domingo, 17 de fevereiro de 2013

O outro vestido


provei um vestido de seda
com cheiro de amêndoas
e dele vesti-me
em seus tons de azul
como se me fosse a própria pele
e os ares fossem meus
(quem dera!)

eu que sou moça fuleira
nunca havia feito dessas
de vestir roupa de festa
e olhar
fundo
nos olhos do espelho
onde o direito é o esquerdo
onde assim vai, aos reflexos
e se esvai

bem como aprovei
a trama daquele tecido
desprovei, tirei, dobrei de volta
não porque seja fuleira
mas porque veio a lembrança
de tudo que gosto na vida

vestido bom é aquele
que escreveu Carlos Drummond
com a roupa de escritor
feita sob medida
para sua humana assimetria
que transforma
até mesmo
assinatura
em poesia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O futuro em mãos


quando eu fizer uma filha
- e espero que não seja agora -
decidi: terá nome de flor.

De resto
não sei nada:
qual o gene resultante
ou a cor de seus cabelos

só sei que deixarei
regar e remar
mexer em minhocas
e ter namoradas

cuidarei
que desabroche sem estupros
para que seja a flor que plantei
quando escolhi tê-la
a não tê-la

quando deixei:
cresça.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Longe demais


meu avô usava óculos
bem como minha avó
e minha mãe e meu pai
e minhas tias e eu.

Na minha casa todo mundo é míope
até a cachorra
que sorri de olhos miúdos
e late, late, late
mas não uiva:
ela não consegue ver a lua.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pensamento novo


que a poesia parou eu já sei
desde a semana passada
quando joguei palavras ao léu
e tudo ficou feio.

Quisera eu
saber trabalhar a poesia
montar vigas, veias e idades
estruturas de sintaxe
cortes, rebusques, simplezas
rimas – que não sejam aquelas
que todos já sabem por adivinhação.

Assim tem sido:
a poesia trancada com chaves
e poucos guardando o segredo.

Melhor de tudo
(ação direta e transmutável)
é pegar os manejos
dos grampos de cabelo
para abrir qualquer porta
ou código de cadeado.

Quero que a poesia volte
mas a quero clandestina;

clandestina e forte.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sinal aberto

(s)ó
(s)e
(s)em
semáforo:

d e s a f o r o
d e s a b a f o
a fora
alforria
euforia
eu

fúria / folia
folha vazia

e a poesia na ponta da língua.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Procura-se Frederico


_____Quando a gente começou a se falar, Marco era um homem lúcido, repleto de coerências. Tínhamos eu e ele uma diferença bruta de idade, como se aos gritos, e mesmo assim nos falávamos uma vez ao dia, por volta das duas da tarde, que era depois do almoço e depois da sesta dele. No começo, o assunto era amplo e atento, eu sempre botando as vistas no jeito com que Marco lidava com a vida.
_____Ele chegava e se movia como se seu corpo estivesse almofadado com plumas de sofá, e falava manso olhando sempre para a luminária de alumínio no canto da minha pequena sala – ou isso ou era outra coisa que olhava, porém com igual desimportância. A impressão que sempre tive foi a de que o velho Marco até gostava de mim, só que aos poucos, e torto. Em todas as conversas que fizemos, falamos a respeito de hojes e ontens, muitos ontens: ontens de guerras e presidentes, ontens de televisão e cinema, ontens de cabelo, comida, trabalho. Marco, velho, vira passar quase todo o antigo século, o já ido. Mas eu, em contaponto, não tinha como saber se não confiava em mim o bastante para causos mais íntimos – logo ele que mal tinha amigos –, ou se era àquela porção de histórias que se resumia sua vida. Pelo sim, pelo não, preferi não arriscar.
_____Àquela época eu estava desempregado e, como não fosse pouco, também desencontrado, dizimando a mim mesmo por nada. O dinheiro que sobrava do último batente deixou que, por algumas semanas, eu me desse ao luxo de acordar tarde e gastar meu tempo fazendo feijão e couve. Regando as plantas. Limpando janelas limpas. Por isso, as idas e vindas de Marco me eram boas pelo seu tom teórico de me impedir a loucura – pois para ser louco é preciso ter tempo. Eu, desempregado, tinha todas as tardes do mundo para ouvir Marco, ainda que por alguns dias. O bom dele, de seu modo pouco sociável, é que mal se importava se me atrapalhava ou não: chegava porque queria, saía porque queria, mas isso só quando atingimos um estágio mais radical de amizade, que é aquele de se ver todos os dias. Porque, das duas uma, sobre tudo o que penso: ou tive uma vida chata por demais, ou são os outros que inventam detalhes para acrescentar em suas rotinas regadas de tédio. De vez em quando dá para ter um dia genial, coisa-de-louco, desses que se conta tudo no dia seguinte, e isso só de vez em quando. Mas Marco não, Marco era velho e vivido, Marco falava todo dia e, quando já não tinha mais o que falar, repetia algum passado.
_____Eu, que sou mais novo, sempre tive uma vida craseada, desde menino. Acentuava-me aos poucos, de vez em quando, e sempre com dúvidas. Aos oito, ganhei um cão e perdi uma avó. Eram esses os tipos de crase que permeavam meus parágrafos, até que arranjei uma namorada de sobrancelhas finas e olhos largos. Grande coisa: acabou sendo só mais uma fase – ou crase – até mesmo um travessão, que durou três meses e se acabou sem prantos. Hoje, não é que estou triste, não é que acabei. Mas vejo a vida de Marco todos os dias, às vespertinas horas, e me torno contrapontos. Como se tudo o que passei virasse um poema do Mario Quintana, lotado de reticências e com eterno sem-fim.
_____Já ontem, Marco me mostrou uma foto três por quatro de quando beirava os vinte anos, já há mais de meia década. Não era um rapaz exatamente bonito, e na verdade nem um pouco bonito. Tinha um rosto sério e medroso, típico de timidez tamanha que impeça até o cantar durante o banho. Era o rosto de um jovem centrado e, como já dito, repleto de coerências.
_____Levantei os olhos e Marco chorava. Se empapava na mudez das lágrimas e olhava para a ponta de meu nariz (não para mim). Eu ainda não havia percebido, mas desde que acabou-se o ano passado Marco anda distraído, com cara de luar. Ainda assim, apesar de um pouco louco, tentava contar histórias sempre que chegava em minha casa. Ontem, porém, quando vendo a fotografia, não estávamos em meu sofá, na minha sala de estar, mirando meu abajur de alumínio. Estávamos na casa de Marco, uma casa chata e, ao extremo, sem graça. Ele sumira por dois dias, por isso lá fui eu saber que diabos lhe havia acontecido. Vestia pijamas quando eu cheguei, e falava pouco, pouco. Até hoje não sei porque não me contou. A única coisa que sei é que saí para botar o lixo para fora e vi uma crosta de cartazes sobre todos os postes da rua.
_____Frederico sumiu.
_____Frederico era um gato marrom, já com feição de velho, e Marco nunca havia me contado sobre nenhum gato, bem como nenhum romance, nenhuma demonstração de vida – assim como eu. Quando cheguei em visita, choramos juntos, antes até das fotografias. Ele pelo gato, eu por ele, pelo gato e, egoísta confesso, por mim. Não trocamos mais palavras e eu nem quero mais vê-lo.O mês é de chuvas, todos os dias, por muitos milímetros. Chove o dia inteiro e, como que por mágica, os cartazes continuam nos postes, intactos. Como que de propósito, Frederico me encara sempre que saio ao mercado.
_____Desculpa, Marco. Um gato marrom apareceu em meu quintal durante a madrugada. Eu matei, e sinto muito, matei porque tenho tempo livre e sou louco; matei em segredo que nunca contarei. Eu sou um idiota. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempos para cá

no começo a gente era bobo
e nem sabia das coisas

hoje a gente é feliz
porque não sabe das coisas

a gente assovia
finge que sabe
e fica sendo feliz
até que o amor (não) acabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Infância sem lirismo

a casa em que nasci
não era casa
era apartamento
na Abílio Soares
não-sei-que-número
nem quais andares

acontece que tenho um problema:
todo poeta que se preze
escreve um poema
à primeira casa

mas eu não sou de casa
sou de apartamento
e só depois fui ser de casa
não tinha hortas nem cabras
nem insetos nem goteira
só escadarias e cimento

tenho um problema ainda maior:
não sou poeta
mas tento.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Imortal


Isso aconteceu. E não somente isso aconteceu como também tenho total e absoluta certeza de que é verdade o acontecido – aconteceu de verdade –, pois o ouvi não de qualquer um, mas da própria, da dita cuja, a que fez ocorrer o referido fato, a Velha Duse, que sem ela nada seria. Não fosse ela a abrir a secura da boca fina para me contar a verdade, tintim por tintim, eu, certeza, não botava fé. Não falaria nisso nem para criticar, que não sou gente de dar ibope para o que não vejo graça. O caso foi sério, seríssimo, e daria muito o que falar não fosse o jeito quieto de Duse, que não fez alarde.

Antes que me chamem de mal-educado, já deixo claro que estava a conversar com a velha senhora, cheio de bons tratamentos, e quem me falou para retirar o “Dona” da frente do sujeito, manter o nome como é de batismo, foi ela mesmo, foi Duse, ou Dona Duse para aqueles que ainda pensam que não tenho respeito pelos mais idosos.

Quando soube do caso, tentei recobrar a memória para ver se lembrava de ter ouvido algo. Afinal, Duse mora na casa ao lado da minha, e por consequência nos vemos todos os dias ou quase.

Me mudei para aqui em casa, de onde escrevo e olho através da janela, há bem uns cinco anos, e de mim mesmo pouco mudou. Deixei metade do que tinha no lixo, que me parecia tralha demais, e o resto veio comigo, somente o essencial, para a casa nova, dois andares, vazia. Duse, que no começo era só uma vizinha, bateu em minha porta para saber quem eu era. Parecia cordata, bem simpatia, mas imagino que – com razão – a velha estivesse somente querendo saber se eu, que a partir daquele momento dividiria paredes com ela, não seria nada de muito perigoso ou agitador o suficiente para fazê-la acordar de suas sestas ou de seu leve sono noturno. Sei disso tudo, de seus hábitos de descanso, por dois motivos, sendo o primeiro o mais indelicado: ela bem que ronca um pouquinho, coitada. E também porque escolheu sua casa em arquiteturas altamente iluminadas, com janelas por todos os lados, voltadas ao quintal. Do segundo andar de meu sobrado, podia ver todos os seus pontos estratégicos de sono, mas não pensem besteira não: nunca teve uma vezinha sequer que vi ou tentei ver a Dona Duse sem roupas. Não sou calhorda a este ponto, vejam bem. Mas aos poucos, por essas e por outras, passei a conhecer bem aquela senhora, e durante os cinco anos de estadia pude acompanhar cada mudança de tom de seus cabelos, que rapidamente esbranqueceram.

Se eu estivesse em casa, no andar de cima, teria visto. Mas estava em horário de trabalho, e não vi. Perdi a cena. Dona Duse deixou de ser Dona no dia seguinte, quando nos encontramos em frente à minha porta, eu vindo do trabalho tal qual todo dia, ela com o carrinho de feira lotado de alfaces, couves e cenouras. E um pastel na mão, penso que de queijo, a velha não é boba nem nada! Perguntei como ia, ela ia muito bem (ela sempre vai muito bem), alguma novidade?, ah meu filho novidade é o que não falta!, qual é a nova da vez? E ela me contou tudo, até arrumou o carrinho na vertical, parado sozinho, para não gastar os braços segurando o peso todo enquanto me explicava.

A véspera tinha sido um dia de altos e baixos. Duse não gostava de sol, desses sóis fortes que doem os olhos, e também não gostava de chuva. Quando chove a casa fica toda acinzentada, e somado a isso vem aquele barulhinho de pingos atrás de pingo no telhado, ou seja: quando chove Duse dorme o dia inteiro, se sente velha, se sente inválida, desconfortável, como se estivesse em tempos perdidos. E depois não dorme de noite. De onde ia tirar mais sono? No dia anterior o sol havia se aglomerado nos cômodos, de fazer doer até o corpo, para Duse que já tem suas muitas décadas. E também a chuva despencara, brutal, tudo no mesmo dia, durante a manhã. Os gatos que dividiam a casa com ela entraram em situação de alvoroço. Eram três, todos monocromáticos. E nunca que se aquietavam. Quando o sol entrou, correram pelo quintal, entre cada uma das lagartixas. Não se cansavam. Aí veio a chuva, torrencialidade absurda, os gatos correram para dentro, a saltar janelas até invadir o quarto de Duse, que em contraponto encostava cada uma das venesianas em seu esforço idoso de andar pela cada inteira, que aliás era até pequena. Depois, ela se sentou em sua cadeira de balanço e ficou ali, parada, calada, espiando o movimento dos gatos, que iam de um lado para o outro querendo telhados e besouros. Foram poucos os minutos necessários para que dormisse, a cabeça redonda pendendo para uma angulação torta, diagonal.

A chuva cessou de uma vez, tal como seu início, e o dia continuou acinzentado, porém um pouco mais claro. Duse continuou seu sono, imperceptível que estava às coisas do mundo. Sonhava algo com laços de fita, um baile, cães gigantes, um sonho até que feliz para uma senhora que mal saía de casa para diversões. Sonhava e talvez sorrisse (não há certeza sobre isso, pois quem me contou foi a própria, e a própria dormia), dançava com um e com outro cavalheiro, em rodopios, enquanto os cachorros gigantes integravam o corpo organizativo da festa, se faziam de orquestra, de garçons, de mâitres. Mas isso tudo não importa, se sonhou, se não sonhou, o que havia em seus sonhos de idosa. Só que, se sonhava, embarcava em suas histórias e cada vez mais peso botava sobre seu sono. Não chegou a ouvir a maestria dos gatos ao empurrar a persiana da janela do quarto, assim que os ares secaram. Eles, malucos, saltaram e voltaram ao quintal, onde tinham espaço para serem inquietos e diferentes de todos os outros gatos de velhos, que são sempre dorminhocos e parados.

Depois que a chuva parou, como um fim de explosão, a gravidade puxava tudo para baixo, como sempre puxou. Somado a isso, também havia o mal das águas, que escorria e carregava o que encostasse em seu caminho vertical. Frutos caem no chão, folhas, árvores, fiações e telhados baratos estatelaram-se pela cidade. O que acontece com os insetos voadores quando começa a chuva? Sempre tão pequenos, rápidos, conseguem escapar dos diâmetros das gotas? Ou morrem. Quando cai a tempestade, tudo desaba junto, tudo finge que se acaba, menos os sonhos de Duse, que bailava com um milhão de rapazes diferentes. Os gatos pulavam ao redor da árvore que, fragilizada, semantinha ainda consistente e um pouco mais desfolhada. Eram lindos os gatos. Estavam a se morder, não de briga, mas de brincar, quando dos galhos mais altos e finos da árvore caiu um pardal minúsculo, de poucos tempos, encaixotado em seu ninho. Ou somente no que sobrou dele: o emaranhado de galhos e organicidades estava destruído, torto e fraco por completo. Chegava ao ponto de se esfacelar, misturando-se ao corpo pequeno do pardal imobilizado. Fez um barulho mínimo, o som de um quase nada, mas o suficiente para despertar Duse, que levantou em sua rapidez extremamente lenta.

O gato, um deles, num salto abocanhou o bichinho e correu em fuga até o outro lado do quintal. Sua boca era pequena, mal cabia o pardal inteiro; mais um pouco e vomitava. Aguentava firme, mas não sabia o que fazer, como direito fazer. Começou a morder de leve, e o pássaro foi cessando. Não podia se debater por muito tempo, e parou. O gato forçava um dente, forçava outro, forçou todo seu sistema bucal contra o pequeno animal que se derramava sobre sua língua áspera. Ao mesmo tempo, almofadava com as gengivas e o céu da boca ao dorso do pássaro, e quase o cuspiu fora, assim que o sentiu imobilizado. Mas Duse já estava a abrir a porta de seu quarto, sabia que algo acontecia, mas o quê, levava susto fácil e precisava checar o que era. Se Duse visse o bicho cuspido, o gato lambendo, mordendo, arrancando penas e carnes, não sobraria para ninguém, aí é que seria um deus nos acuda e o gato sabia disso, Duse disse que os gatos entendem bastante bem as normas de convivência da casa. Olhava para os lados e não sabia onde esconder seu novo tesouro. Guardou o corpinho defunto dentro da boca e deitou-se na grama, atrás das árvores, como se fosse mais um dos frutos caídos da estação. Como se não tivesse matado o pardal com as pontas dos dentes. Duse percorreu o quintal inteiro e tinha certeza: algo estava errado – fora de sintonia. Olhou para o canto do quintal e lá estava o gato, separado dos outros, que a tudo ignoravam. Ele correu em disparada, aos trupicões, mas foi encurralado perto do portão alto e fechado. Deveria ter aberto a boca antes, largado o bicho morto na terra, soterrado, para ser esquecido e degradado. Mas tempo não tinha mais. Sua boca sangrava de leve, aquele sangue típico de gato que apronta, e vinha direto dos machucados que levou no atrito interno com o bico do pardal. Duse abriu a boca do gato, as mãos também já avermelhadas, escorrendo, e de lá arrancou o filhote antes que levasse uma mordida ou um arranhão, não por mal, mas por falta de opções. Deu meia-volta e o gato ficou ali mesmo, parado, muito bem sentado no chão de ladrilhos. Seus olhos acompanhavam cada passo da senhora que fazia seu máximo para chegar à lavanderia. 

O pássaro, mortinho da silva, se aninhava em suas mãos de grandes nódulos e veias saltadas. Mais parado que ele, não existia nada, edifício algum que ganhasse de sua imobilidade mórbida. Ela o posicionou sobre um tapete velho, na pia da lavanderia, e se transformou em uma pessoa mais serena do que qualquer lenda de deuses. Tocou com as almofadas dos dedos, bem nas pontas, ao peito murcho do pardal. Não se mexia, definitivamente. E guardou o choro para depois, restando somente o escorrer de lágrimas que se expandia sem balbúrdia, com a leveza de quem respira. Apertou o que havia de músculo no bichinho, tocando não em peles ou pedaços, mas sim em pontos-chave, pequenos botões do corpo que se escondiam pelos tecidos e órgãos. O pardal estava morto e o gato não daria as caras por mais uma meia dúzia de horas. Duse seguiu, chegou perto do peito meio depenado, apertou-o nas costas como a uma marionete delicada. Parecia que sua operação tinha base em um abraço tátil, na proporção dos dedos, e as mãos sendo um segundo corpo inteiro, pleno. Um abraço cirúrgico, estratégico, cuidadoso. O coração voltou a bater depois da infinidade dos segundos, um ecoar imenso se orquestrava na lavanderia, conjunção entre o pulso fraco e velho de Duse e o peito fraco e infante do pardal, que um pouquinho depois abriu os olhos.

Que a morte existe, a gente sabe, a gente já viu, a gente já sentiu no estatelar de algum parente. A morte está por aí, rondando, e matou o passarinho. Duse, sabe-se lá como, o ressucitou. Não acredito em Deus, não acredito em milagres, não acredito em magia, mas Duse, para mim, é um caso a parte. O passarinho já sumiu, deve ter ido embora para o mundo. Mas está vivo, assim como Dona Duse, a Duse, que ressona sua sesta e permanece em vida há muito tempo. Mês que vem fará cem anos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

São Paulo

Maria bonita
ou meio sem-sal
Maria custódia
Maria nariz largo da batata
Maria paulista
medo da polícia
malícia (nos olhos
de quem vê
w x y z)
pelas ruas frias
(e batatas fritas)
onde passa
não qualquer outras
mas essa maria
sofrida
desvazia
mas não rasa.

Maria vive todo dia
em constante
afogamento:
não achou ainda
possível fuga
pro fogo que a inflama por dentro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Carta ao homem

que não é seu
que nunca é feio

não tem que ser grande
não tem que ser pequeno
- é do modo que é - 

que não é dom, que não é dama
que não é cama nem é bom
(que para ter o bom
é preciso ter o ruim)

que não tem um só jeito
uma forma, um só meio

que é de quem o tem:
o seio.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Aquilo que é visto de longe

tudo que lívia não via
eu via e calava
eu
não ia
e amava
lívia
(tão linda!)

amava
sem sossego
sem alívio
sem
nem aconchego
na vida.

domingo, 11 de novembro de 2012

diário

acho incrível isso tudo
que você me faz
diapósdia
feliz demais

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ou vi do

do grave
ao agudo
muda-se o mundo

e vai pra bem longe daqui.

domingo, 4 de novembro de 2012

Malemolência

não era de todo linda
mas era uma moça calma
na timidez das sandálias

eu olhava de longe
com ares deleite
e todos os dias
pairava
a pensar

se era a sandália
quem roçava o chão
ou se era a moça
arrastando a vida.

não sei, não sei
só sei que era calma

como se soprasse brisa
nas próprias pegadas.