quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Santiago
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Nota #2
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Mendoza
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
Nota #4
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sábado, 12 de fevereiro de 2011
Caminito
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Latidos em Érre
Um minuto é muito tempo
Pra silêncio
De vogais
Silenciar vogais
É silenciar oração
Discurso, interjeição
Dos seres vivos deste mundo
Silenciar vogais
Leva consigo o som
De toda consoante
Dos seres vivos deste mundo
Não faço um minuto de silêncio
Porque choro é tom vogal
E soluços também se vogalizam
O leite de teus seios, mulher
É vogal tal qual
A erupção do estômago
Teu bocejo antes de apagar a luz
O ínfimo toque entrepasto
Dos dentes caríticos de um cavalo
E o berro bem ouvinte da vaca
Em rótulas parindo o quarto bezerro
São todos vogais por serem
Não vagais mas, entrelinhas
Voz de ser vivo
Silenciar vogais de máquina
É como tirar, não doce, mas rúcula
Da boca da criança
Maquinaria é consonantal
Não quero silenciar minhas vogais
En cuanto en la Ruta 7
Se quilometra o motor
De consoantes mortes
Vogal
O farfalhar minúsculo dos cílios
O rangido torcicólico quase inaudível
Do pescoço astrônomo e do girassol
Vogal
Do cão, o latido
A língua para fora
Bambolê entre as rodas de um caminhão
A ossada espremida
Vibrando no corpo
O ganido vogal da própria língua
E a benzamorte insistindo na agonia
Uns metros na frente
O império das rodas
Caminhonesca rota de sangue
O incessante zumbido dos érres.
Pra silêncio
De vogais
Silenciar vogais
É silenciar oração
Discurso, interjeição
Dos seres vivos deste mundo
Silenciar vogais
Leva consigo o som
De toda consoante
Dos seres vivos deste mundo
Não faço um minuto de silêncio
Porque choro é tom vogal
E soluços também se vogalizam
O leite de teus seios, mulher
É vogal tal qual
A erupção do estômago
Teu bocejo antes de apagar a luz
O ínfimo toque entrepasto
Dos dentes caríticos de um cavalo
E o berro bem ouvinte da vaca
Em rótulas parindo o quarto bezerro
São todos vogais por serem
Não vagais mas, entrelinhas
Voz de ser vivo
Silenciar vogais de máquina
É como tirar, não doce, mas rúcula
Da boca da criança
Maquinaria é consonantal
Não quero silenciar minhas vogais
En cuanto en la Ruta 7
Se quilometra o motor
De consoantes mortes
Vogal
O farfalhar minúsculo dos cílios
O rangido torcicólico quase inaudível
Do pescoço astrônomo e do girassol
Vogal
Do cão, o latido
A língua para fora
Bambolê entre as rodas de um caminhão
A ossada espremida
Vibrando no corpo
O ganido vogal da própria língua
E a benzamorte insistindo na agonia
Uns metros na frente
O império das rodas
Caminhonesca rota de sangue
O incessante zumbido dos érres.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Subte
Un hombre en el subte, oíndo nuestra lengua portuguesa:
- ¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
- ¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.
- ¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
- ¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.
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domingo, 6 de fevereiro de 2011
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Florida
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Escala
Eu poderia dizer que meu sono é leve ou pesado, que é formiga ou elefante. Mas acho que, analisando bem, o sono é a parte mais insegura de mim. Se desmaio em meu próprio colchão, então podem cair o mundo e todo o sistema solar, não abrirei os olhos tão fácil. Em compensação, cochilar em transporte público, por exemplo, é mais angustiantes que passar noites a fio em olhos escancarados de veias vermelhas. Pois não só sinto uma pontinha de medo de talvez, por uma infelicidade do destino, perder meu ponto e só acordar em Diadema quando na verdade deveria estar em Santana.Acho que meus poros e digitais se atexturam mais ainda, pois só uma força de atrito enorme (envolvendo o vidro do ônibus e meu cocoruto molengo de sono) para me acordar com tanta frequência.
Houve também uma vez, há uns dois meses atrás, que a literatura me absorveu mais que o normal, digamos assim. São raras as vezes em que consigo lugar para sentar no metrô, não sou sozinha no mundo e meus horários coincidem com os de milhares de estudantes e trabalhadores. Na Sé são abertas duas portas, uma para evacuar e outra para reespremer todo um bolo de narizes mãos e pelos de novo. Quando meus pés começam a pedir folga, não há delícia maior: abre-se a primeira porta e metade do vagão de adeserta, circulando consigo não só os pés que precisam bater cartão na hora certa, como também o malcheiro de suor, respiração e existência tribal, por instantes não em sociedade. Eis que então as cadeiras, cujo plástico azul se mantém quente por outras bundas, se encontram vazias e muitas. É preciso correr para sentar em alguma, antes que a segunda porta se abra e uma nova procissão trabalhadora se avolume na péssima estrutura proporcionada pelo governo tucano.
Porém, naquele dia havia lugar em sobra a me chamar logo que adentrei-me no trem. Cansada e sem ninguém necessitando do meu assento, abri A Morte de Ivan Ilitch e afinal a tal morte cheia de detalhes se fazia muito mais interessante que a aula de matemática. Só me arreparei do mundo real quando, em três estações depois da que eu desceria, terminei um dos densos capítulos. A aula já havia começado e eu até hoje não tenho muitas certezas sobre o que diabos é um senóide.
Em escala maior (e internacional, aliás!), vi afobada uma uruguaia cujo nome é Violeta mas que, etimologicamente desonrando-se, tinha o rosto em escarlate numa mescla unicolor entre nervosismo e vergonha própria. Estávamos eu e família desembarcando em Buenos Aires, os olhos piscando caminito, tango, Maradona, alfajor e mucho más. Violeta poderia estar num canto resolvendo os próprios probleminhas mas, pelo contrário, só sabia lamuriar-se entre uma ligação e outra. Violeta fora vítima da própria organização; passara a noite arrumando malas e documentos. Fora ao brasil para uma reunião de trabalhos e devia voltar logo, nem deu tempo de fazer valer alguma das minúsculas e cinzentas felicidaes urbanas de São Paulo (se é que há alguma felicidade para novatos internacionais). Em Montevidéu, lar doce lar, com histeria e ansiosidade esperavam em ancas gordas a mãe com tristes rugas, a irmã com tristes viuvagens e a louça com tristes rachaduras -- vítimas que são das discussões familiares.
O voo de retorno à casa infernal e às belezas latinas decolava às sete com destino Buenos Aires e escala Montevidéu. Sentara ao meu lado no avião classe econômica e, dormindo no ponto em escala digna da bela Aurora de nossas infâncias, desceu conosco na Argentina, muito contrariada consigo mesma. A mãe já discutia ao telefone e eu poderia entender todas suas multipolaridades (nenhuma delas com presença de saudade. Esta palavra não existe em nenhuma língua mas com certeza deveria existir em qualquer ser humano que vê-se abraçando o ar), caso entendesse a língua espanhola em velocidade cinco.
Violeta desligou o telefone e em surto de bigorna soltou os lábios repetindo substantivos e mais verbos no mais envolvente espanhol. Dei meus pitacos na história e ela, atrasadíssima para os afazeres de casa, num pré-choro preocupado, saltou os dentes brancos na pele índia e, sorrindo, puxou num arranco um espelho e um batom aveludado, numa cor meio roxa meio rosa, meio ela:
-- Un o dos días y... dicen que los argentinos son muy guapos. Ai ai, yo me voy a comprobarlo!
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Ida
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Sapateado
A última canção, que seja em coro
Que tente o tom
Que tenha compasso onomatopéico
Que solte enfim a interjeição
Reprimida pelas grossas lentes prisão
Pelas chapas afiadas das seis às seis
Pelos olhos dos outros
Enquanto a miopia é a grande peste.
A última canção que tenha percussão
Que balance cabelos
Batuque as ossadas
Que tenha vento de trem
Porque trem sempre esteve a nos guiar
Mesmo sendo de berço tão metálico
Quanto fábrica indústria revólver
A última canção, que tenha voz de menino
Que conte lunetas, histórias e passos
Afinal, são 107 passos
Que se acabe essa aflição
Esse esboço mal-dormido
Essa vida vista mal
Que se implante óculos em pupila
Que se ouça buzinas e estalos
Que se faça bela Mary
Que se veja bela Mary
Que se saiba sapatear sem olhos
Mas para danças é preciso chão
Mesmo que por ínfimos segundos
Entre um salto e outro e outro
E a forca tira força
Tira som do pé da moça
E passa o grito à boca
Sem nenhuma afinação
Sem a voz sincronizada
De uma peça musical.
Que tente o tom
Que tenha compasso onomatopéico
Que solte enfim a interjeição
Reprimida pelas grossas lentes prisão
Pelas chapas afiadas das seis às seis
Pelos olhos dos outros
Enquanto a miopia é a grande peste.
A última canção que tenha percussão
Que balance cabelos
Batuque as ossadas
Que tenha vento de trem
Porque trem sempre esteve a nos guiar
Mesmo sendo de berço tão metálico
Quanto fábrica indústria revólver
A última canção, que tenha voz de menino
Que conte lunetas, histórias e passos
Afinal, são 107 passos
Que se acabe essa aflição
Esse esboço mal-dormido
Essa vida vista mal
Que se implante óculos em pupila
Que se ouça buzinas e estalos
Que se faça bela Mary
Que se veja bela Mary
Que se saiba sapatear sem olhos
Mas para danças é preciso chão
Mesmo que por ínfimos segundos
Entre um salto e outro e outro
E a forca tira força
Tira som do pé da moça
E passa o grito à boca
Sem nenhuma afinação
Sem a voz sincronizada
De uma peça musical.
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sábado, 22 de janeiro de 2011
Devassalador
- Quantas, Seu Tonho?
- Menino, você me veio aqui não faz nem uma hora!
- Mas... não tem nada?
- Espera um pouco, vou buscar... tem duas.
- Ai, Seu Tonho, que miséria!
- Hoje é dia de semana no meio da tarde, vem pouca gente. E você se assossegue, moleque! Tá com fogo nas calças, é?
- Brigado, Seu Tonho!, depois passo aqui de novo!
- Ê, menino doido...
As pernas finas feito graveto saíram em disparada do Bar do Seu Tonho -- estabelecimento totalmente típico de esquinas -- atravessando as vielas quebradiças até chegar na rua onde, à quarta casinha à direita, aquela em tom amarelado, tinha cama comida e água, na medida do possível. Os outros moleques da rua, concentrados em aquecer as mãos para virar todas as figurinhas em modos magistrais, quase nem repararam no estardalhaço apressado de Lucas. De quase em quase, pode acontecer de tudo.
- Lucas, vem cá e traz aquela sua repetida do Robson do Fluminense, que eu preciso completar meu álbum e vou ganhar ela de você é no bafo!
- Sai da minha frente, Edu, não tenho tempo agora!
- Você tá é com medo, isso sim.
- Me deixa em paz!
Estrebuchando, o menino se jogou na maçaneta da porta, entrando em casa em plena afobação, enquanto todo o bando lá fora gritava, covarde pra cá, covarde pra lá, para em seguida voltar às discussões habituais de "você tá roubando!" "ah, não! Não aceito isso, devolve minhas figurinhas!" "não sabe perde-er!", e por aí ia. Dentro de casa, ah sim, estava tranquilo, ninguém para atazanar ou se empenhar a dar palpite. Pai e mãe em hora de trabalho, a irmã devia estar na casa de alguma vizinha, coisa com a qual não precisa se preocupar. Iniciou-se, então, o ritual. Não que fosse instante raro ou digno de atenção individual, um momento importante para a humanidade, marco demarcante de rumos do mundo. Talvez rumos mundanos, isso sim. A casa, modesta, era térrea, e a porta de seu quarto dava de cara com a janelinha pricipal. A mesma janelinha pela qual bizoiavam olhares curiosos -- mexeriqueiros -- das tantas velhas de ossos tortos que, sem vias de comprar uma bengala, se apoiavam no carrinho de feira cheio de ferrugem e uma contada quantidade de grãos e tomates. Se o passo era cansado mesmo, por que não dar uma espiada, só pela segurança da casa, no interior dos aposentos da família Pereira? Mãe trabalhadeira, pai macho e respeitoso, família em certa ordem. Uma olhadinha pela janela, só pra assegurar que não hajam quaisquer eventualidades negativas.
O menino já ia começar sua atividade, e saiu cheio de vergonhas fechando a veneziana de madeira carcomida. Voltando ao quarto, começou a procura. "Não é possível, não é possível, peguei naquele saquinho não faz nem duas horas!" Meteu os dedos dentro de todas as gavetas do armário, não estava. Nem junto dos pares de meia! "Ai meu deus, ai meu deus, onde está aquele saquinho maldito? Não pode ser, não pode ser, por que papai teria encontrado? Ele não pode ter encontrado, não pode. Escondi depois de mamãe fazer minha cama." Já começava a suar, metade por medo das indagações paternas, metade porque tinha vontade de achar, mesmo. Apalpando o lençol desbotado da irmã que, mesmo já em pré-plenitude adulta, dividia quarto e abajur com ele, sentiu ali, o saquinho cheio de ângulos pontiagudos: cá se está.
Por que lá haveria de estar?, Lucas perguntaria se não estivesse de olhos arregalados em sua compulsão por abrir o saquinho, matematizar o conteúdo e, em seguida, humanizá-lo, talvez até por demais, nesse quesito. Os dedos mansos de unhas roídas desataram o nó já tentando jogar tudo no chão para, ali no quarto mal iluminado, fazer valer mais uma vez todo o rito.
- Dois, quatro, seis, oito, dez, doze... calma.
Dois, quatro, seis, oito, dez, doze, catorze, dezesseis, dezoito...
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete.
Enfia a mão no bolso, inteira, apalpando o que é o quê. "Mais as duas novas. Dezenove. Razoável, já, hein. Uma só já é suficiente, mas dezenove!, rico deve estar é o Seu Tonho!" Afobado, só depois de ter em mãos e ninho suas pequenas preciosidades é que estava em condições de sentir o calor infernal que se aglomerava no quartico de miserinhas. Despido da abafada camiseta, saca uma das tampinhas vermelhas de cerveja, com metal todo bem cuidado, e espalha as outras dezoito ao seu redor. Do tamanho de uma unha, lá está ela. Bonita, sim, em lingerie branca como ela toda, inteira decorada em dois tons de sombra e luz, em pose aos olhos do menino, afoitos. Pois revista de mulher pelada esvaziaria muito mais os bolsos de Lucas, já preocupado com as figurinhas nas moedas contadas que a mãe dava com aperto na mão; cada vintém era valioso porque deveria ser entregue em porção igual à tal irmã. Ela, porém, juntava tudo numa caixa de sapatos para comprar um estojo de canetinhas, daquelas bonitas, brilhosas e aromatizadas, que não falham nunca, nunquinha.
Lucas poderia ter metido a mão nas humildes economias da irmã, mas de que valeria? As figurinhas são possíveis e, sendo as revistas muito caras, tinha gratuitamente em mãos coisa mais instigante, em forma feminina, estampada bem na tampa de certa garrafa de cerveja. Em um giro trezentos e sessenta graus, vistoriou uma última vez a casa completamente vazia e, comprovando tal contexto, finalizou o ritual, dando início a outro maior ainda (porém maior só de espírito porque afinal o garoto estava ainda em infâncias). Da bermuda azul de beiradas sujismundas, com o impulso da mão que o arrancou para fora, viu o mundo uma minhoquinha pelada e fina, que Lucas acariciava enquanto olhava a pin-up devassa da tampa etílica. Cuidando do bem-estar próprio, Lucas não conseguia ser tal qual adulto nem em situação daquele tipo, que aliás costumava ser cada vez mais recorrente. O menino se afobava aos montes em gana prazerosa enquanto via à imagem da mulher, mas nunca conseguia ser brutal. Delicado, isso sim, com uma singeleza do tamanho de um mar -- o rito do menino, aliás, lembrava brincadeiras no mar, que a gente até se perde quando nela está, mas nunca perde atenção porque senão a correnteza leva. A pele se eriçava toda, por conta da força não do menino na coisa mas da coisa nela mesma, lembrando asfalto de rua mal cuidada -- parecia até, pra dizer a verdade, a rua em que Lucas morava, a mesma que por um momento crucial de mundo e tempo atritou-se junto a um carro em freios desvairados, trovejando assim no roçar do pneu com o chão. "É o pai, é o pai!" O menino amedrontado (sem nem saber direito o porquê, pois em verdade nenhum mal havia para a humanidade tal ato de carinho próprio) rasgou-se a juntar todas as tampinhas de cerveja, todas as belas e devassas mulheres que, do tamanho de uma tampa de cerveja, tanto entretiam seus seis-anos-quase-sete. Era tudo culpa desse tal medo sem motivo, porque afinal, pai que é bom, nada. Estava ainda em trabalho e só foi dar com os pés na pequena casa por volta das oito da noite, inclusive atrasando a janta. O saquinho ficou sobre o travesseiro, fazendo um pouco de volume, é verdade, mas nada muitíssimo perceptível. No dia seguinte seu conteúdo se espalhou mais uma vez pelo chão, assim como mais uma vez todo o rito de prazer se fez a única sensação da casa, ante tanta falta de tato neste mundo. Mas, durante a janta, pai mãe Lucas irmã em torno da mesa modesta de arroz feijão banana, sim, até durante a noite, que só assim se fortalece. A sala inteira, longe de calada, só tinha ouvidos para discussões tolas ou levianas. Nada muito sério, valha-me deus! É certo que o menino vez ou outra soltava impropérios irritantes e apimentava a relação árdua com a irmã, mas era também só por causa daquele medo já contado. Pra esquecer da mulher etílica, que por sua vez, porém em vão, serve como passatempo enquanto não se fazem valer os sonhos de esperança, diversão, pipoca e sorvete, com a trapezista de um circo que foi embora semana passada. Tinha belas pernas, aquela moça. Não tão belas quanto a brancura leitosa dos dentes, que se arregaçavam por detrás da boca opaca em batom escarlate. Lá no topo do círculo circense, no teto do colorido picadeiro, ela ia e voltava, ia e voltava, incessante, ir e vir, ir e vir, ir e vir e ir e vir e ir e vir e ah ah ahhh! Circo é rito.
Lucas poderia ter metido a mão nas humildes economias da irmã, mas de que valeria? As figurinhas são possíveis e, sendo as revistas muito caras, tinha gratuitamente em mãos coisa mais instigante, em forma feminina, estampada bem na tampa de certa garrafa de cerveja. Em um giro trezentos e sessenta graus, vistoriou uma última vez a casa completamente vazia e, comprovando tal contexto, finalizou o ritual, dando início a outro maior ainda (porém maior só de espírito porque afinal o garoto estava ainda em infâncias). Da bermuda azul de beiradas sujismundas, com o impulso da mão que o arrancou para fora, viu o mundo uma minhoquinha pelada e fina, que Lucas acariciava enquanto olhava a pin-up devassa da tampa etílica. Cuidando do bem-estar próprio, Lucas não conseguia ser tal qual adulto nem em situação daquele tipo, que aliás costumava ser cada vez mais recorrente. O menino se afobava aos montes em gana prazerosa enquanto via à imagem da mulher, mas nunca conseguia ser brutal. Delicado, isso sim, com uma singeleza do tamanho de um mar -- o rito do menino, aliás, lembrava brincadeiras no mar, que a gente até se perde quando nela está, mas nunca perde atenção porque senão a correnteza leva. A pele se eriçava toda, por conta da força não do menino na coisa mas da coisa nela mesma, lembrando asfalto de rua mal cuidada -- parecia até, pra dizer a verdade, a rua em que Lucas morava, a mesma que por um momento crucial de mundo e tempo atritou-se junto a um carro em freios desvairados, trovejando assim no roçar do pneu com o chão. "É o pai, é o pai!" O menino amedrontado (sem nem saber direito o porquê, pois em verdade nenhum mal havia para a humanidade tal ato de carinho próprio) rasgou-se a juntar todas as tampinhas de cerveja, todas as belas e devassas mulheres que, do tamanho de uma tampa de cerveja, tanto entretiam seus seis-anos-quase-sete. Era tudo culpa desse tal medo sem motivo, porque afinal, pai que é bom, nada. Estava ainda em trabalho e só foi dar com os pés na pequena casa por volta das oito da noite, inclusive atrasando a janta. O saquinho ficou sobre o travesseiro, fazendo um pouco de volume, é verdade, mas nada muitíssimo perceptível. No dia seguinte seu conteúdo se espalhou mais uma vez pelo chão, assim como mais uma vez todo o rito de prazer se fez a única sensação da casa, ante tanta falta de tato neste mundo. Mas, durante a janta, pai mãe Lucas irmã em torno da mesa modesta de arroz feijão banana, sim, até durante a noite, que só assim se fortalece. A sala inteira, longe de calada, só tinha ouvidos para discussões tolas ou levianas. Nada muito sério, valha-me deus! É certo que o menino vez ou outra soltava impropérios irritantes e apimentava a relação árdua com a irmã, mas era também só por causa daquele medo já contado. Pra esquecer da mulher etílica, que por sua vez, porém em vão, serve como passatempo enquanto não se fazem valer os sonhos de esperança, diversão, pipoca e sorvete, com a trapezista de um circo que foi embora semana passada. Tinha belas pernas, aquela moça. Não tão belas quanto a brancura leitosa dos dentes, que se arregaçavam por detrás da boca opaca em batom escarlate. Lá no topo do círculo circense, no teto do colorido picadeiro, ela ia e voltava, ia e voltava, incessante, ir e vir, ir e vir, ir e vir e ir e vir e ir e vir e ah ah ahhh! Circo é rito.
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Poema Amarelo
Dia desses tive um sonho
Em que tu só me chamavas
(Tão lindo, tão lindo)
Num querer de seduzir-me
Pois não é que abro o olho
Me vejo toda mijada
(Resquício de um sono findo)
Teu nome: privada.
Em que tu só me chamavas
(Tão lindo, tão lindo)
Num querer de seduzir-me
Pois não é que abro o olho
Me vejo toda mijada
(Resquício de um sono findo)
Teu nome: privada.
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Poligamia
Só vim aqui te avisar:
Não sou somente tua
Nem sob sol nem sob lua
Só vim aqui te lembrar:
Fração minha cochila no meio da rua
Te aguarda, sob lençol de nuvens, toda nua.
Não sou somente tua
Nem sob sol nem sob lua
Só vim aqui te lembrar:
Fração minha cochila no meio da rua
Te aguarda, sob lençol de nuvens, toda nua.
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