passarinho passarinho passarinho passarinho
passarinho passarinho
passarinho passarinho passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho
passarinho passarinho passarinho passarinho passarinho passarinho, passarinho
passarinho?
e os edifícios.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Os sons da cidade
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
O que resiste
Mofou o queijo.
Mofou o pão.
De todos teus ângulos só
vejo
bolor
uma película verde
branca
marrom
na razão do incremento,
o ar que respiro.
Mofou o bolo
que fiz com carinho.
Até o leite coalhou.
O resto de doce
do fim de semana clama
formigas!
e apodrece em sua
rasgada embalagem.
Choveu toda noite
e pela madrugada
em sono a brisa nos fez
do relento à garoa.
Dores no corpo
catarro.
A cama nos prende inertes.
Chove e
enquanto caem as gotas
do esgoto indiscreto
vejo que racham o teto e as paredes.
Uma goteira insiste
aprisionada ao mistério fútil deste
labirinto
de caixas, papéis e leopardos
nossa casa.
Mofou tudo
que havia ao redor.
Tudo de cheiro e de som morreu
intoxicado.
Mas o corpo de nós dois,
este continua vivo,
a pulsar,
no frágil frescor das frutas pequenas.
Mofou o pão.
De todos teus ângulos só
vejo
bolor
uma película verde
branca
marrom
na razão do incremento,
o ar que respiro.
Mofou o bolo
que fiz com carinho.
Até o leite coalhou.
O resto de doce
do fim de semana clama
formigas!
e apodrece em sua
rasgada embalagem.
Choveu toda noite
e pela madrugada
em sono a brisa nos fez
do relento à garoa.
Dores no corpo
catarro.
A cama nos prende inertes.
Chove e
enquanto caem as gotas
do esgoto indiscreto
vejo que racham o teto e as paredes.
Uma goteira insiste
aprisionada ao mistério fútil deste
labirinto
de caixas, papéis e leopardos
nossa casa.
Mofou tudo
que havia ao redor.
Tudo de cheiro e de som morreu
intoxicado.
Mas o corpo de nós dois,
este continua vivo,
a pulsar,
no frágil frescor das frutas pequenas.
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17:39:00
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Anatomia expandida
Você tem uma cabeça
com dois olhos
nariz e narinas
lábios, dente, gengiva
um par de orelhas de porcelana
quebrada e semi-surda.
E de dentro da sua cabeça
saem dúzias de borboletas
em todas as cores frias
a montar, pouco a pouco,
um exército com mais de duzentas.
De dentro da sua boca
você cospe as borboletas
como quem come ao contrário
do grande prato que é bosque
e parque e avenidas
o mundo que te habita
no ar que respira.
Você e as vozes
você e os vizinhos
você e o verde macabro que invade
a janela de seu quarto
e o perfume da correspondênciade produto de limpeza
no liso das paredes.
As borboletas
cruéis, não cessam
este furacão de asas finas
do seu desprezo
a recordar as mil folhas ao vento
de um arbusto faminto
em outubro.
Mandei
que se faça o amor.
O amor não veio.
com dois olhos
nariz e narinas
lábios, dente, gengiva
um par de orelhas de porcelana
quebrada e semi-surda.
E de dentro da sua cabeça
saem dúzias de borboletas
em todas as cores frias
a montar, pouco a pouco,
um exército com mais de duzentas.
De dentro da sua boca
você cospe as borboletas
como quem come ao contrário
do grande prato que é bosque
e parque e avenidas
o mundo que te habita
no ar que respira.
Você e as vozes
você e os vizinhos
você e o verde macabro que invade
a janela de seu quarto
e o perfume da correspondênciade produto de limpeza
no liso das paredes.
As borboletas
cruéis, não cessam
este furacão de asas finas
do seu desprezo
a recordar as mil folhas ao vento
de um arbusto faminto
em outubro.
Mandei
que se faça o amor.
O amor não veio.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O sintoma
Sorrindo tem um homem na frente do outro homem, completamente paralelos os dois. Sorri porque saiu de casa, andou até o ponto de ônibus, parou. Havia um homem em sua frente, o mesmo homem para o qual agora ele sorri, amarelado, não porque é feliz, mas porque, das chances que tinha de desviar falsamente, e assim ir para o mesmo lado do outro homem, e essas chances equivaliam a cinquenta por cento, nem mais nem menos, ambos quase se trombaram. Agora quase se trombam de novo. Sorriso. A linha cruzada saiu de seu limiar e extravasou na ruptura cotidiana de dois homens, um para cada lado.
Às seis horas cumprem o horário, chegam em casa às sete. Depois do banho, se olham em seus espelhos na procura de fios de barba a despontar pelo rosto. Mas o rosto, desde o banal encontro, havia sido trocado, e assim permanece, como o reflexo do sol na água. Eles gritam, apavorados. Mas ninguém nota qualquer diferença, mínima que seja, a ser digna de reparo. O homem sério, sem vontade alguma, sorri com os dentes amarelos que não lhe pertencem, e sente medo da sua própria face.
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Poema sem pulso
Quantos passarinhos é preciso trazer-te
para que me tenha ao seu lado?
Dez, cem, mil?
Ou será que um origami
no papel de jornal velho?
Talvez dois canários
talvez uma pomba suja.
Mal sei o número de passos
que devo dar, inequívoca,
até te alcançar
mesmo em braços esticados
pontas dos dedos.
Sei quantos posso por mim
não sei quantos você
me permite.
Criar sacrifícios e provas de amor
falsificar simulacros
entre os astros do universo,
gigantesco universo
que ninguém conhece o fim.
Os fins dos romances já sabemos
está escrito na última página.
Mas dentre tudo isso, que dizer
do fim de nós dois?
Esse fim se resguarda, à espreita,
guardado nos confins dos bons organismos
não como um vírus da gripe
mas uma doença fatal e rara
de poucos estudos e maus tratamentos
onde se guardam
nossos sublimes segredos
que nos tornam
apenas
a essência do que somos.
Sumo.
Quero que acredite em mim
como acreditou não em minha voz
não minhas cordas vocais ou gengivas
mas acreditou em meus lábios.
E acreditou, piamente, e quase chorou
naquele romance de mortes
que leu no mês passado, sozinho,
mas repetiu para mim,
deitados na grama
esperando o ônibus,
as suas frases favoritas.
Um romance de mortos
para um homem vivo,
dotado e detido na angústia e
raiva
que palpita de suas orelhas
pelas fendas que te chegam no cérebro
e do cérebro invade o sangue
até explodir em bomba o coração.
Odeio usar a palavra coração.
Coração Coração Coração.
Me parece que a palavra coração carrega
sugestões de filmes estúpidos
rimas fracas, publicitárias
e a tosca perfeição de um amor
em olhos azuis.
No entanto seguimos aqui.
Estamos vivos.
para que me tenha ao seu lado?
Dez, cem, mil?
Ou será que um origami
no papel de jornal velho?
Talvez dois canários
talvez uma pomba suja.
Mal sei o número de passos
que devo dar, inequívoca,
até te alcançar
mesmo em braços esticados
pontas dos dedos.
Sei quantos posso por mim
não sei quantos você
me permite.
Criar sacrifícios e provas de amor
falsificar simulacros
entre os astros do universo,
gigantesco universo
que ninguém conhece o fim.
Os fins dos romances já sabemos
está escrito na última página.
Mas dentre tudo isso, que dizer
do fim de nós dois?
Esse fim se resguarda, à espreita,
guardado nos confins dos bons organismos
não como um vírus da gripe
mas uma doença fatal e rara
de poucos estudos e maus tratamentos
onde se guardam
nossos sublimes segredos
que nos tornam
apenas
a essência do que somos.
Sumo.
Quero que acredite em mim
como acreditou não em minha voz
não minhas cordas vocais ou gengivas
mas acreditou em meus lábios.
E acreditou, piamente, e quase chorou
naquele romance de mortes
que leu no mês passado, sozinho,
mas repetiu para mim,
deitados na grama
esperando o ônibus,
as suas frases favoritas.
Um romance de mortos
para um homem vivo,
dotado e detido na angústia e
raiva
que palpita de suas orelhas
pelas fendas que te chegam no cérebro
e do cérebro invade o sangue
até explodir em bomba o coração.
Odeio usar a palavra coração.
Coração Coração Coração.
Me parece que a palavra coração carrega
sugestões de filmes estúpidos
rimas fracas, publicitárias
e a tosca perfeição de um amor
em olhos azuis.
No entanto seguimos aqui.
Estamos vivos.
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Relato do amor invisível
Eu amo esta criatura enquanto ser vivo e sobrevivente, como célula de resistência, e ao mesmo tempo posso nutrir amor como a pessoa que é, completamente humana. Desta soma, imersa na mesma criatura, resulta que amo e que não tenho capacidade nem vontade de amar agora e desta forma a ninguém além deste único organismo.
De repente fiquei cego. Não tão instantâneo foi o processo mas alguns poucos meses parecem horas se comparados a toda uma vida de vista. E ainda mais esta vida. Não quero assegurar que minha dor tenha maior valor ou que seja eu o único resumo vivo do sofrimento. Embacei gradativamente, um pé depois do outro, e uma vista cansada normalíssima para a meia idade então se transformou no mais imenso infinito. Garoas se transformam em tempestades. Parece, porém, que todas as galáxias dormem, quase hibernam. E eu ando, ando, ando mais, mas não encontro o lugar de encruzilhada entre o conhecido e o nada. O espaço do nada, denso, flúido, flácido, plasma, duro, não se sabe, deve ser lindo, tanto inimaginável que até agora parece ser impossível - onde possa encontrar qualquer coisa diferente da treva tátil, ultrassonora, aos quais meus sentidos me submeteram. Ouço espirros que antes os ouvidos não alcançavam e tenho então a leve sensação de que o mundo está um pouco mais resfriado. Não é o mundo, sou eu, que vivia do contraste e da luz e sombra. Me lembro inclusive de andar pelas ruas e, ao início da noite, quando as luzes dos postes se acendem, me lembro do medo ridículo que tinha da minha própria sombra. Hoje a sombra é geral. Fez-se a luz ao meu redor, em todos os possíveis ângulos. Misteriosamente, o resultado não foi a claridade total, como se esperava, e sim o breu da sombra espalhada como um oceano ao redor da ilha. A ilha sou eu.
Me apaixonei quando vi que aquele corpo era completamente único; não só aquele como todos. Mas então já era tarde, o caminho agridoce da vida conjunta já nos tinha unido e nos feito trocar toques. Depois, em tempo recorde, amei. Agora me lembro, chorando, que éramos visualmente a beleza, e assim nos reproduzíamos em nós, de manhã, de tarde e de noite. Na madrugada nos encarávamos nos olhos falando da rotina. A última semana foi inteira uma aflição sobre a retina, e o globo ocular, membranas, nervos ópticos.
- Hoje no trabalho ouvi coisas engraçadas nas fofocas do chefe; Hoje para mim foi um pouco mais chato, o serviço estava vazio, o tédio reinando… - e por aí ia.
Hoje eu estou em um leito até que confortável, nos primeiros dias de recuperação após o baque da cegueira total. Amanhã cedo irei para casa, sentir os cheiros específicos do meu lar e de meus sabonetes, minhas plantinhas em vaso, a bosta amanhecida dos cães no quintal, todo esse conjunto é lindo. Agora tenho em minha diagonal a pessoa que me ama, a qual eu amo/desejo/quero/jogo-me de volta. Não chega a roncar, é apenas um sussuro sonâmbulo, penso agora de forma dócil. Esta nova cegueira está me colocando uma poesia nos poros que chega a ser ridícula. Já deve ser de madrugada. Só acordará amanhã, me trazendo nas mãos um copo de café ou coisa do gênero. Penso agora que poderia, não fossem meus olhos a atrapalhar, estar na cama comigo, a de casa, o corpo macio estirado ao meu lado. Sinto saudade desse corpo, já, e choro apenas de pensar que nunca mais verei suas peculiaridades e formas tortas, sua pele fria e seus pelos espalhados. Sinto que ver o teor deste corpo será uma magia de sentidos em falta. É claro que as mãos, as bocas, as narinas e o encostar de meu corpo ao outro, há isso tudo, e há a lembrança e a capacidade de rememoração, o desejo de ter olhos bons só para ver os olhares e sorrisos do ser que amo, e que desta forma muito me dizia em momentos de silêncio. Fica na cabeça o retrato de quando começamos a namorar, bem como de meu último aniversário, e criamos rugas. O corpo é forte, e pulsa forte, e mastiga forte, digere, processa, sente dores de passagem e retorna ao equilíbrio. Parte da cabeça de pouco cabelo, desce aos olhos, ao nariz apontado como flecha, ao pescoço curto, os ombros, o peito e barriga, a cintura, coxas e pés.
Os pés, quando o corpo não dorme, vestem sempre botas de couro, e me guiarão amanhã quando acordarem, um passeio, ir ao banheiro, até que eu, como um bebê que engatinha, aprenda de novo a andar em um mundo recém possuído. Por enquanto eu não tenho mais nada. Não tenho o poder de ver o chão que me carrega, a pessoa que me guia, não posso saber nem se meu lençol está sujo. Em compensação, sinto mais força no vento que me baterá no rosto quando encarar a cidade novamente, daqui a mais ou menos três horas. O vento ninguém vê. A dança das folhas talvez, mas apenas os mais desavisados. Não tenho alcance às coisas que tenho, pois não vejo onde estão. Não tenho projetos, me desiludi. Não tenho sequer o corpo de quem amo/desejo/quero/jogo-me, mas nisso não há problema. Nós nos vemos todos os dias e agora mesmo, e nos conhecemos de cor e salteado. Largura da testa, bundas pequenas, dedos tortos nas mãos e unhas meticulosamente cortadas uma vez por semana, as particularidades do ser humano nada impedem de tornar-se, a minha cegueira, um pouco mais feliz. O médico bate na porta. Finalmente iremos para casa, contemplando a paisagem.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Eternas ameixas
Mais ou menos sei da vida.
aprendi menina em trilhos
do trem que não tomei
mas que vi partir meu pai
à jornada sem retorno
até a guerra, em terras frias.
Vencemos,
vencemos!
e um buraco negro desmanchando
nos lençóis de minha mãe,
a forma de seus olhos transformando-se
em ameixas
inchadas, prestes a explodir
no melancólico.
O trem seguinte
muito mal adormecido
repetia-se na procissão:
a vida segue,
e toda aquela história
do rodar da Lusitana
uma Lusitana
duas Lusitanas.
Quem é essa, com tal nome?
Eu nunca nem ouvi falar
mas pelo nome de florista
deve ser boa mulher.
Pelos trilhos corria Zuquim, irmão meu
pequeno sem carnes
a cabeça desnuda
pronta para os sóis de futebol.
Por um fio de sapato ficou preso,
e então o pé inteiro
e o corpo
enjaulado na prisão
que prende ao chão de terra
e não coube tempo –
de lá afundou-se no solo
qual destino, tragédia levara
e juntos levamos, nós
por um fio sem nó do sapato.
Hoje já estou velha
a pele fina a recordar papel de seda
amassado.
Durmo cedo.
Mas toda noite abro os olhos
uma vez para ir ao banheiro
outra para esperar
que se acabe o tremer da terra
que me treme a casa,
que me treme a cama
e a cabeça, e os porta-retratos
os dedos e minha vista cansada
quando sinto que o trem passa.
aprendi menina em trilhos
do trem que não tomei
mas que vi partir meu pai
à jornada sem retorno
até a guerra, em terras frias.
Vencemos,
vencemos!
e um buraco negro desmanchando
nos lençóis de minha mãe,
a forma de seus olhos transformando-se
em ameixas
inchadas, prestes a explodir
no melancólico.
O trem seguinte
muito mal adormecido
repetia-se na procissão:
a vida segue,
e toda aquela história
do rodar da Lusitana
uma Lusitana
duas Lusitanas.
Quem é essa, com tal nome?
Eu nunca nem ouvi falar
mas pelo nome de florista
deve ser boa mulher.
Pelos trilhos corria Zuquim, irmão meu
pequeno sem carnes
a cabeça desnuda
pronta para os sóis de futebol.
Por um fio de sapato ficou preso,
e então o pé inteiro
e o corpo
enjaulado na prisão
que prende ao chão de terra
e não coube tempo –
de lá afundou-se no solo
qual destino, tragédia levara
e juntos levamos, nós
por um fio sem nó do sapato.
Hoje já estou velha
a pele fina a recordar papel de seda
amassado.
Durmo cedo.
Mas toda noite abro os olhos
uma vez para ir ao banheiro
outra para esperar
que se acabe o tremer da terra
que me treme a casa,
que me treme a cama
e a cabeça, e os porta-retratos
os dedos e minha vista cansada
quando sinto que o trem passa.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Flores tortas
As luzes dos postes não são suficientes
para o que trago e tenho
de medo.
A ideia difusa
de multidão aglomerada
nesta metrópole,
e tudo em ordem,
não nos cabe
já não cola mais.
Não tenho mais nem estrelinhas
para fazer de conta
que a bússola está posta no céu,
encaixada até apontar minha casa.
Eu ando por aí
e sinto medo
no meio das pernas
a qualquer momento
podem querer me arrancar as pétalas.
para o que trago e tenho
de medo.
A ideia difusa
de multidão aglomerada
nesta metrópole,
e tudo em ordem,
não nos cabe
já não cola mais.
Não tenho mais nem estrelinhas
para fazer de conta
que a bússola está posta no céu,
encaixada até apontar minha casa.
Eu ando por aí
e sinto medo
no meio das pernas
a qualquer momento
podem querer me arrancar as pétalas.
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sábado, 12 de outubro de 2013
As coisas
Que há com as coisas, afinal,
para terem, além de si, uma constante de segredos,
um interno transbordamento?
Uma cama quente, um abajur das madrugadas.
Que há com a coberta fina
a poltrona bebendo do sol na janela
os potes de plástico
para me fazerem, todos eles, me lembrar de você?
Você passeando pelo quintal
no frio da estação
cortando mamões e catando frutinhas.
Você e seus olhos grandes, completamente abertos,
que tiram a graça
de qualquer vitória-régia
e que nunca mais pude ver,
só de relance.
Que há com a casa, agora grande demais,
para guardar consigo seus móveis
o resto de sua comida gelada, de um mês atrás?
E guardar as histórias de sua rotina
meticulosamente iniciada às sete da matina
todo dia.
Abrir a janela para entrarem os gatos
preparar café, a manteiga no pão
televisão e caminhadas
almoço, jornal, mercado
filmes pela metade
um doce às escondidas.
As coisas te perseguem
porque guardam um naco de ti.
Porque são nelas que te percebem
enquanto uma soma de
– coisas
quase corpos, oceanos e constelações
no mínimo da nossa memória.
Mas em tudo que te pertence
sobrou uma ausência por sua ausência,
a solidão secular das coisas.
As coisas só são coisas
quando cumprem uma função
uma rota para o mundo
e a função de todas as suas coisas nesse instante
seus brincos de rosa
o carrinho de feira
o velho tear e os novelos de lã
tem a função rigorosa e difícil
de nos fazer lembrar de você
no enlace das lágrimas arredias.
para terem, além de si, uma constante de segredos,
um interno transbordamento?
Uma cama quente, um abajur das madrugadas.
Que há com a coberta fina
a poltrona bebendo do sol na janela
os potes de plástico
para me fazerem, todos eles, me lembrar de você?
Você passeando pelo quintal
no frio da estação
cortando mamões e catando frutinhas.
Você e seus olhos grandes, completamente abertos,
que tiram a graça
de qualquer vitória-régia
e que nunca mais pude ver,
só de relance.
Que há com a casa, agora grande demais,
para guardar consigo seus móveis
o resto de sua comida gelada, de um mês atrás?
E guardar as histórias de sua rotina
meticulosamente iniciada às sete da matina
todo dia.
Abrir a janela para entrarem os gatos
preparar café, a manteiga no pão
televisão e caminhadas
almoço, jornal, mercado
filmes pela metade
um doce às escondidas.
As coisas te perseguem
porque guardam um naco de ti.
Porque são nelas que te percebem
enquanto uma soma de
– coisas
quase corpos, oceanos e constelações
no mínimo da nossa memória.
Mas em tudo que te pertence
sobrou uma ausência por sua ausência,
a solidão secular das coisas.
As coisas só são coisas
quando cumprem uma função
uma rota para o mundo
e a função de todas as suas coisas nesse instante
seus brincos de rosa
o carrinho de feira
o velho tear e os novelos de lã
tem a função rigorosa e difícil
de nos fazer lembrar de você
no enlace das lágrimas arredias.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Como vagalumes
Por uma estrutura total
que nada falte nem tema
que não transborde
o limite aquático
deste poema.
Por um mecanismo de defesa
capaz de atar novos nós
entre as pontas das letras
em formulações inquebrantáveis.
Correntes de girassol.
Que venha algum ser vivente
lotado de técnica, e recite
os mil versos que encaixam
o melhor poema do mundo.
Que não seja anatômico
nem eleve o divino
um poema anti-amor e anti-ódio
que não fale do poeta e do poema
da melancolia fácil
um poema sem puxa-saquismo
de infâncias, de mestres
pais, pátrias e cidadelas.
Um poema que seja novo,
e que brilhe no escuro
como vagalumes e brinquedos de criança
a me deixar maravilhada
o queixo pairando
na força da gravidade.
Venha, mundo,
venha.
Me surpreenda.
que nada falte nem tema
que não transborde
o limite aquático
deste poema.
Por um mecanismo de defesa
capaz de atar novos nós
entre as pontas das letras
em formulações inquebrantáveis.
Correntes de girassol.
Que venha algum ser vivente
lotado de técnica, e recite
os mil versos que encaixam
o melhor poema do mundo.
Que não seja anatômico
nem eleve o divino
um poema anti-amor e anti-ódio
que não fale do poeta e do poema
da melancolia fácil
um poema sem puxa-saquismo
de infâncias, de mestres
pais, pátrias e cidadelas.
Um poema que seja novo,
e que brilhe no escuro
como vagalumes e brinquedos de criança
a me deixar maravilhada
o queixo pairando
na força da gravidade.
Venha, mundo,
venha.
Me surpreenda.
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domingo, 29 de setembro de 2013
O poema infinito
Dentro da folha de papel não constavam
meus pensamentos
ou nada que é meu de direito.
Nada cabe
naquele espaço tão branco que enjoa
e sai voando com ventos quaisquer,
seja os do norte, os do amor
da morte ou do passado,
os ventos que doem no ar.
Na folha de papel havia palavras
aquilo que não se diz o que é
o indescritível.
Havia palavras e delas voariam
flores e colmeias
um par de ideias abraçadas,
não fosse o cárcere inserido na folha
que geme seus versos
e se atrofia em si mesma.
Não cabe mais nada
neste folha de papel.
Porque ela, fantasmagórica
e concreta folha
busca o couro de si
se retroalimenta,
devora.
Nunca haverá um ser humano
dentro do poema.
Nele já transitam,
não entre fibras, moldes, cortes
não dentro de tinteiros e lápis
menos ainda através de poentes
ou belezas de mulher,
mas trespassam, entre as curvas das letras
e os sons da leitura em voz baixa
os traços cranianos de mais um poema
certeiro, encaixado
nos espaços brancos da folha de papel
ainda que os tipos se espremam
e que não haja mais margens.
Um poema sem cores
completamente material
soprando os narizes
que encostam na folha de papel
um bafo úmido,
um desconcerto,
clamando por releituras
do verso primeiro e do oculto.
E dentro deste poema,
ainda mais escondido
se guarda um novo poema,
e outro.
meus pensamentos
ou nada que é meu de direito.
Nada cabe
naquele espaço tão branco que enjoa
e sai voando com ventos quaisquer,
seja os do norte, os do amor
da morte ou do passado,
os ventos que doem no ar.
Na folha de papel havia palavras
aquilo que não se diz o que é
o indescritível.
Havia palavras e delas voariam
flores e colmeias
um par de ideias abraçadas,
não fosse o cárcere inserido na folha
que geme seus versos
e se atrofia em si mesma.
Não cabe mais nada
neste folha de papel.
Porque ela, fantasmagórica
e concreta folha
busca o couro de si
se retroalimenta,
devora.
Nunca haverá um ser humano
dentro do poema.
Nele já transitam,
não entre fibras, moldes, cortes
não dentro de tinteiros e lápis
menos ainda através de poentes
ou belezas de mulher,
mas trespassam, entre as curvas das letras
e os sons da leitura em voz baixa
os traços cranianos de mais um poema
certeiro, encaixado
nos espaços brancos da folha de papel
ainda que os tipos se espremam
e que não haja mais margens.
Um poema sem cores
completamente material
soprando os narizes
que encostam na folha de papel
um bafo úmido,
um desconcerto,
clamando por releituras
do verso primeiro e do oculto.
E dentro deste poema,
ainda mais escondido
se guarda um novo poema,
e outro.
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sexta-feira, 20 de setembro de 2013
As portas do túmulo
Quando
morri não houve festa
mas
também não houve anjos, não houve fogo
não
ouvi barulhos
sequer
soluços
e
eu,
eu
nem chorei de volta.
Bati
os pés,
despi
o tronco,
mas
aquela capela torta
filha
das catedrais
calava
a tudo
cortava
os pulmões
em
pedaços de célula morta.
Envolta
em madeira e marcas brilhantes,
a
capela dormia em mim
e
me sufocava ao sono profundo.
Quando
morri não houve sofá
não
houve poltrona nem comes e bebes
não
teve flores em forma de auréola.
Não
houve aurora nem entardecer
nem
mesmo um céu aconteceu.
Rezar
para eternizar, diziam as vozes
dos
bispos inexistentes
líquidos,
enterrados
sulco
entre as vigas
desta
minúscula capela.
Sem
vitrais, sem desejos
sem
prazeres e segredos
sem
ornamentos.
Sequer
um pequeno confessionário.
E
também sem pessoas
nesta
última capela
a
final de minha vida
onde
os bispos rezam, sussurrando
encrustados
em paredes de terra
sob
os pés de alguns amigos,
não
muitos,
que
aos prantos pisam meu teto.
Eu
não ouço mais nada.
A
arquitetura desta capela não permite.
Estendida
no altar, as costas ao chão
imito
a imagem de Maria
e
dou a luz eterna
ao
mais eterno nada.
Eu
já não existo mais.
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helena
às
14:29:00
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domingo, 15 de setembro de 2013
Barreiras aos olhos
os
óculos coloridos
do
pequeno menino
franzino
e caolho
brilham
no abajur
do
quarto da mamãe.
mas
como pode
brilhar,
meu deus
se
seu olho esquerdo
enfermo
está
tampado em fibra bege
de
mini-pirata
da
farmácia
e
o olho direito
imerso
em remelas
cochila
na tarde chata
de
sexta-feira.
brilha?
chora
enquanto
dorme.
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helena
às
20:58:00
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terça-feira, 10 de setembro de 2013
Caravelas
Caravelas coloridas nos quadros
não são as mesmas da coroa real
real de verdade, exata.
As caravelas, desgastadas em trajeto pelo Atlântico,
as caravelas tomaram-me tudo
romperam meus ligamentos
para construir pontes invisíveis
por onde passavam o brilho dourado
e o gosto marrom, quase preto
do cheiro amargo que a todos eles esquenta.
As caravelas me levaram
minhas luvas de cozinha
a cozinha que eu não tinha
e já sei que não vou ter.
Levaram as perspectivas, toda a autonomia
e também as economias
que eu mal sabia ter,
só levava comigo.
Causaram-me dores,
causaram-me fome
e, depois, quando desvalida
e tonta por tabelas,
rasgaram-me inteira até o fim das pernas
afundando na mata densa e inóspita
que não pertencia a
nenhum daqueles velhos barbados nas cores das nuvens
mais brancos que o branco
do coco, do santo.
Ah, o santo.
Onde é que os meus foram parar?
As caravelas,
no mar desdentado,
levaram de tudo
e levaram-me toda
depois de fraca, doente e já morta
por pedaços de terra
até que toda minha crença
se desmanchasse
nas águas fascinantes desse mar
como se fosse uma folha de papel.
E, no fim, tanto faz
e, bem, tanto fez.
A folha pouco importa
e seus escritos menos ainda.
É como se em mim morresse uma parte
que tão mas tão importante...
não sei sequer lê-la
nesta língua que não é minha.
O que sou ou que fui
o que quis e desquis
o que fiz:
talvez
o maior segredo do universo.
não são as mesmas da coroa real
real de verdade, exata.
As caravelas, desgastadas em trajeto pelo Atlântico,
as caravelas tomaram-me tudo
romperam meus ligamentos
para construir pontes invisíveis
por onde passavam o brilho dourado
e o gosto marrom, quase preto
do cheiro amargo que a todos eles esquenta.
As caravelas me levaram
minhas luvas de cozinha
a cozinha que eu não tinha
e já sei que não vou ter.
Levaram as perspectivas, toda a autonomia
e também as economias
que eu mal sabia ter,
só levava comigo.
Causaram-me dores,
causaram-me fome
e, depois, quando desvalida
e tonta por tabelas,
rasgaram-me inteira até o fim das pernas
afundando na mata densa e inóspita
que não pertencia a
nenhum daqueles velhos barbados nas cores das nuvens
mais brancos que o branco
do coco, do santo.
Ah, o santo.
Onde é que os meus foram parar?
As caravelas,
no mar desdentado,
levaram de tudo
e levaram-me toda
depois de fraca, doente e já morta
por pedaços de terra
até que toda minha crença
se desmanchasse
nas águas fascinantes desse mar
como se fosse uma folha de papel.
E, no fim, tanto faz
e, bem, tanto fez.
A folha pouco importa
e seus escritos menos ainda.
É como se em mim morresse uma parte
que tão mas tão importante...
não sei sequer lê-la
nesta língua que não é minha.
O que sou ou que fui
o que quis e desquis
o que fiz:
talvez
o maior segredo do universo.
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helena
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19:28:00
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domingo, 1 de setembro de 2013
A deformação do tempo
Esta lareira
que bem me serviu no ano passado
já não serve mais.
Está suja esta lareira
suja e lotada de cinzas
sobre tudo aquilo que queimei.
Meus pés escondidos, meus pais,
o patinho de borracha que ganhei de meu avô,
os bilhetes de amor
cuja letra garranchada
ignorando a pauta das linhas
voava por dentro da folha,
a folha que agora é cinza,
um monte de cinzas
esparramado na lareira
que nem mais me esquenta.
Não me serve a lareira,
nem meus pais,
nem a sola do sapato
que de tão velho nem chegou
a ser mencionado,
os amores antigos já não bastam
e sequer voam o suficiente,
na verdade não saem mais do chão
esses amores acrófobos,
hipocondríacos.
Não me serve mais nada.
O patinho de borracha
que lembrava meu avô
derreteu na labareda
e, enquanto derretia,
deformando as feições fabricadas
de pato feliz,
parecia chorar lágrimas de meu-deus
as lágrimas que não chorei
mas ah
mais do que nunca as sentia.
que bem me serviu no ano passado
já não serve mais.
Está suja esta lareira
suja e lotada de cinzas
sobre tudo aquilo que queimei.
Meus pés escondidos, meus pais,
o patinho de borracha que ganhei de meu avô,
os bilhetes de amor
cuja letra garranchada
ignorando a pauta das linhas
voava por dentro da folha,
a folha que agora é cinza,
um monte de cinzas
esparramado na lareira
que nem mais me esquenta.
Não me serve a lareira,
nem meus pais,
nem a sola do sapato
que de tão velho nem chegou
a ser mencionado,
os amores antigos já não bastam
e sequer voam o suficiente,
na verdade não saem mais do chão
esses amores acrófobos,
hipocondríacos.
Não me serve mais nada.
O patinho de borracha
que lembrava meu avô
derreteu na labareda
e, enquanto derretia,
deformando as feições fabricadas
de pato feliz,
parecia chorar lágrimas de meu-deus
as lágrimas que não chorei
mas ah
mais do que nunca as sentia.
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helena
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