de datas e dias marcados
janelas cortinas espasmos
faz escuro nessa noite
de todos os fogos
- o fogo -
de onde vem minha gente
e o sono da brasa laranja
na nossa noite de paz
dente tantos entrementes
de dores sobremesas e sobressaltos
faz falta um resto de céu
nesses meus gestos de amores
falta faz também
algum gotejar qualquer
nessa agonia sonora de chuva
vento que aumenta e dança
chama atenção
sem ser convidado
pois nunca amei nenhum Pedro
nunca visitei Petrópolis
muito menos Pretrogrado
não cogitei suicídio
(por enquanto a vida é boa)
e nem sequer d'uma carta
esperei resposta
pois não tenho afinidade
com nada que seja infinito
(infindável e inferível)
tudo isso que me deixa
deixar para depois,
que me faz
perder a hora
como a janela que perde o solstício
e a estrela que foge
dos olhos de vidro.
domingo, 21 de outubro de 2012
Fogueira
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Joanas
hoje-agora não é dia
pra rimar memória antiga,
pra declamar más notícias
hoje-ontem já foi
desde as mãos
condoeu-se e caiu
quebrou as pernas
ontem, ontem
semanas passadas
pra quê tantos ontens?
justo a mim
que não tenho nada
nem calada me contento
não sei das joanas que habitam meu ventre
ou se é a maré
a confundir cada lua
fazer uma cheia nos olhos
de tudo que acho
e não sei.
os pontos marcantes dessa meia-noite
disseram que hoje é também
a_manhã
como se tudo embora se fosse
menos esse pingo de dúvida
que me enche o saco.
pra rimar memória antiga,
pra declamar más notícias
hoje-ontem já foi
desde as mãos
condoeu-se e caiu
quebrou as pernas
ontem, ontem
semanas passadas
pra quê tantos ontens?
justo a mim
que não tenho nada
nem calada me contento
não sei das joanas que habitam meu ventre
ou se é a maré
a confundir cada lua
fazer uma cheia nos olhos
de tudo que acho
e não sei.
os pontos marcantes dessa meia-noite
disseram que hoje é também
a_manhã
como se tudo embora se fosse
menos esse pingo de dúvida
que me enche o saco.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Metrô
Uma velhinha sentou-se ao meu lado. Ela era pequena e falava baixo, de um jeito mole, mas sempre sorrindo.
- Sabe a propaganda da Ultrafarma?
- Desculpa, oi?
- Pro-pa-gan-da da Ul-tra-far-ma. Sabe?
- Como ela é?
- É assim. A mulher grita "Aristides, não esquece o guarda-chuva!" Eu te vi sem casaco e pensei "Aristides, não esquece o casaco!"
Rimos e conversamos sobre guarda-chuvas e sobre o clima, atéo trem parar na Sé, onde ela selevantou.
- Tenha um bom dia!
- Desculpa,oi?
- Te-nha-um-bom-di-a!
.
.
.
tive.
- Sabe a propaganda da Ultrafarma?
- Desculpa, oi?
- Pro-pa-gan-da da Ul-tra-far-ma. Sabe?
- Como ela é?
- É assim. A mulher grita "Aristides, não esquece o guarda-chuva!" Eu te vi sem casaco e pensei "Aristides, não esquece o casaco!"
Rimos e conversamos sobre guarda-chuvas e sobre o clima, atéo trem parar na Sé, onde ela selevantou.
- Tenha um bom dia!
- Desculpa,oi?
- Te-nha-um-bom-di-a!
.
.
.
tive.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Conceição
há pouco conheci Conceição
comedida, desconhecida
convivente covalente em covardias;
questionou meu nome
e minha sede
os olhos baixos a pairar no chão
em descanso e descaso
diálogo envergonhado
me tomou o rosto
me arrancou as placas das ruas
e permaneceu calada
no estreito imundo da calçada
poeta sem alfabeto
comigo por perto
e
decerto:
desespêro e desespéro
Conceição se pos a chorar nas palmas das mãos
me olhou em último
(lástima!)
saiu a correr seus casos
seus sacos de pão
e eu ainda sem os mapas que me levam para casa
e sem Conceição
pois dela nem sei
se é uma
ou se são várias mulheres
escondidas nos botões de Conceição.
comedida, desconhecida
convivente covalente em covardias;
questionou meu nome
e minha sede
os olhos baixos a pairar no chão
em descanso e descaso
diálogo envergonhado
me tomou o rosto
me arrancou as placas das ruas
e permaneceu calada
no estreito imundo da calçada
poeta sem alfabeto
comigo por perto
e
decerto:
desespêro e desespéro
Conceição se pos a chorar nas palmas das mãos
me olhou em último
(lástima!)
saiu a correr seus casos
seus sacos de pão
e eu ainda sem os mapas que me levam para casa
e sem Conceição
pois dela nem sei
se é uma
ou se são várias mulheres
escondidas nos botões de Conceição.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012
A Noite
Hoje a lua acordou míope e não pôde ver os olhos de Luiz. Era escuro ele, esfumaçado, rapaz calmo mas em alto e bom tom; pequenas orelhas e boca larga, na esperança-dúvida de pardo.
Hoje a lua acordou alta, gigante, maior que o polegar de qualquer pai. E justo hoje, justíssimo justamente, ela se esqueceu dos óculos finos que mal a mal se encaixavam na alvura arredondada de sua face. Estava míope ela ao mundo e, entrementes, sem mentiras, o mundo a ela, revestido da translucidez das nuvens moucas. Não choveria nesta noite clara, ainda que precisada de gotas de água, das bem gordas, sobre os ratos e telhados. Luiz, em sobreponto, chorava calado um chorinho incolor, ensimesmado, por onde jogava sobre si mesmo todas as culpas do mundo. Vez em quando lhe dava esses ímpetos de choro: se entristecesse frente aos outros, só chorava depois quando só, em ruas desertas ou nas madrugadas de cotovelos duros sobre a mesa da cozinha. Luiz fora sempre assim, amanhecia triste? não contava a ninguém. Segredava em manter rastros, restringia-se ao silêncio dos riscos.
Hoje a lua acordou chateada porque quase cega. Mas triste, triste-triste não estava, triste de verdade isso não, não podia. Porque ela sempre foi o mais branco dos pronomes, não por própria culpa, mas por assim refletir as luzes claras. Por sua brancura, não tinha razão de entristecer. Quase-cega, sem paisagens e posturas e pestanas, fechou os olhos para a cidade escurecida em desestrelas. Desistências? Não se ouvia cousa alguma – sapatos de salto, cochilos, cochichos, risadas – nada afora o soluço que escapou dos grandes lábios de Luiz. Não via, porém, se era bonito ele ou feio, se tinha charme ou graça, se magro ou gordo, se branco ou preto.
Soubesse ela falar, talvez diria a ele que parasse de tristeza com calmas de choro, que esquecesse toda dor. Mas não disse – porque é muda, não sabe nem cantar. E porque é, acima de tudo, uma lua branca e não pode por isso saber tudo o que já passou a pele escura de Luiz.
Pouco pensou antes de descer ao chão e fazer subir a maré. Foi com calma, paciência, perolando seu trajeto noturno onde, nas ondas geladas, nadou junto do rapaz por toda a noite. Cada passado instante era que a lua mais e mais se aproximava para enfim ver os trejeitos de quem chorava na noite muda. Os instantes se passavam em parecência cada vez mais ligeira, chantageando de manhãs, e ambos, seja Luiz ou seja a Lua, esmoreciam de leve, aos poucos. Como quem não quer nada. A luz do farol aparecia por trás dos corpos intocáveis pela própria transparência. Entre eles dois, não se tinha mais tristeza: não se tinha mais branco, não se tinha mais preto.
Enquanto isso, um ou outro por aí insiste dizer que a escuridão na pele de Luiz e maldição, desagrado divino, pobreza, algum fato merecido de, primeiramente, xingos. Também os mesmo são que escancaram os bonitos passeios marítimos da lua como se fossem sumiços por eclipse. Esses todos, que dizem e dizem, nem tem o que dizer, ai. Mal sabem eles as lindezas da volúpia transparente.
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domingo, 30 de setembro de 2012
Da eternidade
quando eu for uma velha cansada
dessas que assistem novela
e perdem no bingo - todo domingo
não vou cair no ponto-morto
de piscar por longos tempos
como se estivera ainda acordada
e nem vergonha terei
de minha dentadura cadente
decadente.
pois quando eu for uma velha cansada
espero ficar bem velha
e nada cansada,
muito menos casada
com qualquer um que não seja
os livros que você me deu
nos tempos das belas dedicatórias
aos sempres mais delicados
que enfim nem deram certo
mas são talvez mais eternos
que uma velha cansada qualquer.
dessas que assistem novela
e perdem no bingo - todo domingo
não vou cair no ponto-morto
de piscar por longos tempos
como se estivera ainda acordada
e nem vergonha terei
de minha dentadura cadente
decadente.
pois quando eu for uma velha cansada
espero ficar bem velha
e nada cansada,
muito menos casada
com qualquer um que não seja
os livros que você me deu
nos tempos das belas dedicatórias
aos sempres mais delicados
que enfim nem deram certo
mas são talvez mais eternos
que uma velha cansada qualquer.
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domingo, 23 de setembro de 2012
Poética
não faz muito tempo
eu me perguntei
que fim levaria
minha poesia
e pra onde tinha ido
essa maldita
fiquei aflita
saltos de agonia
e a safada chegou
certo dia
com fome e carinhos
como se nada
tivesse acontecido
ainda assim decidi
não quero mais ser poetisa.
a partir de agora
só o que me importa
é viver toda
e qualquer
poesia
porque enfim entendi
que ser poeta
não é nenhuma proeza.
eu me perguntei
que fim levaria
minha poesia
e pra onde tinha ido
essa maldita
fiquei aflita
saltos de agonia
e a safada chegou
certo dia
com fome e carinhos
como se nada
tivesse acontecido
ainda assim decidi
não quero mais ser poetisa.
a partir de agora
só o que me importa
é viver toda
e qualquer
poesia
porque enfim entendi
que ser poeta
não é nenhuma proeza.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Ruptura
desde outros carnavais
nada deu nem me tem dado
tempo loucuras estórias
tulipas almoços fragrâncias
amores no fim da tarde
no meio da noite
ou dispor do dia
a única amostra que me deu
foi seu desdém
desordenado
disso
abri mão
joguei fora;
larguei qualquer resquício
e agora
voo.
nada deu nem me tem dado
tempo loucuras estórias
tulipas almoços fragrâncias
amores no fim da tarde
no meio da noite
ou dispor do dia
a única amostra que me deu
foi seu desdém
desordenado
disso
abri mão
joguei fora;
larguei qualquer resquício
e agora
voo.
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sábado, 15 de setembro de 2012
Borralheira
baile
brilho
balancê e
beatles;
babado
batom
botão
beleza;
o boy
que deseja
quedê
?
seja
a boca
o beijo
cabelos
no baile
mas dela
aceno
bocejo
doze badaladas
BYE
BYE
brilho
balancê e
beatles;
babado
batom
botão
beleza;
o boy
que deseja
quedê
?
seja
a boca
o beijo
cabelos
no baile
mas dela
aceno
bocejo
doze badaladas
BYE
BYE
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Resquício
do que foi ou viu
nada mais vale
se aquilo ou isso
malgrados ou malefícios
se jogou do particípio
de toda sua vida
(indicativo)
conjugado ao
pre
ci
pí
ci
o
.
momento presente-gerúndio
muito-menos-que-perfeito
na queda
sem baque
sem fundo.
nada mais vale
se aquilo ou isso
malgrados ou malefícios
se jogou do particípio
de toda sua vida
(indicativo)
conjugado ao
pre
ci
pí
ci
o
.
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muito-menos-que-perfeito
na queda
sem baque
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segunda-feira, 3 de setembro de 2012
A Boca
1. A boca antes gritava
A boca gemia e seria vermelha
Não fosse o então brancor
De sua palidez
2. A boca larga
- boca delgada -
De gente sedenta
Em setenta dentes
Da boca úmida
Unida à outra boca
Falando mais e em dobro
3. Engolindo também o dobro
Do choro
E do mal cheiro
- malfeitor -
Transfigurador defeições
Ou foices ou frases
Os ases da sorte
Um corte de azares
No beiço apertado
4. A boca calou-se
Nos escombros
C A L A B O U Ç O
E foi aí que o corpo
Se acabou.
A boca gemia e seria vermelha
Não fosse o então brancor
De sua palidez
2. A boca larga
- boca delgada -
De gente sedenta
Em setenta dentes
Da boca úmida
Unida à outra boca
Falando mais e em dobro
3. Engolindo também o dobro
Do choro
E do mal cheiro
- malfeitor -
Transfigurador defeições
Ou foices ou frases
Os ases da sorte
Um corte de azares
No beiço apertado
4. A boca calou-se
Nos escombros
C A L A B O U Ç O
E foi aí que o corpo
Se acabou.
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terça-feira, 28 de agosto de 2012
Questão Literária
quanto existe
de um amor murcho?
quem é protagonista
de um rio sem curso?
não sei, neste mundo
o que me dói mais:
se é o livro ir pro lixo
ou o lixo ser luxo.
injusto
é palavra ter custo.
de um amor murcho?
quem é protagonista
de um rio sem curso?
não sei, neste mundo
o que me dói mais:
se é o livro ir pro lixo
ou o lixo ser luxo.
injusto
é palavra ter custo.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
bússola
virei a noite
inteira
acordada
procurando pelo norte
da alegria que está longe:
talvez ocupada;
talvez morta.
inteira
acordada
procurando pelo norte
da alegria que está longe:
talvez ocupada;
talvez morta.
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domingo, 19 de agosto de 2012
Poema para Sara Winter
cara sara
(loira e magra)
aqui a carne é quente
mas também
a carne é crua
e grita e canta
e dança e sua
vai além de só uma nua mulher.
cara sara,
agora saiba:
o movimento virá
nas
ruas.
(loira e magra)
aqui a carne é quente
mas também
a carne é crua
e grita e canta
e dança e sua
vai além de só uma nua mulher.
cara sara,
agora saiba:
o movimento virá
nas
ruas.
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terça-feira, 14 de agosto de 2012
Campos
Haroldo percebeu novos ares
antes de qualquer farol
dos faraós da poesia
nos sóis a sóis paulistas
e riu, noigandres,
nos grandes baús de rima fácil
na poesia de seu dia
diagramático
dialético
diamante
na diária correspondência
carbonal
carnavais de caetanos
palavra por palavra
signo pós signo
sem
si
nem
fi
nal.
antes de qualquer farol
dos faraós da poesia
nos sóis a sóis paulistas
e riu, noigandres,
nos grandes baús de rima fácil
na poesia de seu dia
diagramático
dialético
diamante
na diária correspondência
carbonal
carnavais de caetanos
palavra por palavra
signo pós signo
sem
si
nem
fi
nal.
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