sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Como vagalumes

Por uma estrutura total
que nada falte nem tema
que não transborde
o limite aquático
deste poema.
Por um mecanismo de defesa
capaz de atar novos nós
entre as pontas das letras
em formulações inquebrantáveis.
Correntes de girassol.
Que venha algum ser vivente
lotado de técnica, e recite
os mil versos que encaixam
o melhor poema do mundo.

Que não seja anatômico
nem eleve o divino
um poema anti-amor e anti-ódio
que não fale do poeta e do poema
da melancolia fácil
um poema sem puxa-saquismo
de infâncias, de mestres
pais, pátrias e cidadelas.
Um poema que seja novo,
e que brilhe no escuro
como vagalumes e brinquedos de criança
a me deixar maravilhada
o queixo pairando
na força da gravidade.

Venha, mundo,
venha.
Me surpreenda.

domingo, 29 de setembro de 2013

O poema infinito

Dentro da folha de papel não constavam
meus pensamentos
ou nada que é meu de direito.
Nada cabe
naquele espaço tão branco que enjoa
e sai voando com ventos quaisquer,
seja os do norte, os do amor
da morte ou do passado,
os ventos que doem no ar.

Na folha de papel havia palavras
aquilo que não se diz o que é
o indescritível.
Havia palavras e delas voariam
flores e colmeias
um par de ideias abraçadas,
não fosse o cárcere inserido na folha
que geme seus versos
e se atrofia em si mesma.

Não cabe mais nada
neste folha de papel.

Porque ela, fantasmagórica
e concreta folha
busca o couro de si
se retroalimenta,
devora.

Nunca haverá um ser humano
dentro do poema.
Nele já transitam,
não entre fibras, moldes, cortes
não dentro de tinteiros e lápis
menos ainda através de poentes
ou belezas de mulher,
mas trespassam, entre as curvas das letras
e os sons da leitura em voz baixa
os traços cranianos de mais um poema
certeiro, encaixado
nos espaços brancos da folha de papel
ainda que os tipos se espremam
e que não haja mais margens.

Um poema sem cores
completamente material
soprando os narizes
que encostam na folha de papel
um bafo úmido,
um desconcerto,
clamando por releituras
do verso primeiro e do oculto.

E dentro deste poema,
ainda mais escondido
se guarda um novo poema,
e outro.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As portas do túmulo

Quando morri não houve festa
mas também não houve anjos, não houve fogo
não ouvi barulhos
sequer soluços
e eu,
eu nem chorei de volta.

Bati os pés,
despi o tronco,
mas aquela capela torta
filha das catedrais
calava a tudo
cortava os pulmões
em pedaços de célula morta.
Envolta em madeira e marcas brilhantes,
a capela dormia em mim
e me sufocava ao sono profundo.

Quando morri não houve sofá
não houve poltrona nem comes e bebes
não teve flores em forma de auréola.
Não houve aurora nem entardecer
nem mesmo um céu aconteceu.

Rezar para eternizar, diziam as vozes
dos bispos inexistentes
líquidos, enterrados
sulco entre as vigas
desta minúscula capela.
Sem vitrais, sem desejos
sem prazeres e segredos
sem ornamentos.
Sequer um pequeno confessionário.

E também sem pessoas
nesta última capela
a final de minha vida
onde os bispos rezam, sussurrando
encrustados em paredes de terra
sob os pés de alguns amigos,
não muitos,
que aos prantos pisam meu teto.

Eu não ouço mais nada.
A arquitetura desta capela não permite.
Estendida no altar, as costas ao chão
imito a imagem de Maria
e dou a luz eterna
ao mais eterno nada.
Eu já não existo mais.

domingo, 15 de setembro de 2013

Barreiras aos olhos

os óculos coloridos
do pequeno menino
franzino e caolho
brilham no abajur
do quarto da mamãe.

mas como pode
brilhar, meu deus
se seu olho esquerdo
enfermo
está tampado em fibra bege
de mini-pirata
da farmácia
e o olho direito
imerso em remelas
cochila na tarde chata
de sexta-feira.

brilha?
chora
enquanto dorme.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Caravelas

Caravelas coloridas nos quadros
não são as mesmas da coroa real
real de verdade, exata.

As caravelas, desgastadas em trajeto pelo Atlântico,
as caravelas tomaram-me tudo
romperam meus ligamentos
para construir pontes invisíveis
por onde passavam o brilho dourado
e o gosto marrom, quase preto
do cheiro amargo que a todos eles esquenta.

As caravelas me levaram
minhas luvas de cozinha
a cozinha que eu não tinha
e já sei que não vou ter.
Levaram as perspectivas, toda a autonomia
e também as economias
que eu mal sabia ter,
só levava comigo.

Causaram-me dores,
causaram-me fome
e, depois, quando desvalida
e tonta por tabelas,
rasgaram-me inteira até o fim das pernas
afundando na mata densa e inóspita
que não pertencia a
nenhum daqueles velhos barbados nas cores das nuvens
mais brancos que o branco
do coco, do santo.

Ah, o santo.
Onde é que os meus foram parar?
As caravelas,
no mar desdentado,
levaram de tudo
e levaram-me toda
depois de fraca, doente e já morta
por pedaços de terra
até que toda minha crença
se desmanchasse
nas águas fascinantes desse mar
como se fosse uma folha de papel.

E, no fim, tanto faz
e, bem, tanto fez.
A folha pouco importa
e seus escritos menos ainda.
É como se em mim morresse uma parte
que tão mas tão importante...
não sei sequer lê-la
nesta língua que não é minha.

O que sou ou que fui
o que quis e desquis
o que fiz:
talvez
o maior segredo do universo.

domingo, 1 de setembro de 2013

A deformação do tempo

Esta lareira
que bem me serviu no ano passado
já não serve mais.
Está suja esta lareira
suja e lotada de cinzas
sobre tudo aquilo que queimei.

Meus pés escondidos, meus pais,

o patinho de borracha que ganhei de meu avô,
os bilhetes de amor
cuja letra garranchada
ignorando a pauta das linhas
voava por dentro da folha,
a folha que agora é cinza,
um monte de cinzas
esparramado na lareira
que nem mais me esquenta.

Não me serve a lareira,

nem meus pais,
nem a sola do sapato
que de tão velho nem chegou
a ser mencionado,
os amores antigos já não bastam
e sequer voam o suficiente,
na verdade não saem mais do chão
esses amores acrófobos,
hipocondríacos.
Não me serve mais nada.

O patinho de borracha

que lembrava meu avô
derreteu na labareda
e, enquanto derretia,
deformando as feições fabricadas
de pato feliz,
parecia chorar lágrimas de meu-deus
as lágrimas que não chorei
mas ah
mais do que nunca as sentia.

sábado, 24 de agosto de 2013

Incolor

há um céu de cem cores
em meu coração
coroado da dor
de um punhado de flores
no oito de março.

Em meu coração
corroído no mundo,
os olhos entregues
no canto direito
ligeiramente roxos
veem chegar o outono
e se debruçam no chão
igual fazem as folhas secas
nos filmes americanos
que meus olhos veem
enquanto não chega o sono
(e talvez não chegue nunca)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O desbotamento

Que prossigam os árabes e os cavalinhos
os céus mais azuis que miragem
na margem do oásis
a que se chama hoje seu pensamento vago.

Que venham as lagartixas coloridas,
os navios cheios de luzes,
os sorvetes sem açúcar, os tubos de oxigênio e soro.
Que venha até mesmo o sibilo preocupante
da secura de sua boca,
emudecendo,
até que volte cada sílaba
de suas histórias de família.

Viagens solitárias e telepáticas
beiram o abismo num sorpo
ilegível.
Cavalinhos.
Lagartixas.
Céu azul abaixo do teto.
Durcilla emoldurada na borda da cama,
o rosto sério e cru.
Qual o nome de sua mãe?
Você está me vendo?

se mexe, você
e sonha enquanto seu corpo
se molda às dores de uma derrota
iminente,
prevista nos nascimentos,
mas você luta.

E enquanto passeia o mundo,
na brancura sem fundo da cama
sem cheiro
sem gosto
e história recente,
ainda permite que eu sonhe ao seu lado
as mãos atadas às suas
que suam, se aquietam
enquanto me olha como se visse fantasmas.

Por trás desse véu gigantesco,
a pesar mais que a doença,
está preso aos cabelos seu laço de fita
desbotados os tons de rosa
como nas velhas fotografias
da sua infância.

E que por força ou por sorte
seu corpo viaje e enlouqueça
mas que não doa ou desbote.

A saudade pesa, e para sempre
pesará se você não voltar mais.

A árvore de nosso quintal
herdeira de anos e badulaques
faz a sombra aos animais
alimenta os curiós
remonta e responde ao ciclo onde estamos.
Primeiro a solidão em caroços
depois surgir timidamente
florescer, dar fruto, dar-se o tempo
até que a cortem pelo tronco
ou que exploda em tempestade.

Se cortarem este tronco que nos junta
e permite flor e fruta,
vou-me embora e me entrego
de alimento para os pássaros.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Durante a noite

as esquinas
tem medo
e peito
e bojo
e jogo
de cintura

as esquinas
tem dores nas costas
nas coxas
tem cílios enormes
e dores nos filhos
que nascem e morrem
todas as noites

as esquinas
infelizmente
se dobram
se curvam
cruzam as ruas
que tem mão única:
que só recebem
mas não dão

essas esquinas
(muitas vezes tão meninas!)
são mesmo é demais valentes
de aguentar
tanto na vida
como se a noite
fosse o dia
e depois seguir em frente.

domingo, 11 de agosto de 2013

Dedicatória

A ti os tomates vermelhos
que escorrem, líquidos,
das pernas.
A ti, inteira, a flor
e semente e caule
e genitália oculta
entre o odor do pólen.

E os mares e a lua
(a ti!) e o sol e estrelas
e tudo que for gigante
que amantes prometem
para falar bonito,
mas nunca vão dar.

Eu não. Dou-te o que
tenho e alcanço
um livro do Graça,
cadernos de capa dura
e maria-moles da feira de doces
na biquinha de Santos
quando nos sobram centavos
para sairmos em curtas viagens.

Se eu pudesse e quisesse
te daria de um tudo,
em um tipo de amor assim
meio megalomaníaco
que às vezes me assusta
no amor pouco que vejo
nos lábios dos outros
pelo tempo do entre-aulas.

Não tenho de muito,
nem faço barganhas.
Não quero comprar-te
na base de anéis e relógios.
Te dou o que posso,
o que me dá vontade
e recorda-me de ti.
O resto eu dedico,
desejos futuros,
e assino embaixo
para que não esqueças
de quem veio tamanho presente
incoerente e solúvel
nas fibras desta folha de papel.

A ti, todo o carinho do mundo
e mais um pouco,
que é para dar sorte.
Beijos,
Helena.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Chamamento

dança um samba comigo
senhor dos olhos de vidro!
um samba de ginga e de pinga
para curar solidão
da vida moída
dos talos de vida
e calor.

e dança junto comigo!
ó moça branca e careca
ó moça preta e careca
e todas as moças do mundo
e todas as velhas e crianças
de todas as crenças e cores
cabelos diversos em tons e tamanhos
para a dança de muitas danças
até que se deite o sono
da noite para o dia,

até que se deleite o sonho
da grande Bahia.

sábado, 27 de julho de 2013

Situação de risco

Eu duvido que soltes a flecha
que a lance direto em meu peito
e, ao mesmo tempo,
também duvido que te lances,
a si próprio, sobre mim
você que tem medo
não do escuro que assombra.
Não do inverno ou da ausência das lãs.
Dos insetos bizarros a assombrar a sujeira do chão.
Você não tem medo de nada.
Mas tem medo de mim.

Eu duvido que salte e que corra
que grite na minha cara
dentro da minha boca
e, ao mesmo tempo,
que me rasgue um beijo
me tire do sério
me ponha mais louca
do que já sou.

E duvido que me olhe nos olhos
no entorno das pálpebras
na cor dos olhos semi-mortos
por horas, por dias.
Que passemos um ano inteiro
um sobre o outro.
Sendo o assunto da dúvida.
Sendo uma eterna dívida
que poderia doer e arder
e dividir cada cômodo da casa
que não temos.

Até que um de nós, o primeiro,
comece a gargalhar
ou então que chore
até não se saber mais quem exala
as lágrimas duplas
de duas pessoas
transformada em uma.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O canto de Mariano

Estávamos conversando, esses dias, sobre a dependência da criação poética às experiências pessoais. Decidimos então fazer um desafio: Helena, mulher branca e feminista, teria que escrever um poema sobre a causa negra, e Ronaldo, homem negro e anti-racista, faria o mesmo, mas sobre a opressão por gênero. As trocas de experiência sobre as opressões que sofremos foram cruciais para que pudéssemos entender mais e apoiar às causas um do outro e vice-versa. Seguem abaixo os resultados deste desafio conjunto.



Bastaria uma noite preta
um chão preto
botas pretas
e olhos fechados,
pensavam os brancos,
para armar na festa negra
uma farra comedida e calada
sem incomodar aos caprichos
e às canecas de leite
de seus vizinhos brancos:

os que dizem fazer a ciência
em torno de si,
e fizeram da poesia
um troço branco e inexato,
poema raro,
armaram mil mecanismos
para arrancar do preto
o que é dele
roubar-lhe a música
os versos e medicamentos
roubar as salas de aula
os adereços de cabelo
os pequenos endereços
e até o barulho das festas.

Uma festa muda e camuflada,
eles pensavam,
para que ninguém desperte:
nem brancos, em sono de edifícios
nem pretos, a despertar todos juntos
sobre si mesmos.
Mal sabiam eles que a negada
já acordou unida há tempos.

Não é preciso que caia a tarde
e chegue a noite
para Mariano começar a cantar.
Mas nesta noite ele canta.
A voz sai seca, coaxando,
e ecoa entre o cimento,
pelas frestas das lajotas,
rente a cada azulejo
e passa
da festa
ao mundo
e o mundo não passa da festa dos negros
e mais um pouco,
o pouco dos brancos.

Quando Mariano abre a boca
até o fundo do seu próprio céu,
um fim de mundo na garganta,
canta
as dores de ser camuflado
ser escondido à revelia
Mariano, o sapato furado
mas por pouco tempo,
que fique bem claro.

Cantar o pão velho
não o torna macio
não coloca recheio
presunto nem queijo
mas faz o pão
ainda mais pão,
completamente pão,
duro e coberto de dias,
porém pão.

Canta-se a dor
pois a dor é ainda mais dor
para doer nos tímpanos
de quem a causa
e fortalecer cada um dos doloridos.
E vejam que a dor é muita
para a pouca porção de pão
mas a festa irá mudar,
vão haver reviravoltas,
é o que canta Mariano
e que Dona Marta chora
suspira, esfrega os olhos
calada e de ouvidos atentos,
o grande corpo de matrona,
de corajoso ventre,
posicionada em meio à roda confusa
mas plena de si.

As estrelas medrosas aparecem,
aos poucos, como gatos desconfiados,
só para ouvir Mariano cantar
e ver a festa preta dançar
nítida,
tremendo o chão da madrugada.

Ninguém dormiu naquela noite
e ninguém mais dormirá
até Mariano decidir
se a grande festa já ganhou
tudo aquilo que queria
e que lhe foi negado
durante toda a vida.

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O outro poema está neste link:
http://assimbemdepressa.blogspot.com.br/2013/07/encaminhamento-de-ana.html

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dentro de dentro

Não escrevo
em entrelinhas.
Exponho o imaginário
num porta-retrato
de tudo que é sólido
por si só lido
sem poeta exato.

Durante a poesia
descrevo
cada incrível estrela
que não vejo
na noite nublada
e feia.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Falso eclipse

Meu amor,
e se eu te disser
que essa lua enorme
que você tanto fala
está na verdade
dentro dos seus olhos?

e brilha o reflexo
do brilho dos meus olhos
que te veem cair no sono
lentamente
como quem cai do céu
ou como um falso eclipse,
meu amor,
entre a tola corrida das nuvens.