Seu Osaías, quando acordou, só soube dizer (mal sabido e assoviando, o maldito) -- graças a deus. Voltou a dormir e sonhou uma infinidade de coisas bonitas que de nada serviram quando acordou.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Velhas palavras

eis que:
            sim;
esqueci
como se
escreve

daquelas velhas palavras
nada mais é novo
nada mais
me serve

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lobisomem


Villa Lobos sumia
toda noite de lua cheia

É que a cada nota perfeita
novidade e céu sem nuvem
Villa Lobos virava outro
virava noite compondo uivos

O povo como um relógio
minguava-se atrás da lua
e dormia feliz na inspiração canina
como se fosse canção de ninar
que vinha por entre as cortinas
pelas janelas abertas da vila

Depois, de dia,
aí vinha o resto da vida
como se fosse cartão-postal
parado
mu(n)do
sem-sal.

terça-feira, 10 de julho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Definições

frederico, frederico
então diz que poesia é risco?

pois eu digo que além disso
acima de tudo poesia é riso
ou de gozo ou de nervoso
riso alto ou recolhido

às vezes um cisco no olho
às vezes a queda
                           de
                           um
                           cílio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Flor chilena

se quero agora escrever
é porque Violeta já quis um dia

nada de poema (re)lento
lirismo parado, sem tempo
sem saber denada

não me importa não saber de mim
ou de ti
mas sim saber do mundo violento
- e vermelho
em que voou Violeta
ainda nem velha
longe das vistas,
rosto de índia
marca de varíola
Violeta pajarita
que não se aguentou sofrida
e morreu (como viveu)
mulher bonita.

há de estar feliz e de estar triste
pois Violeta canta e toca
e pinta e ama
e me faz chorar
enquanto eu, fraca
              (eu tola)
só me faço escrever
uns bobos versos diários
sem voz sem força

pois há de estar beirando a arte
tal qual fosse a própria vida
e nunca (nunca!) deixar
adestrar-se.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conto da apertação

Dinossaurava, com as mãos de unhas roídas postadas para a frente, abanando o vento e o caminho que vinha. Passava lento, complicando-se em cada pegada, e já nem mais as horas sabia ler por detrás dos longos pelos abandonados na era do preto e branco. As costas dromedárias deviam doer grunhidos no chegar cansado da tarde parda de pardais escondidos em vielas paulistanas. O amarelo nas sacadas e portas altas era o outono intocável do centro velho, entre postes de luz apagada, entre o dia que vinha à trabalho e a lua que não fazia questão nenhuma de postar-se parada vendo as vidas se cruzarem em bem-ou-mal-quereres. Ali nos víamos, amarelados pelos abajures da cidade, eu e o senhorinho, que andou tal como andava antes, parou rente à minha vista e tirou o marrom sujo dos sapatos junto com os sapatos todos, enlameados, sobrando de inteiro só o cadarço sujo. Saiu descalço, lento e doído, manchando o chão gelado com um sangue tão mirrado e tanto, nem nele cabiam adjetivos mais. A equipe de limpeza chegou naquela mesma semana e o sangue fraco, esparramado, foi-se em queda pelos bueiros, pelos cheiros do centro velho. Os pés do senhor cicatrizavam de poucos, à revelia das plaquetas precárias, enquanto (entretanto) as dores se enfrioravam cada vez mais. Passou dia, passou outro, e os cadarços, por travessura alheia, resistem segurando os velhos sapatos sobre a fiação, dependurados, espiando a todo tempo a cidade que nem mesmo a lua teve vontade de ver.

sábado, 9 de junho de 2012

tudo que se faz

navio novo no cais
  cada onda que passa
te amo inda mais.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Saga

qualquer quem
cada um
(cadafalso)
caiu da escada
gradual
            degrau
                        abaixo

estrela cadente
em cadeira de rodas
descansa luz
sossega o facho
e se fecha quadrada
no tapete da sala.