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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quatro Segundos


Toda noite, depois do copo de leite morno que por sua vez é depois da janta, Mirtes toma banho. No inverno, ela já escova os dentes debaixo do chuveiro, para não precisar encostar na água gelada da pia. Toda noite, três segundos depois de desligar a água, uma gota gorda cai no nariz de Mirtes, que portanto leva um susto besta toda noite. Essa noite, Mirtes contou até três e a gota não veio. Olhou para cima, surpresa, e a gota atrasada jogou-se, acrobática, em seu olho direito no segundo seguinte. Na noite depois daquela, em seguida do copo de leite morno que por sua vez foi depois da janta que por sua vez foi depois da ida ao oftalmologista, Mirtes toma banho olhando para baixo. É preciso cortar as unhas dos pés. 

domingo, 17 de julho de 2011

Feito romance de livro

A escada em espiral denunciava toda pegada como um infinito flagra. Quando o sol vinha, laranja feito quitanda, das noites calorentas, já encontrava a janela aberta. O gato da izinha, malandro de jeito, passava pela fresta que dava para a sala de estar. Lá no andar de cima, o menino de olhos pequenos. Na sala, o tapete duro de trança exata, milimetrada. Foi por conta do rangido da escada, rangido maldito que acordava a mãe do menino, que o gato da vizinha aprendera a andar pelas paredes em tipo reptílico. Depois, se engruvinhava silencioso na cama quieta do menino, cúmplice meio acordado. Poucos minutos depois, a mãe levantava em histeria furiosa e botava para fora o insistente bichano que, apesar de tudo, ainda não aprendeu a ser feliz sem ronronar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pré-socratismo

As luzes de celofane colorido imitavam o poncho sobre a mesa. Os colegiais, todos muito bobos, pisavam nos pés uns dos outros ao som das baladas românticas de Nat King Cole. Não sabiam muito bem o que fazer, mas iam porque, bem ou mal, viam no baile da escola o evento mais esperado do ano. Os que já tinham par grudavam no companheiro, na esperança de que ele soubesse o que fazer. Os outros observavam, enquanto enchiam a tacinha de poncho a cada dois minutos, achando um qualquer coisa para brilhar olhos de acontecer. Brincavam consigo mesmos de apostar talvezes. Ela estava bonita em seu vestido azul, de cetim fosco e alça fina. A mãe, toda graça, largara seus afazeres durante a manhã por uma semana para preparar a roupa sem que a menina soubesse. Durante a noite, esperou o sono da filha para medir seu corpo -- se é para fazer, que se faça direito, é o que eu sempre digo -- assim sempre dizia a mãe. Suas mãos leves, quase ventríloquas, arrastavam a fita métrica durante o início da madrugada por entre a pele pelada, cor de goiabeira, da menina cujas goiabinhas ainda eram botão. Ali percebeu que em algumas semanas precisaria comprar um soutien, no menor de todos os tamanhos. Porém, ainda era jeca demais para falar de qualquer coisa envolvendo intimidades, imagine então falar das suas intimidades refletidas no íntimo da filha e de todas as outras mulheres do mundo? O marido saía cedo, em relógio exato que a esposa adiantava para que ele pensasse ser rápido andando até o trabalho. Voltava tarde e assistia televisão até altas horas, pois toda noite um bang-bang diferente se explodia no preto e branco em frente à sua poltrona. Era uma poltrona confortável, pois tinha nas costas três botões brancos que massageavam a medula.

No baile, a menina olhava em volta com olhos de pára-brisa, sentada em uma cadeira confeitada. O vestido, bonito, escondia bem, seus culotezinhos, que contrastavam com seu rosto fino de gente grande. O caimento do cetim se exuberava com discrição graças à aplicação dos botões brancos da mãe, em efeito vingativo, em sua primeira tentativa ínfima de rebeldia. A barriga já reclamava do tanto de poncho que a menina tomara e, ao chacoalhar-se, fazia um barulho baixinho de aquário. Estava feliz por Denise, a amiga bonita, que dançava com um menino desejável. Achava surpreendente que Eugênio estivesse conversando com uma menina mais velha e, no íntimo, observou com olhos duros a ridícula maquiagem de Raíssa para esconder uma pequena espinha. Chegou à conclusão de que seria melhor a menina não usar maquiagem nenhuma, uma espinha não ia jogar fora seu jeito bonito. Ao lado da mesa do poncho, dois meninos conversavam e olhavam para ela, sentada sozinha. Eram meninos, no mínimo, peculiares. Um pouco estranhos, mas ela observava com curiosidade, apostando seus talvezes. Usavam óculos garrafais e tinham nomes bizarros, mas eram bem inteligentes. Apesar de tudo, pareciam saber rir. Um deles era mais carrancudo e o outro, de cachos grandes e camisa mais solta, parecia mais aberto. Ela entendeu, teria que levantar e ir até um deles, antes que brigassem e jogassem poncho para todos os lados. Lembrou-se de alguns estudos que fizera na escola e decidiu pelo segundo menino. Pela lógica, pensou escolher Heráclito pois, se Parmênides ainda nada fizera, sua teoria da imutabilidade o impediria de qualquer novidade, enquanto com Heráclito tudo poderia acontecer. Levantou-se e Heráclito, mirrado e esquisito, deu alguns passos à frente. Parmênides passou o resto da noite mijando por ter tomado tanto poncho e o pai da menina com dor nas costas pela ausência de botão no bang-bang da poltrona.

domingo, 3 de julho de 2011

Todo o mal do mundo no prego da propriedade

Era menina ainda, dessas pequenas pequeninas. Nem ousava pensar em ser moça ou gente do gênero. Andava no canto da calçada, a mão atada à da mãe, que tinha medo dos perigos da metrópole. Foram até a locadora buscar algum desenho animado para animar o cobertor do sofá e o chocolate morno, numa temperatura que não queimasse sua língua infantil. Na volta, um caminho de edifícios baixos lembravam os anos cinquenta, os tais dos tempos dourados. As casas antigas eram simpáticas, combinavam com a singeleza do bairrinho, gentileza entre os escombros do real e grande bairro. Passaram frente a uma casa que se escondia atrás de um muro alto, escuro, de grades gordas impedindo qualquer mexerico. Fora há alguns anos a casa de um velho oficial da polícia militar, que na certa tinha medo do retorno daqueles que ferira sem motivo. Os tantos manifestantes de setenta e pouco, que morriam depois dos desaparecimentos, podiam muito bem, plasmáticos feito chama de fogo, pular o portão a qualquer momento atrás de justiça, era o que pensava sua cabeça amedrontada pela culpa de seus crimes legalizados. O policial já havia se mudado há alguns anos, mas o muro prosseguia no mesmo padrão. Dele saía um prego torto, sem ponta, prova da violência que aquela casa abrigara. A menina passou e o prego num baque puxou sua blusa de lã vermelha. Ela tentou prosseguir e por um minúsculo segundo, despreparada, deixou-se ter o corpo empurrado para trás. O pescoço criou marquinha da gola fechada, que em poucos minutos se fizera esquecido. A blusa, tricotada pela avó no inverno passado, tinha então uma das mangas esgarçadas, o enlace do tricô arrombado pelo prego. Bem menina, menina mesmo, ela tirou suas primeiras conclusões sobre os muros e a propriedade. Conclusões nada boas, diga-se de passagem. Chegou em casa desanimada, tentando de todo jeito juntar os fios de sua blusa.

domingo, 8 de maio de 2011

Pente

- Quer ajuda?
- Não, eu tô bem. Brigada.
- deixa que eu faço isso, amor!
- Já falei que não precisa, obrigada.
- Você não tá conseguindo fazer direito atrás. Dá aqui esse pente...
- Tó, seu chato.
- Tá vendo só? Tá desembaraçando muito melhor.
- Tá é doendo, isso sim. Ai!
- Para de frescura e guenta as pontas, amor.
- Você é inconveniente demais, deus do céu! Dá o meu pente aqui.
- Amor, relaxa... já vou acabar, o problema é que tem nó demais no seu cabelo.
- Muito obrigada pelo carinho, meu querido, mas do meu cabelo eu sei cuidar. Sozinha.
- Eu sei disso, amor. Só achei que você tava estragando muito seu cabelo, penteando daquele jeito. Mas também né, um pente novo e uma hidratação vão bem, né?
- Pode parar com isso, quem cuida do meu cabelo sou eu e...
- Amor, você precisa parar quieta para eu pelo menos pentear direito.
- ...e da minha cabeça também cuido eu.
- Cadê a tesoura? Aco que precisa cortar as pontas, avivar esse corte.
- Você não sabe nem cuidar do próprio cabelo. Para com isso, por favor. Antes de qualquer coisa a gente precisa conversar.
- Se eu parar agora, esse nó gigante vai secar e seu cabelo vai ficar mais ninho de mafagafo do que já é. Aí o corte vai ser mais forte e você vai ficar resmungando. Diz logo, amor, cadê a tesoura?
- Querido, eu sempre tirei sozinha os nós do meu cabelo, que está sempre bem tratado, diga-se de passagem. Eu já ia tirar esse nó quando você arrancou o pente da minha mão e só piorou tudo. Isso tá doendo, pare agora. Podemos conversar, por favor?
- Peraí, seu cabelo é tão armado que ainda está cheio de nós, amor. Fica quietinha um minuto só.
- Meu cabelo não está cheio de nós mas eu está cheia de nós dois. Chega.
- ...
- !
- Amor, cê ainda tá aí? Você esqueceu seu pente!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Iracema em 50 palavras

Tudo isso é muito simples, minha gente: a mina é virgem e bonita e toda morena e é tonta de paixonite pelo branquelo que finge que ama mas na verdade só esnoba a coitada. É que, vejam bem, literatura é muito legal mas, convenhamos: romantismo é um pé no saco.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Dicionário Ululante das Palavras Ambulantes

O Vocábulo, crendo-se eterno vocativo, banhava-se no vestiário masculino. Quando a vaidade já ia aquém do possível, virou a válvula do chuveiro e aveludou-se na toalha vermelha que virava cor-de-vinho em contato com o vapor. Vasculhou mochila e vasilhas em vão:

- Quem verteu-se de minhas vestes? 

Todas as vistas voltaram-se ao Vocábulo que, vejam bem, não passava de mais um verbete naquelas páginas envidraçadas. "Vai ver procurara sem veemência", pensaram os outros verbetes, voltando-se em dúvidas. 

- Vândalos!, Vocês deviam ter vergonha de tais invirtuosidades! Vagabundos!

O vácuo dos ouvintes vibrava com o vociferar nem um pouco vacilante do Vocábulo. Na verdade, não havia vulgaridades no vai-vém dos vultos-palavra, não era esse o motivo pro sumiço das vestes. Sem qualquer voyerismo "vil" (somente a presença de uma vagina outra, dos verbos que, convenhamos, dependem dos pronomes para fazer valer seus gêneros). O vestiário aos poucos se esvaziava, pois todos os verbetes vivem em viagem, entre as vozes tantas nos palavrórios humanos, nos versos, no voo ao vento. Porém, as ventas do Vocábulo ainda esvoaçavam de valentia que, de leve e percebendo a própria vergonha, foi virando-se violento vexame, ele só e nu, inválido no vestiário. Virgem, sem violetas, vinténs ou viravoltas, voltou-se ao chão feito verruga com vertigem e, vítima de verborragia súbita, envenenou-se a si mesmo pela vida. No ar, os violinos se calavam, sem devoção alguma à vasta avareza do Vocábulo, sem fazer valer velório. O que o Vocábulo (vai saber o motivo da maiúscula) não viu é que verbetes e vocábulos tem desvestes até em vogais, são nus até sob véu: são, veja só, vulneráveis ao autor de verdade, que consegue envoltar todos de voz.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pablo

San Telmo, em Buenos Aires, pode ter em suas calles de domingos os mais dramáticos tangos em novelas de marionete. Os italianos que parlem, parlem, parlem, mesmo que a seus modos cheguem a reger orquestras. O leque negro no olhar indígena ou até as mil asas do beija-flor, não importa. Difícil haver - e se ver - mais graça que en Pablo, que eu diria até Pablito. Existem muitos tipos de garçom no mundo, dos mal-humorados aos mentirosos de otimismo, passando pelos destrambelhados, desesngonçados, desesncontrados, desesnganados, também os galantes e os bons de papo. Por Nova Iorque, São Paulo, Barcelona, Sidney e Verona. Mas é em Olmué, rente à praça principal, que Pablo recita suas gastronomias. Seja atum vietnamita, seja batata saltada ou agridoce salada, Pablo se empolga exibindo as novidades que se emprega a servir. Arregala os olhos feito girassol e gesticula com as mãos de grossas unhas. "Cual és la diferencia entre el atum de Vietnã o de Japón, por ejemplo?" No que ele incrementava: "Bien, yo no sé al certo, pero hay una diferencia, és un plato maravilloso!" E, de pé na cabeceira da mesa, em espanhol chileno tão gentil, recomeçam as histórias dos cardápios, dos companheiros indígenas mapuches e das músicas locais. Os olhos não miram tão longe, pois os amigos estão a poucos centímetros, ao sabor de peixe e ensalada. Talvez sua vista intente, inconsciente, a diferencia latino-americana, increíble como o atum do Vietnã. Talvez, talvez, quem vai saber?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Amor Vocativo

- Não acredito, amor! Que presente lindo!
- Você merece, amor. Merece isso e muito mais, no seu aniversário e sempre!
- Nova York deve ser maravilhosa, amor! Quando vamos? Ah, eu te amo tanto!
- Eu te amo demais, meu chuchu! E vamos nas próximas férias. Ainda precisamos conseguir passaportes, reservas de hotel, pacotes turísticos...
- Nossa, é mesmo, pode deixar que eu cuido dessas coisinhas. Obrigada, amor! Será uma viagem maravilhosa, só eu e você.
- Só eu e você, amor!

E eles se beijam feito gelatina de framboesa. E assim, gelatinando, eles passam o tempo até chegarem as férias, enquanto aprontam os ultimatos da viagem. No aeroporto:

- Amor, estou tão ansiosa!
- Você vai adorar os Estados Unidos, querida! Assim como eu adoro você, minha linda!

Em estado gelatinoso, eles se dirigem ao guichê da polícia federal, onde são verificados os passaportes. Tudo certo e carimbado à tinta preta, eles pegam o passaporte de volta. Rumando a sala de espera do avião, a gelatina começa a se dissolver:

- Eu não te amo mais. 
- Amor, pare com essas brincadeiras. Daqui a pouco vão nos chamar para entrar no avião!
- Mas eu não te amo mais.
- Por quê? O que eu fiz?
- Não fez nada.
- O que aconteceu então?
- Eu vi.
- Viu o quê? Amor, você está doente?
- Vi a foto do seu passaporte. Você não é a mulher bonita que eu conheci. Você é horrível. Não consigo amar uma pessoa feia como você. Adeus.

Tão quieta e sozinha quanto entrou no avião, saiu. Ele, que tivesse o passaporte mais belo do mundo; em carne e osso, conseguiu fazer-se o ser mais horrível do mundo. No verão nova-iorquino, ela e todos os assobios e piscadelas. 

Lição para a vida: Nunca julgue ninguém pela foto do RG, da carteira de motorista ou de estudante, pelo carômetro escolar e muito menos pela foto do passaporte. Não há ser vivo que saia bonito naquela maldita 7x5. 

14/01/2011
No ônibus, rumo ao Chile, após passar pela alfândega.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Subte

Un hombre en el subte, oíndo nuestra lengua portuguesa:
¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Bandidagem


Tlic. Tlec.
- Vó, acabou a luz.
- ;
Tlictlectlictlec.
- Ô vó!
- ...hm?
- Cabô a luz...
Tlictlectlictlec.
- Viu?
- Hoje saiu a lua, querido. Assim grandona. A lua não tem chama, ela é de frieza brilhante, toma os flashes emprestados e fica lá bonita, só chamando a gente. De onde você acha que ela rouba a luz?
- ;
- Abra a janela, vá lá.
- Pra quê, vó?
- Não queres luz? Vá lá e pegue um pouco emprestado. Guarda nos olhos um reflexo de mundo, que assim você vive por mais tempos.
Nhec. Janela emperrada é de desuso. Pó; trincas com trejeitos de envelope.
Abriu. Cartas são coisa de beleza cursiva, beleza de fibra.
(A lua é uma rosa branca, dessas que desabrocham que nem curiosidade de menino. É jaboticaba, tal qual curiosidade de menino, que pela manhã macaqueia na árvore de raiz noturna, uma raiz gigantesca que cobre o céu e forma um ninho. Esse mundo-ninho, mundo-moinho.)
- E quando a luz volta, vó?
- Logo pela manhã, tem sol por essas bandas, iluminando casa, rua e pálpebra. Afinal, com aquele calor todo, quem você acha que assa nossos pãezinhos toda manhã até deixá-los dourados?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Do nosso sertão rosado


A saturação cresceu. As folhas secas de mentira carregam, mascaradas, mais poeira concentrada. Isso tudo não passa de falsa pigmentação. E o céu, ah céu!, de limpeza ancestral, azul desnuveado, desnudo. Justo hoje, dia pós. Pós-fogo, pós-bichos, pós-estrela, pós-causo, pós-causa, pós-coisa, pós-chapéu, pós-gado, pós-pó - eu bem sabia que esse sertão tinha algo de ressurreição. Pós-pretérito, pré-São-Paulo . Agora, esse agora tão falado, esse mesmo, agora já foi: já foi vãn, já foi cantoria, já foi saltimbanco, já foi de leite, já foi cão, já foi alpercata, já foi charminho, já foi maçã. Na-na-não. Descobri no fundo de minha mochila sertaneja uma última maçã, vermelha feito sangue de tiro jagunço, que eu catara para uma última vereda, uma andança final nas estradiças de Cordisburgo, em algum lugar desse pontinho cartográfico que é o coração. 

Sentei-me eu meu chão de tacos paulistanos empapados de verniz (estar à burguesa cama parece agora ainda mais impossível). Cá eu rasgo dentadas de onça em minha maçã-resquicio, que sobrou de alguma trilha sem fomes. Já algumas escuridões invadiram-na, já umas sombras chafurdaram a velhice (Rosa, presente em meu fruto, já completou centenário). Mas é boa, assim dessas que dão gosto gastar mandíbula. A maçã, resquício das terras empoeiradas que tanto amei, encroquece o céu da boca, sem qualquer trejeito de areia, essas coisas que odeio mastigar. A maçã é mar em cor do sertão. Naveguemos no mar mineiro, agora já, nessa São Paulo que me devora e alimenta, edifica-me. 

Se fizeres um esforço, dá pra ver a olho nu, lá pros bandos da semente: eis que, nesse oceano do mais fresco pó, o calado homem do bote, outrora de sentidos vendados, desdiz-se, desdói-se, e descobre onde está, enquanto cantarola com grossa garganta, em tom de berrante: "Ninguém de mim, ninguém de mim, tem compaixão, tem compaixão." O bote não passa de viola; resta seguir as cordas afinadas para achar os tais caminhos. A maçã acabou e se desengoliu, enquanto a semente eterniza-se comigo, acá junto de minhas palavras de brasa, nessa tal terceira margem. O resto, a gente intui.

(07/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Natalie

Aqui comigo do meu lado tem uma menina beirando a década, uma só. Uma menina bonita, um nome bonito, uma dupla de olhos que é boniteza só. É cor de tronco, mas carrega o mar, em formato de onda. Dedo na boca, maçãs rosadas. Esses dedinhos gordinhos, de unhas luar, mudam a idade, não sei se pra mais ou pra menos. Ela olha com os cantos dos olhos pr'essa gente esquisita que anda comigo, esboçando sorrisos envergonhados, caipirescos como ela mesma. Mexa esses teus pezinhos de unhas tutti-frutti - adereço de criança - e senta aqui comigo na varanda!, vamos juntas combinar as brincadeiras e bambolês pros minutos do agora-já, nessa tarde que se achega e aconchega.

(06/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Limbo não é vácuo

"Dorme a cidade / Resta um coração Misterioso Faz uma ilusão Soletra um verso Lavra a melodia Singelamente Dolorosamente Doce a música Silenciosa Larga o meu peito Solta-se no espaço Faz-se a certeza Minha canção Réstia de luz onde Dorme o meu irmão"


O sol desmaiou. Daqui a pouco ele volta, é só esperar mais umas dez, onze horas. Enquanto isso, tem outras faíscas por aí, para entreter e manter. No tronco em chamas, choros, histórias; no queijo abrasado, desses mineiros mesmo; no cobertor xadrez e nas mãos maternas. Nos cabelos dessa gente bonita minha. Enquanto isso as infantes moçoilas, outrora rodopiando entre frescores e grama, limpam os pés no tapete de entrada - "Bem vindo!" - e falam sem parar, entre um baralho ou outro, entre mínimos tecos de doce furtadinhos de pouco em pouco. 

Agora é tempo de rede, mas alguns ainda estão a janelar - sempre é tempo de janelar, convenhamos. Essa gente aqui gosta de contar suas histórias, ainda mais de cotovelos ao poente rural. Agora não é amarelo nem azul, agora é coisa do mais verdadeiro diabo (só pode ser), nem fotografia guarda porque os focos são múltiplos, são abertos, são a difusão de um horizonte. Espera um pouquinho, oras. Pois o fogo é feito em turnos, mas o do tal agora não atrasa, não - Sol, fogueira, humanidade. Qualquer coisinha, é só isso: a gente se agarra e vira fogo mútuo, ê amizade. O agora tem céu degradê, mas ainda esquenta. Aproveita o céu de agora, que daqui a pouco ele se esvai, o vento leva (esse vento insiste em levar prazeres, ideias, lembretes, pois é). Não te preocupes, bela moça. Do nosso fogo, esse fogo bonito e solidário, desse mesmo: fazes parte dos próximos turnos.




(06/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

domingo, 12 de setembro de 2010

Maquiné


Só se ouve o farfalhar das patas no solo estável. (Estável é palavra que devia ter significado oposto, pois o que está não é sempre, só fica sendo frações de momentos.) No breu sem falsas luzes vagueia um cão. E elefantes. Águas-vivas, abutres, formigas, dinossauros, porcos, lobos, dromedários. Andam todos em maneiras sibilosas, sigilosas, feito cobra ou pingo d'água. A acústica é cadeia, mas de certos furos, convenhamos. Se é subterrâneo acá é porque é outro mundo. Gruta, furta fruta das gentes lá do térreo. Noutro mundo não se impões o próprio - credo. As noites na gruta eram festança, num jeitinho meio eterno de aprontar as coisas. 

Um minutinho aqui, um instantinho acolá, cadê os bichos desse mundo marmoso? E o burrinho destas pedras nossas (afirmo-me bicho das antigas também, agora), onde está ele? As resinas luxuriosas, a bebida do lago, o céu no mar, amar, o sabor suave de doce de abóbora? Fugiram todos e fiquei aqui onisciente. Os bichos sentiram medo, apego, em seguida apego ao medo, e encrustaram-se à parede - para quê roubar nosso canto, bigodudos sem questionamentos? Gruta, entrega-te a Rosas e àqueles que, como rosas, entregam-se a ti. 

Na gruta, a sombra dos bichos existe no silêncio escuro. O mar de mármore, no teto, nervoso, aquietou-se para acobertar os bichos, quando eles se esconderam dos invasores descoraçados e se tornaram animais. Há vida quando se exclama ou pinga. Os animais agora parecem eternidade, camuflados de pedra, fazendo-se coluna e muro - morte? Vez ou outra, quando não há gentes despetaladas em volta, os animais dão uma piscadela, ou pingam resina de desejo. Bichos. Os bichos da Gruta do Maquiné, pura interpretação do ser concreto. Tem quem veja e entenda, é vero, essas fantasias da humanidade, pensam outros.

É, tenho minhas dúvidas sobre a eternidade, aparenta grande por demais, do tamanho da grande gruta, mas na verdade, metida a besta: eterno se superficializa, dessas mil camadas (pois é, camarada).




(05/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

sábado, 11 de setembro de 2010

Nascer


De olhar muito pro céu azulento, em densa gradação, os pés meio que esquecem do tchoctchoc de tocar no chão terroso, meio que trupicam nos pedregulhos descaminhados, meio que fazem avoar a boca. E é assim que se dá a luz ao sorriso.


O sol é sorriso puro, e a lua é aprendiz, dessas que pegam aspas emprestadas. E a gente aqui: dia, caminhando contra a secura dourada; noite, emplastrados na grama cor de prata, reflexo de lua e estrelas maternais. E a gente aqui: sorriso branco que reflete a luz folhada. molhada. mas de quê, uai, se o ar é de pó?


(05/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Fora da refestança


"Nessa estrada canto e gemo de verdade." O sol se põe em roldanas, com contrapeso de poeira cor de passado que, em devaneios, se integra feito molécula ao ar mineiro desse aqui aventureiro.

Fomos. Empacotados em uma van de empecilhos em vão, sem espaço para meros caprichos: uma festa regional nos esperava, alegre e amarela. Ou melhor dizendo, esperávamos chegar à tal humilde festança, entre trancos e barrancos (e escuridão noturna e torpor e receio de atravessar um raso rio sobre pneus). Forró, bandeirinhas volpianas carregando cores para a iluminação do evento, mandioca, reza desenfreada de rugas atentas (...rogais por nós, pecadores...). O retorno era garantia de sopa, banho, água, colcha, bolo de laranja. Só restava retornar, que assim fosse. Mesma direção e sentido oposto, o caminho desconhecera-se de nós, luneta com tampa, bússola desnorteada entre as tantas bifurcações de estrada. E nós, idiotas, ali sem nem conhecimento de nortes pelas estrelas - aquelas muitas e muitas estrelas da noite mineira. Os únicos vestígios do bom eram o som chacoalhado da gaita do nosso mestre, e o cochilo aos ombros amigos. Mas é que, pensemos, o bom de perder é achar em seguida. Achar-se, melhor ainda.

(04/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tempos pra cá

"Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois." (G.R.)


E aqui eu me repartiria, se por acaso aqui estivesse há bem uns cem anos. Aqui, nesse trilho de veredas, se eu sem querer enfrentasse o trem como o mirradinho Pingolim, a história de Sorôco e mineiros tantos seria outra, com inovações inesperadas nos relógios velhos: por algum acaso o trem que parou ao passar-me sobre o corpo (e também sobre formigas) não atrasara o destino ferroviário de loucas familiares e do próprio cabra de barbas grandes? 

Estou aqui de novo, agora em objeto eu, agora em badalar de tempo meu, agora em século vinte e um, agora sem Sorôco, sem outras loucas dantes, sem lenços molhados ou burburinho de empobrecido adeus. No meio do trilho estamos eu, os restos guardados com carinho patrimonial,  as formigas e alguns cacos de vidro - pois bebedeira sertaneja é também pura contação de causo. Pois dois pensantes minutos, num aqui maior que centenários, aqui vivi, aqui morri, aqui ecoei junto à doída cantiga das loucas.

(04/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Estrada


E essa coisa toda de tradição. Pão de queijo mineiro, doce na folha de bananeira e chapéu de desbravante. É bonito esse jeito de tradução, é acreditar em um mundo de causos. 

Nós acá vamos para ali, Cordisburgo, a cidade do coração e do contista de rimas roucas. Que a etimologia é o destino do lugar, é o que está a descobrir, num além do que já é acreditado. Tradição é tradução do acreditado, e não sei bem se isso chega a ser ditado. 

Com o que me cabe em coração,
Helena
(04/09/2010, Cordisburgo, Minas Gerais)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Inseto infante


O ônibus balança, chacoalha pros lados sem ritmo ou melodia, só em sincronia com os buracos das ruas mal-cuidadas da metrópole. Tento ler meu livro de letras miúdas, mas a cabeça começa a explodir-me, pedacinhos de cérebro espatifando-se para os lados, em sacudidas violentas como o transporte público. Involuntários são meus olhos, às vezes até um pouco indiscretos, mas é que enquanto minha vista fica a pairar, me perco em pensamentos, e a visão se desfoca em um ponto fixo, que importuna-se. Desta vez, pelo contrário, o sem-querer de meus olhos não significou a falta de nitidez: pois, no quarto banco atrás do cobrador, de nariz colado à janela, sentindo na face o tremelique motorizado que parece pertencer ao mundo, estava uma moça aí de meus álbuns de fotografia. Era Joana, a Jô de meus velhos tempos, com quem bailava em épocas de colégio e trocava bilhetes bobinhos que deixavam enrubescidas nossas bobinhas maçãs do rosto. Separamo-nos por conta do tempo e do ginásio, que chegava com jovens moças de flores despontando e rapazes de topetes e jaquetas. Neste agora meio desconcertante, me atrevi a fazê-la recordar de seu apelido meio maldoso de infâncias, aquele com que eu e minha ganguezinha de moleques astutamente a pentelhávamos: Joani-nha!! Não saí em corrida de fuga, como naquela época, assim como Jô também não lançou faíscas dos olhos nem perseguiu-me em fúria sem estribeiras. Só travou os olhos a mim, libertando-os no relance. Sorriu como sempre, as gengivas enormes exibindo-se, hipérboles da anatomia. Há agora uma ruga na testa.