terça-feira, 31 de agosto de 2010

Conjugação


...e assim foi embora. Não que fosse das mais importantes. Não que fosse das melhores ou mais competentes. Não que tivesse grandes epopéias ou pudesse contar uma odisséia. Foi embora assim seca, assim crua, assim sem grandes dores. Na verdade, foi embora estática no lugar (já que tudo depende do tal referencial). Sem desmanchar-se no ar paulistano, sem qualquer brisa piegas (que já não passa de briga com a linguagem). Só sumiu, sólida, insólita, numa solidão momentânea. Assim ao deus-dará, logo seria recolhida pelos passantes necessitados de quem possa acolhê-los. Não vi quando se esvaiu de minhas mãos porque o calor equatorial pede abano, e não apêndice ou carga. Eu matando saudades amigas com gente das antigas, e ela lá, vermelha e quente, enrolando-se a meus braços, pedindo: carregue-me, por favor!, não me esqueças, pois deves lembrar que de estações é feito o ano e o caminho de trilhos!, que minhas formas e dobras de algodão doce já se adequaram a teu corpo também nem tão perfeito!, não caibo em pretéritos, mas até que aguento alguns meses em um armário, sabendo que voltarás a me abraçar por cima de ti! 


Não dei muita trela, o calor naquela viagem me estonteava, a saudosa colega de escolas passadas me contava de presentes, duvidosos futuros de pretérito, ríamos de imperfeitos passados nostálgicos, e havia uma quantidade um tanto quanto absurda de belas moças no específico vagão. E ela ali, pedindo um envergonhado suplício, acalorando-me mais ainda com seus fiapos e botões cor de batom. Eu levaria ela comigo sem pestanejos, admito e confirmo: não era má assim, e me dava muito gosto quando eu pedia proteção de ventos cortantes. A verdade é que sou malagradecida, é isso mesmo o que confesso. 

Desci do trem em alegrias férteis e caminhei pela avenida de artesãos, empresários, amputados, estudantes e modernosos. Aquilo estava cinematográfico demais, eu já devia ter imaginado. Os passos em compasso, a sincronia do piscar alheio com o mastigar de uma senhora acolá. As esquinas continuavam, todos semáforos a meu favor! E então, num mais-que-perfeito que parecia mais um imperfeito, conjuguei a rotina do dia, passo a passo, em análises de nossa relação quase conjugal dos tempos gelados, mas só vi a ausência dela, que agora esperava que alguém a catasse em alguma estação, num entupir-se de sangue, hematoma, que na verdade era a cor dela mesmo: como diabos fui esquecer a simplória blusa vermelha, de lãs tracejadas, no metrô? Oras bolas.

E afinal, tudo isso teria sido mais belo (porém não menos corriqueiro) se ela tivesse voado do varal, dançando e apontando a direção do vento, passarinhando com tom de pirata, os pregadores ao chão, vencidos.

domingo, 29 de agosto de 2010

Chatice vespertina (Terça-feira III)


Agora o verde já não é mais aquele verde. As folhas continuam vivas, isso eu sei, mas não me minta dizendo que a cor é a mesma: tenho acompanhado o cair leviano da sombra. Pois eu estou aqui de cotovelos à janela central. Qualquer falha na coragem rígida da trinca que mantém o vidro levantado trazendo-me brisa, e essa camada-vitral transparente de existir opaco me mata, cabeça para um lado e corpo para o outro, frações rolando pela rua ou por meu quarto de tolices desmundadas. Fechar a janela pode ser ou proteção ou covardia. Mas ah, paremos com isso, não me faça pensar em egocêntricas tragédias, ridículo maior não há! Além disso, a tarde está bonita! Emolduro em minhas palavras o eco dos pássaros camuflados. Cadê os pássaros desta bela melodia orquestral? Pi-pi-pi!, passarinhos, venham cá!, tentem-me ao mundo e escolham meu vestir-se como fazem à Bela Adormecida! Olho o céu e só vejo o avião em réptil lerdeza, em translucidez poluente de aparente inocência.

Minhas costas agora doem fininho, estou em posição de binóculo há tempos já! Mas aqui valsa uma brisa tão filhote... delicioso seria despir-me agora (creio eu, pois acabei por não testar). A cabeça me pende ao lado, alguns milímetro no máximo, não me duvide!, se sentir necessidade cate uma fita métrica e meça você mesmo, oras! Um piscar de olhos um pouco mais prolongado cairia bem, não se preocupe, não vou cair-me! Cochilar é dormir em alerta, lembre! Se eu vestisse os olhos com óculos escuros, ninguém nem perceberia. 

Cadê minha sombra, você a viu? pois ela estava bem aqui ao meu lado, emagrecendo minha silhueta, e agora...? Ah, sombra, aí está, mudou-se de lado comigo, só isso, engordando minhas formas já meio tortas. Por isso o verde fotossintetizante mudou, jaboticabas saltando de seu caule cor de cabelos. Na copa ainda sobra um raio de sol, ali as folhas se distinguem pelos amarelos que as invadem, amarelos patriotas momentâneos de vida e não doença. Ah, isso parece tom de cartão-postal. Nos extratos mais de baixo, o verde se crepuscula, a sombra está invadindo os arbustos mas a beleza ainda está, melancolizando em rondas junto de bem-te-vis e pardais. Janela é coisa bonita porque abre a sombra, parte com ela. Atravessando a janela partem jovens enamorados de épocas distantes e distintas. Janela é parte da casa, é o quadrado do cubo. E, ai!, eu bem que me avisei, ai!, que impropério de ações!: e agora, nesta calma estática de mundo quadro, recorte urbano, é a janela de trava hipócrita que me parte e decepa, corpos aos dois lados: agora sim minha cabeça deve estar rolando (ainda bem, convenhamos, isso já se tornava tedioso, esse em cima do muro, despejada à janela e ao ócio, de medroso olhar o mundo). As cores se transformam pela luz perspectiva, ah maravilha!, assim como um corpo navega a vida. Pois a folha que cai não é falha, é precisão da estação.

(ultimamente tenho vomitado textos-lixo. perdão.)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vida: Verbo Vírgula

Eu virgulo
Tu virgulas
Ele virgula
Nós virgulamos
Vós virgulais
Eles virgulam

Ponto.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

De um rápido desespero infantil



Vem cá, meu querido! Quer dançar com a vovó? - Mas o que raios pensava aquela senhora de mangas bufantes? Ela estendeu o braço pelancoso e ofereceu a mão nodosa de brilhantes unhas descascadas nos cantos. Sorria. Sorria. Mantinha-se sorrindo. Sorria estatuamente, sem qualquer movimento minimamente fotográfico. O molecote hexagenário encarava atônito a sexagenária que armariava em sua frente. Os olhos foram subindo de leve, enaltecendo o contorno, e ele se empenhou na frustrada tentativa de esconder-se sob os gigantescos cílios de criança. Mas como tinha cílios lindo aquele menino, cada um deles sorrindo a todos os ângulos possíveis, todas as pessoas ao redor. - Luquinhas, por acaso um gato comeu sua língua?! - Um riso de medonha capenguice ecoou como montanha-russa nos caminhos do ouvido de Lucas. O garoto, que antes comia brigadeiros e doces de amendoins naquela festa-para-adultos-que-mamãe-obrigou-a-ir, agora retorcia os dedos atrás das finas costas. Pois afinal, tia-prima-avó não é vó. Tia-prima-avó tem casa cafona e não sabe a idade do suposto netinho. Tia-prima-avó é assim chamada porque tem nome desconhecido para infantes de encontros centenáricos. 


Lucas, com ávida esperteza inocente, espalmou as mãos no ar, mostrando toda a melequeira de chocolates e doces encocados que, sejamos sinceros antes de qualquer encucação, não foi tão sem querer assim, tão coisa de criança assim. Em pressas tontas, soltou um sorriso desengonçado de leite, esgarçou as falsas gengivas, idosamente veloz, e disparou pelo salão de tédio, entre velhas reluzentes, batons, delineadores, luzes focais, gravatas e chapéus. Um banheiro, um banheiro!, é preciso encontrar um banheiro, é preciso lavar as mãos e esconder-se no colo de mamãe! Por entre crepes e nomes, o peito em erupção, encontrou à porta metálica uma moça de longas rendas e adornos e até que um certo salto, sem cabelos desgrenhados, mas de rugas ao léu do relógio, aquela tal mamãe. De compostura bipolar, a mulher tratou de tratorar qualquer dizer ensimesmado do filho, perguntando em tom orangotango o que era todo aquele chocolate nas palmas da mão, chegando até os punhos, Lucas do céu! 


O menino foi se esgueirando com os pés quase polegares na direção da Santa Pia do Banheiro, (ah pois essas leviandades são o verdadeiro divino,) mas a voz grossa da mãe irrespondida foi irresoluta, entre valsas burguesas e boleros entorpecentes. Olhou a mulher cuja personalidade se duplicava, os olhos marejando de dúvida, em dívida consigo mesmo. Por que teve de ir à festa? Por que, se é para ir à festa, não podia passar o tempo enamorando-se aos doces magníficos? O terno duro de inutilidade e inusilidade começava a tornar-se também pasta, o que deixava a mãe ainda mais indignada, louca mulher. Empurrou a porta com o ombro e arrancou-se para dentro do banheiro, os braços dentro da pia molhavam as mangas por completo, num encharco irremediável. Saiu com todo o frescor humano, a água geladinha arrepiando-lhe a derme. Criança é gente engraçada, refletindo o mundo em si toda, num relógio alucinado de ponteiros atletas. Abraçando-se à mãe, que esperava atônita à porta do banheiro e agora já havia percebido a auto-ignorância de intransigência plena, foram juntos à mesa, embora ele tentasse conduzir, em coreografias tortas, os passos em direção à chapelaria. A tia-prima-avó dançava agora ao longe, em gargalhadinhas moçoilas, com um pobre menininho desconhecido, que provavelmente estivera distante da ilustre mesa de doces. - Mãe, vamos embora?

sábado, 14 de agosto de 2010

Dorme a cidade










Dó. Dó. Dó. Descobriu-se o dó. Em seguida vem o ré, depois mi, fá, sol, lá, si, e a dó volta. Entre as estacas de mausoléu há uns saltos pretos, de complicações maiores. O cabelo meticulosamente trançado de Carmem espanava o piano, este que se fazia mais casa que o lar em si, paredes porta janelas cama banheiro. As mãos estranhavam, ela não sabia fazer a música com o piano. Os dedos gélidos de inverno se embrenhavam e contorciam feito pernas de aranha, a mão sendo o corpo, e qualquer som que saía daquele armário de cordas percutidas era aleatório, com um existir-se cheio de vazio. Só estava, pois as férias para ela chegaram, mas aos pais ainda havia trabalho e janta fria. As unhas tortas carcomiam-se para os lados, folhas descamando, partitura na ponta do dedo: Carmem sentia-se mais pluma ao rodopiar os dedos entre as teclas, cada respiração à flor da pele, à flor da carne, à flor da digital que apropria-se do ancião piano num tocar registro geral, momentâneo. Dó. Dó. Dó. As meias não esquentavam nada, só pinicavam mais ainda o rebuliço branco que a tremedeira dos dedões causava. O banco arrastou-se para trás, e nisso os joelhos de Carmelita espreguiçavam-se, o relevo da meia tatuado na coxa esquelética da moça, que nos tempos de vento cortante acocorava-se sempre, na situação que fosse, lembrando uma coruja de exacerbados olhos.

Andou de um lado ao outro do piano, metida, de dedo arrebitado fungando aquele cheiro aranhoso de segredo ancestral, e depois tocando-o todo com as pontas dos dedos, que atuavam pertencer a uma pianista ou poetisa. Transformou o fura-bolo e o pai-de-todos em pernas do simpático hombrecito que dançava um tango cantarolado de improvisos, às margens das teclas, no braço envernizado do velho músico. O hombrecito transformou-se em sensual cantora de blues, desfilando sobre as teclas com voz de fundo piano, palhetas escondidas. E, num tique, a cantora vira uma partida de dominó entre velhos. Mas as pecinhas de madeira do dominó, Dó, fazem fila e derrubam-se de ponta a ponta, de dó a dó, rindo no Ré: um riso arrasador de fugacidade salta dos lábios despontantes de Carmem quando os dedos correm pelas teclas fazendo um som único, mundo, uma espécie de choro animado, ou triste gargalhada... uma onomatopéia maior, gigantesca, decibéica de palavras, quilométrica de passos. Um palíndromo oposto se toca quando os dedos voltam ao dó agudo, partindo da gravidade. 

Com olhos de luneta, fuça cada nó da madeira e cada risco no verniz. Descobre atrás de vasos alguns portarretratos de careta moldura, num estilo coríntio sem dotes, sem brilhos perolados e sem a graça ocre do minimalismo seco, rio cheio. Por dentro do vidrinho sujo, fotografias em processo de desmantelação de um tempo que dela não é. Tempo de novos adultos barbados, tempo de acampamentos, fogueiras, praias e lamaçais, tempo de alegre fossa com companheiros naquelas bebidas que corroem a garganta. Tempo de barriga aventureira e útero deserto. Oh não!, uma moldura caiu no poço do piano-armário, porque raios ela abrira a porta mesmo? A ausência do passado agitado e dos contornos idosos, será que os pais reparariam? o telefone, o fogão e as banhas acumuladas diminuíam as possibilidades, que aparentavam rídiculas e de azar imenso. Era escuro lá nas profundezas mecânicas do piano. Sabe-se lá os pedais e roldanas que lá poderiam existir. Vai que. Mas e se. Já pensou se. E se for o caso de. Aí fudeu, né. A ideia transformara-se em fardo central de sua cabeça, encosto mecatrônico, o receio impedia qualquer funcionamento cabível às roldanas do cérebro. 

Dizem que, quando a água é gelada demais, a dor térmica se empequena ao combater o frio entregando-se de uma vez. É quase que um domínio do mar. No mar. Ao mar. Mar. Mi. Um amar ao mim. Tacou-se na cova clássica do enorme piano, os olhos espremidos, quase a soltar suco, a ponta do nariz ficando cada vez mais rubra, a circulação era elíptica, num formato de cabeça. Os braços longos se violentavam, com forças vindas da resistência do ar e nenhuma mais, um Newton quase ao contrário, não sei, queda livre dependendo do meio e da neblina. Caiu sobre um pedal, o som ecoou alto, fácil, Fá. Mas a escuridão complica tanto que a estrada estica. Acaba-se por carregar o fardo por mais tempo amarrado aos pés calentos quando as sombras impedem a independência. Caluda!, se não sabes onde está, não palpite! Carmem ponderou-se e agachou-se, transformando-se na coruja dos dias de céu branco. Os pés miúdos sumiam ao transformarem-se em tronco das pernas compridas da menina, estas metamorficamente transformadas em copa de árvore, coxas densa copa. Com os dedos para anéis infantis, foi esgueirando-se na espreita de si mesma, qualquer toque imbecil podia fazer-se nota, discreta nota de vida, lembrete sisnestésico. A coruja camaleava e então era lagarto, arrebitando-se por aí e no tato da cegueira entendendo o mecanismo. As cordas se ajeitavam com suas palmas da mão que transpassavam, afinação das melhores. Os pedais e as molas lembraram-na uma máquina de escrever, daquela que sua avó conservava para seus iguais adultos. 

O tempo passa e as horas não se fazem, é possível um badalar, há esperanças de um mundo lar novamente. Sai andando e se esquece de atentar, o mindinho errôneo e impaciente mantinha-se de lado, acarinhando cada parede ou sublinho de relevo existente na escuridão oca do campo pianês. Campo, interior, viagem, acampamento, barraca, fogueira. A fotografia dos beiços pecaminosos dos pais de Carmem entrelaçados era em conterrânea grama de campo deserto, campo de natureza sonora. Os passos se aceleravam, movimento uniformemente variado mas, sem pretexto, contexto ou protesto, um pé foi, enquanto o resto do corpo ficou, destroncando e por pouco não desenraizando Carmem, carne confusa: Degraus desciam, e só o pé mais adiantado percebera, o resto foi indo com a maré, vulnerável e sem bóias, nóias, jóias. Os degraus iam caindo em compasso segundante, contando horas em um cuco-menina: carmem então marcava quatro horas da tarde, piando no martelar de piano. 

Quatro horas em viagem mochileira é hora do não-banho, do beijo e da arrumação de lonas e moletons, para depois tacar-se por cima dos aconchegos e descansar os queimados dos ensolarados quilômetros matutinos. Depois, empilha-se tocos em geometrias pós-modernas, fazendo nascer o fogo de terras queimadas, o fogo benzedor que acompanha o afago mútuo, muito. No resquício de luz entre meados de um breu fantasma, a ópera faz-se folclore e o regionalismo fervilha em afeições a dentes desfalcados de humildade antropomórfica. Ali deve estar o contorno e o enchimento, ali deve estar o congelamento de uma pré-gravidez em vida maior, transbordando em partitura, parteira depois. Falta encontrar o fogo. Um pontinho, que seja. Isso aqui é escuro e as pontas mecânicas me ferem como vírgulas de pernas pro ar, uma coisinha que seja. O metálico das cordas em estico máximo panoramiza-se, e reluz um brilho fraco de sumiço. Se reluz é porque há luz. O ângulo da luz se esconde na transparência, é transparência demais pra tanto breu, tanta tralha, tanto fio solto, isso aqui parece casa em construção, isso aqui parece lustre desligado em quarto isolado. 

Uma roldana vai girando, fazendo-se escudo instantâneo que gira mas parece que sobe e desce, que entra e sai, que grita cuco. O badalar das cinco horas soou no ponto desfoque e formigante de luz, no inverno o poente é mais ligeiro e o fogo faz-se necessário, faíscas vão palpitando de um amor louco e da caliência necessária para a noite ao relento. As brasas piscando incandescentes, e Carmem indo numa cegueira solitária, a única coisa que podia enxergar era o vermelho-amarelo-laranja do plasma fogoso que chama, chama. As mãos sangrando de rasgar nas cordas metálicas, os pingos daqui a pouco começariam a cair, demarcando as seis horas. Seis horas é tarde, seis horas é pouco para seis e meia, seis e meia é época de assembléia sopeira em távola mixuruca mas redonda. Os olhos brilhavam como se ressoassem também acordes e arpejos, metálicos e convexos, complexos. A faísca ia crescendo, não só pela distância como pelo encantamento do fogo em cordéis, dança bela das áfricas francesas. Começavam a marejar os olhos, a loucura mecânica esquecia-se do papel dos cílios, que Carmem tinha de sobra. Além disso, essas lunetas agigantadas de Carmem achegavam-se da fuligem fumacenta de fogueira e da água abundante em margens da maré, praia de sossegos. O líquido sal dos olhos começava a exacerbar-se, percorrendo o corpo da menina sem qualquer osmose, e unia-se ao sangue das pontas dos curiosos dedos, dissolvendo-se um ao outro e formando uma coisa só, humana ao extremo. Essa salgada groselha acentuava-se em circunflexos, onomatopeicamente mergulhando ao chão, rememorando Carmem de seu salto livre ao interior do piano. 

Carmem apressou o passo e desengatou a correr, pois os saltos acrobáticos de suas dores líquidas tinham som de tempo, ai como o tempo está passando rápido! Chegou à fogueira no terceiro badalar, e teve instante para, durante o quarto sino, ver em timidez caçula o pai com jeito de moço largar os gravetos e juntar-se à namorada, por acaso aquela que parira a menina, enrolando-se os dois num cobertor esfarrapado que agora habita sua desconjuntada cama. No quinto soar, de afinadíssimo Sol, juntou as mãos ao núcleo estelar que é cadente ao oposto, nobre fogo de gravetos desérticos. O calor calou o líquido incessante, e então soou o Lá: para lá daqui, num aqui de antes, o lá de agora. Lá onde é pra estar, onde a perspectiva e o contraste formam a imagem. Sê num Si lançado pelas teclas dos olhos metálicos, Carmem cuspiu-se para fora, um dos tacos tacou-se junto, madeira musical que concretiza a feia moldura. A foto estava afinal aos pés do piano, caiu-se quando aos mãos de Carmem por lá se esparramaram. E, se é para retratar-se a nudez de dois jovens, que pelo menos o retrato esteja também nu. Resta-me dar o Dó ao próximo que passar, pois é de sons sinestésicos que se faz o tom, o com, companheiro.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Inseto infante


O ônibus balança, chacoalha pros lados sem ritmo ou melodia, só em sincronia com os buracos das ruas mal-cuidadas da metrópole. Tento ler meu livro de letras miúdas, mas a cabeça começa a explodir-me, pedacinhos de cérebro espatifando-se para os lados, em sacudidas violentas como o transporte público. Involuntários são meus olhos, às vezes até um pouco indiscretos, mas é que enquanto minha vista fica a pairar, me perco em pensamentos, e a visão se desfoca em um ponto fixo, que importuna-se. Desta vez, pelo contrário, o sem-querer de meus olhos não significou a falta de nitidez: pois, no quarto banco atrás do cobrador, de nariz colado à janela, sentindo na face o tremelique motorizado que parece pertencer ao mundo, estava uma moça aí de meus álbuns de fotografia. Era Joana, a Jô de meus velhos tempos, com quem bailava em épocas de colégio e trocava bilhetes bobinhos que deixavam enrubescidas nossas bobinhas maçãs do rosto. Separamo-nos por conta do tempo e do ginásio, que chegava com jovens moças de flores despontando e rapazes de topetes e jaquetas. Neste agora meio desconcertante, me atrevi a fazê-la recordar de seu apelido meio maldoso de infâncias, aquele com que eu e minha ganguezinha de moleques astutamente a pentelhávamos: Joani-nha!! Não saí em corrida de fuga, como naquela época, assim como Jô também não lançou faíscas dos olhos nem perseguiu-me em fúria sem estribeiras. Só travou os olhos a mim, libertando-os no relance. Sorriu como sempre, as gengivas enormes exibindo-se, hipérboles da anatomia. Há agora uma ruga na testa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Síntese da Psicologia

Sem sombra de silêncio, soou o submisso sinal colegial às seis da matina. Sofia sonoramente selou os lábios com os de Sigmond. Sincero, singelo e saboroso, sem sussuros: som de sigla, sinfonia súbita.  Freud explica?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Memória Engavetada












D
Di
Dia
Dia n
Dia na
Dia nad
Dia nada
Dia nada.
Dia nada.”
Dia nada.” (
Dia nada.” (2
Dia nada.” (24
Dia nada.” (24/
Dia nada.” (24/0
Dia nada.” (24/03
Dia nada.” (24/03)

Naquele apartamento de ácaros e mofos, havia duas escrivaninhas. De madeira verdadeira e sotaque europeu, Anita embutia-se à parede, que não era tão nojenta assim porque a janela, pequenina porém válida, carregava para fora o ar pútrido do abandono daquele muquifo, e trazia o ar também pútrido porém diverso da grande metrópole de unhas roídas e pintadas. Anita, misteriosamente estática, guardava em gavetas os livros de cabeceira, as fotografias de sessenta e nove e do colegial, as anotações arregaladas, uma fita do Senhor do Bonfim e um antigo caderno de rabiscos, que é para quando Benevides, o anfitrião a quem hospeda, atende o telefone. Em outro cômodo, não por acaso o quarto de Benevides, mantinha-se em existência espectral a outra, a suja, a que esconde os lixos nas gavetas e debaixo do próprio estofo furado e embolorado. Janette, os pregos soltando, as pernas desiguais, macambeia para os lados, mas se mantém de pé, encarando uma parede que mais se fazia muro: sem frestas de luz nem ar, segura toda a água que não cabe e se lota, manchando tudo com cor de fuligem pobre. A máquina de escrever, Simone, era carregada de um lado ao outro do apartamento, e por isso seus dedos já não mais teclavam as palavras muito bem: os ás saíam borrados, os érres renegavam o negro e acinzentavam-se, os dáblios também embestavam a empacar, mas isso não importa, pois Benevides nunca escrevia muito sobre Wilsons, Walters ou escritos estrangeiros. Simone agora estava sob guarda de Janette, desleixada Janette.

O dia não prosseguia para Benevides, e ele bem sabia que olhar só para uma parede inchada incha também o ser humano. Seu encher-se escondeu-se nas gavetas -suas, de Janette e até de Anita-, fingindo-se nada. Hipócrita, Benevides tinha as pálpebras molengas como jeito de ser. Anitta exigia demais dele, fazendo-o ouvir sons de trabalho e lembrar de regar as plantas do parapeito porco. Benevides mirava o muro cinza que encostava em seu nariz, os olhos em tremeliques de covardia. É óbvio que a parede não ia se mover. Que nada ia acontecer naquela parede de fracasso. Que a parede era opaca demais para se ver qualquer coisa. Que só. Se é dia nada que Benevides aceita, um dia nada Benevides terá. Janette apoia Simone sobre si, e também apoia a tosca vida de Benevides, largado ermitão em vácuo universo. Anita sussurra uma canção, mas o homem não pode ouvir: em estado ameba, fixa o olhar no não-mundo que é a sua individualidade inexistente.

Com o cinza, combina-se até o marrom: marrom flop-flop de um casulo discreto que se avoa e, jurássico, não mostra a evolução. A mariposa vem da janela e canto de Anita, um quase acalanto, e pousa no canto esquerdo da parede em pose de posse. Os dois medíocres seres vivos se encaram com escárnio de angústia. Ora, houve uma intersecção no intransigente espaço vital. Arregale as pálpebras, Benevides! Pelo menos à Mariposa, encare! Janette balança, num rangido quase relincho. E, brutal, sela-se com Simone, as letras amarradas. Do convívio diário e meticulosamente observado com Benevides, Janette já o sabe: o homem tem lá sua covardia, mas quando se empolga com uma letra ou outra, e forma palavras e orações com sujeito terceira pessoa, então a vez dela se acaba. Então o mundo renasce e, junto com ele, uma paixão meio modesta meio arrebatadora que Anita desperta.

Anita viril, Anita saudável, Anita símbolo mas também com mimo de nascença, Anita tem farto parapeito, do tamanho da metrópole. Um m sai, emperrado, da boca de Simone, que se auxilia em Janette. “Mariposas são casulos portáteis.” E, pois bem, até que Benevides não era tão fossa assim, tão forca assim. Em movimento brusco, a mão grossa do homem arranca o papel do rolo de destino de letras, Simone até que não se importa, pois sabe Benevides em tempo integral e íntegro, mais que Anita ou Janette, estas alteregos próprios, desfalcada mulher mobília. A página rasgou-se e a fibra era visível a olhos nus – a mesma fibra que, aos dedos de Benevides, se espreitam ao ser-relíquia que parou na parede. Encostar, tocar, cutucar, diálogo; remexer-se, avoar, devanear, diálogo (avoar mais, amundar-se, mesmo que seja uma imundície, mergulhar no carbônico esconderijo que é o mundo). Benevides tenta guardá-la em gaveta, as fibras salientes desfocando os predicados, os objetos diretos, mas mantendo o sujeito em paz, na memória do resquício.


Mas, ah!, as letras se embaralham, de coisas bonitas já estão cheias as gavetas-tesourinho de Anita – se Janette não se prestasse a guardar o que não presta, mais universo seria Anita, apesar de não tão bela ilha deserta. Mas, ah!, Simone tem voz forte e pinos descorcertados: a incerteza identidade Benevides, semi-nômade, acabará por desmantelar a negra mulher de palavras sábias que não mais poderá dizer o que Benevides aglomera em botões de raciocínio. Mas, ah!, as orações se enlaçam homericamente nas gavetas de extremo ser, não se sabe mais se o tal sujeito da oração é o nada, o dia, a Mariposa ou restos vagos de palavras soltas que poderiam antes fazer-se sentidas, um sentido. Mas, ah!, fonemas tão semelhantes, janette anita, janette anita, janete anitta, escrivaninha de prazeres cômodos, junção que se arrasta e se finge um completo, ser humano, nome composto. Mas, ah!, Benevides: é mais belo ver-se no refletir de vidraçais e poças do mundo que na parede coisa, onde só se é a lembrança de gaveta do que antes fora – fôra lá fóra.


terça-feira, 27 de julho de 2010

Caleidoscópio


O sol invadia as pálpebras de Luana. De cílios tocando-se, sentia o vibrar do calor em cada laranja, amarelo, preto, roxo e azul. O dia entorpecido estava a acabar-se em seus olhos, atravessando as pálpebras cerradas, bailarinas. Luana fazia força para se segurar, aquele poente precisava ser visto de olhos fechados e pupilas abertas. As bolas coloridas eram hipermetropia máxima, pontos desfoques colados nas córneas. Mas, ah!, o pôr do sol nunca esteve tão perto, é certo! O amarelo dançava, discoteca sertanista, entre vermelhos bambolês, confetes azulados e alaranjadas serpentinas, tudo sem freio, tudo tudo, tudo tão!, tudo visto, aquele tudo tentava ignorar os sinos da igreja que batiam as seis horas, aquele tudo era quase relevo, sinestesia bifocal de estrelas cadentes antecipadas: "não, ainda não é noite, mas por favor, estrelas, venham e caiam sobre minha íris, fiquem nela e substituam aqueles tracejados vermelhos que nos ficam nos olhos quando a noite é mal dormida!"

Luana tinha papel, lápis, 36 poses na câmera, tudo ao seu lado, mas não podia registrar o espetáculo porque seu teste era manter os olhos fechados -e calmos, porque de olhos apertados e enrugados é fácil. Luana era atenta ao circo que acarinhava o escudo translúcido de seu olhar, sol que atravessa. Olhava para fora e via dentro, via -caminho que ia, estrada de festejos. Mas, como em misturas químicas, o vermelho ia dissolvendo-se, o amarelo dissipando-se, o laranja desarmando-se, e o resquício mais quente do poente era um violeta, que se transformava em roxo e começava a dar espaço a rarefeitos vagalumes azuis. A pupila desacobertou-se, mas Luana quase que nem percebeu, uma paz ia subindo, em oposta sincronia ao sol rubro que chegava ao fim, em saída de maestro que regera pontos brilhantes de luz no céu da pupila e agora descia do palco em carisma plena. As estrelas se reproduziam em instantânea sensualidade naquele céu de cidade menor, e a lua cheia era agora a dama mais elegante da boate. Mesmo sem estrelas cadentes, Luana ficou a dançar no céu, cantando na garganta e imaginando-se de beiços colados a um microfone retrô.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O tempo não passa de mero clichê




Na velha casa morava a senhorinha. Senhorinha porque o tempo a encurtou e à vida alongou. Senhorinha porque senhora não é, não impões respeito como algumas por aí, de medonhas dentaduras desproporcionais e passos de mamute. Senhorinha porque anda em tictictictic, um pezinho atrás do outro, as pontas do sapato marrom aparecendo rapidinho para fora da enorme saia fina que casta as canelas e as veias saltadas. A senhorinha vai à quitanda, seu carrinho de feira gradeado num recrecrec quase tictictic. Vai de óculos escuros, porque tem lá seu estilo, e as lentes que lhe tapam os olhos, gigantes azul-negro, têm seu degradê - pois a senhorinha adora balançar a cabeça, para cima, para baixo, paracima!,parabaixo!, enquanto passeia pela nova e movimentada França, e vê as pessoas trocando de cor, elas podem ser tanto claras quanto escuras, elas podem ser bicolor no degradê dos óculos da senhorinha! Mas ela já aprendeu que só sentada pode fazê-lo pois, com a idade que guarda em sua caixinha de música, a queda já é experiência, ainda mais entre os paralelepípedos desencontrados das vielas que caminha.

A senhorinha se esgueira para fuçar as horas no relógio de pulso alheio, belo relógio aliás!, o vizinho tinha um idêntico, mas tenho reparado que seus braços andam meio nus, o que será que houve com o relógio do vizinho? - e, percebendo seu atraso, sai andando em tictictic mais ligeiro, senhorinha ratinha. Foi um atraso meio necessário. Imprescindível, digamos assim. Pois passou pela rua do charmoso Café des Deux Moulins, onde em belos tempos trabalhara e que, agora descobrira, estava fechado. Mas na caixa do correio havia um cartão postal, com a fotografia estampada de um bebê gargalhando, num eheheheh! quase audível, sinestesia pura, se me permite. Era um convite, primeiro aniversário, destinado à avó da criança, Georgette, antigamente a fogosa caixa do Café e amiga cujo endereço, puxa vida!, ainda se recordava. Conhecendo Georgette como conhecia, sabia que a desvairada não iria checar a caixa amarela dos correios a tempo. Aproveitaria ainda para bebericar um chá e conversar de novidades arregalantes e reparar em cada quadro colorido que enfeita as estreitas paredes de Georgette. (E assim o fez.) 

A senhorinha vai à quitanda. E pode muito bem, no caminho, prestar atenção nas pessoas sérias que andam por aí, mais precisamente nas pessoas sérias que usam meias coloridas ou de ursinhos bordados. E quando encontra essas canelas, solta uma risadinha discreta, leve como ela toda, um sorriso em vermelha meia-lua, fazendo assim da boca a parte do rosto com menos rugas. E com esse jeitinho, a cabeça se joga para a frente - ela, com idade tão grande como nossa feiúra em fotos três-por-quatro, já treme toda por si só - e nesse suave balanço feliz, os óculos se jogam para a ponta do nariz. A escuridão das lentes se torna ridícula perto daquelas grandes e negras jabuticabas que riem, agora visíveis.

A senhorinha volta a armação elegante ao lugar com as pontas dos dedos, francesa como é, e vai se chegando à quitanda. As jabuticabas se alegram ao ver tanto  tomate vermelhíssimo, e bananas, e abacaxis, e maçãs e afins. E a senhorinha cumprimenta o Seu Lucien, que cuida da épicerie com a mesma boa vontade de sempre - e mesmo estabanamento, não neguemos. Mas o faz direito, sem o tardiamente falecido Monsieur Collignon ao lado feito sombra-pesadelo. Seu Lucien, pelo menos, também percebe que beringelas também têm sentimentos. A senhorinha compra meio quilo do mais vermelho tomate para fazê-lo seco no forno, especialidade que sempre torna os dias do calvo Nino, namorado de sempre, mais prazerosos, diria até mais deliciosos. A senhorinha dá um último sorriso a Lucien, vira-se ao sentido oposto e os cabelos brancos curtíssimos, à luz do sol mais forte do clima temperado francês, fazem seu batom aparentar-se mais e mais vermelho, rouge outro, velha moça. 

A senhorinha Amélie atravessa a rua com força nos braços esguios, carregando suas sacolas de prazeres da quitanda. O anão de seu jardim está por aí, rodando mundo.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Saga.

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo."


Como a dinastia de Aurelianos e Arcadios de García Márquez, assim me têm sido os gatos aqui de meu quintal e afago, ciclo vicioso que vicia a mim também:


O primeiro foi Gatoní. Certamente não o primeiro para a real apaixonada por felinos da casa, anciã, avó Maria, mas o primeiro para mim, nova semente que o nomeou. Negro, pirata mal encarado, nunca me gostou. Aliás, nunca gostou de ninguém, só de Maria. A mim, unhadas e miados que paralizavam-me: e lá me ia eu, desenfreado pitoco de cabelicos cacheados, a dar a volta por toda a casa para não passar por aquele ser maligno, digno de Allan Poe. Mas à Maria ele ajudava, companheiro: dizem por aí que à Maria ronronava. E só à Maria, de um ronron que se estendeu até seu fim. Gatoní era neurótico, enorme de panças, profundeza em si. Não sorria como outros gatos, e, até certa época, o único outro felino que já vira foi seu reflexo no limpíssimo espelho de corpo inteiro que todos os dias Maria passava um pano úmido. Mas às vezes até que se aventurava a correr atrás de novelos de lã e passarinhos descuidados que pousavam na sacada do apartamento -pássaros estes que Maria, ao ver a corrida do gato, em disparada, e uma ou outra pena amarela no chão, arrancava à força da boca dentuça do felino que, afinal, era felino. Uns saíam pela janela meio capengas, mas vivinhos; outros, numa fragilidade de chave perdida, morriam, às vezes nas próprias mãos nodosas da velha Maria. Com ares de Al Pacino em Perfume de Mulher (belíssimo filme aliás!), Gatoní sofreu as dores do câncer, este sim maligno, que o espreitava sempre que as coisas estavam para melhorar. Idoso de catorze anos, fora levado ao chão de grama e aos troncos de árvore, a um quintal que, em esforços musculantes, poderiam levá-lo aos telhados, barro simétrico sinônimo de liberdade. Mas, por velhice e doença, o gato vivia num velho cesto de palha dura, encaraminhado como ilha num mar calmo de manta colorida, lã-relíquia. Maria sabia que o tempo não mais lhe pertencia. Gatoní, pobre felino mascarado estava sem ares de grandes forças. Chegou então a vez dos gêmeos.


Luna, princesa celestial, era a escolhida. Longos cabelos, face transbordando candura. Bolinha branca, passava os dias janelando.  Janelar ao sol, janelar aos pássaros, janelar aos coloridos guarda-chuvas que se faziam de gente. Vivia em pequeno apartamento, com mais uma legião de gatos que se faziam companhia e esperavam o presente próximo da adoção, além do magro e tímido homem de poucos cabelos e clavículas visíveis, cujos animais eram sua devoção. Lino, frajola panterinha, veio junto por amor do caçula de nossa família, que sempre se mantinha junto daqueles a que se identificava, os bichos sapecas de pilha que nunca se gasta, aqueles que vivem em inércia de tóinhóinhóim prum lado e pro outro, festival de sacolejos pela sala! Lino e Luna me eram por nome, eu Lena, como que alteregos, diferentes personas animalescas tão humanas, que em mim cabiam os dois juntos. Juntos como sempre estavam, a pular um sobre o outro, pequenas mordidas de dentinhos afiados e chutes aos ares, que levavam sempre a miadinhos agudos de nenê que pede e pede e pede: agora! e o mundo era deles, o quintal era deles e o telhado era deles: tinham a liberdade -eu, na falta da minha, ria só de sentir a deles, liberdade tão Alexander Supertramp e tão todomundojunto!


Lino descobriu ter um pai. Gatoní, o célebre e irredutível idoso, permitira que o minúsculo nenê dividisse consigo o cesto. A tal lei do mais forte começava a sumir no mundo livre dos felinos meus amigos. Gatoní já não era mais o mais forte porque a doença o atacava e seu miado perdia a força, mórbido. Era, isso sim, o mais antigo e, portanto, mais sábio. Maria murcharia se o cesto esvaziasse. A hereditariedade era, no caso, a solução. Acho que Maria murcharia porque o tal mundo da liberdade acabaria também a ela, flor octogenária cujas vidas outras eram também dela pois com ela os felinos compartilhavam do ronron.


Até de meus olhos gracilianos pingou o sal, quando em confidência da noite Gatoní permitira meu singelo carinho na cabeça, anunciando morte, anunciando pedra. Pedra que chegou dias depois. Assim se foi, como livro que se fecha. Morreu no cesto. Luna nunca gostou do cesto, estabanada e manhosa que só ela: gostava mesmo era de ficar junto, roçando a cara de porcelana em nossas pernas, inquieta e com fome de estar no mundo, janelar. Lino assumiu o posto. Mas, assumindo-o demais e não por vontade própria, enquietou-se. Não mais passeava pelos telhados, capitão da areia, a audácia juvenil não corria mais em seu sangue. Envelhecera, sem qualquer sintonia com o tempo: tinha então mero meio ano de vida. Não era para ser assim.

 
Lino, outrora espevitado, estava mais idoso que a própria Velha Maria. Não mais nos pertencia: sua árvore genealógica repentinamente fez-se viva e decidiu lembrar de marcar-se. O que sobrou do gatinho pequetico antes abandonado foi a doença. A nova paternidade enlutecida de Gatoní não fez seus genes transformarem-se e combaterem a doença hereditária, cruel e verdadeiramente hereditária, que chegava (e que a seu longínquo irmão, soubemos depois, também apareceu). Lino estava imobilizado por excesso de água no cérebro. Nós, sempre tentando amparar-nos, logo inventamos, em bobinhas brincadeiras, que sua hidroencefalia era, na verdade, inteligência por demais; sua grande cabeça vinha da densidade intelectual da casa. Estávamos nós tentando nos ser em Lino -pois Lino era nosso em essência, era das noites em essência, era da liberdade em essência. Queríamos nós ser a essência da noite, dos pingos de luz chamuscados no céu, da liberdade quente. Pois de Lino nós já éramos. Dias e noites, por eternidades felinas, o pequeno manteve-se no cesto. Tentava andar, mas os membros não lhe davam forças. Maria dele cuidava, amante eterna. Não traindo a si mesmo, o espevitado ronronava e ronronava -seu ronron era maior prova de vida que a respiração. Pois creio que haja um certo heroísmo em ronronar. Pois se o ronronar era possível e nos trazia tanta alegria e choro no escuro, qual a razão para somente respirar? Um herói se é assim. Foi-se embora do cesto e da nossa gente para roubar os faixos de luz da noite e fazê-los explodir em fogos de artifícios, bloom!, correr atrás de vagalumes e borboletas, pois felino humano era.


O cesto parou. Ficou encostado na lavanderia, ao pó da roupa suja. Chegou Toni, gato de extrema brancura, superando até a leiteza de Luna neste quesito. De olhos um pouco estrábicos e cara curiosa, daquelas que até pendem para o lado quando querem entender direito alguma bobice à toa, Toni teve medo. Veio todo com um jeito juvenil. A verdade é que, nos quinze minutos em que saiu do pequeno apartamento que alojava mil gatos para doação, e foi à casa solitária com um ar de coisa demais, coisa de menos, o mundo cresceu. Cresceu cresceu cresceu CRESCEU à uma moda meio explodinte, grande demais. Naquela casa, ao olhar para cima o que se vê é céu, e não lustre, Toni querido. Naquela casa, há gente espiando mais que nunca. Naquela casa há gente querendo. Passou semanas felinas escondido ao pó da roupa suja. O cesto virou sua gruta. Escondia-se inteiro por lá, e só a mim se confiava, permitindo raros carinhos na esbelta barriga. Quando saía pelo quintal, pois os ossos lhe doíam e era preciso comer, matar a sede e cagar, ia esguio, quase encostando o peito ao chão: tentava-se fazer chão, inumana matéria sem cor sem nada. Mal sabia que disso se fazia seu mais humano ser, puro Freud, puro medo, pura afronta de mundos, pura mistura que é ser tanto si quanto os outros, Toni Gatoní do avesso. Com os tempos, foi-se esgueirando, botando a força nas pernas para levantar num tanto que Lino não conseguira, pobre. Foi-se chegando à Luna, momentânea rival de outras bandas, e passaram a brincar e morder-se no quintal que era deles, ó meiga Luna! Foi-se nos chegando, e seu ronron, audível a distâncias assombrosas, se fazia a simples toques delicados no corpo engraçado que usava, que era também de pantera: a branca pantera aos poucos começava a panterar, audaciosa, honrando o tal cesto, que resiste a gerações de machos felinos, símbolo-pilar palhoso e quente de Maria.


Há de haver uma certa semelhança entre os gatos, uma certa família. Pois, a quem disser que gatos são animais solitários, que de ninguém nunca precisam, eu sou a primeira a negar.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Singer.

A agulha sobe e desce, frenético modo tuf-tuf de ser. Seu rastro não está no metal rápido e fino, invisível. Seu rastro é linha branca entrelaçada que tenta seguir caminho reto e sem deslizes, crescendo e juntando as partes da flanela que não é nada mais além de um pedaço de flanela. Faz me bem costurar. Conduzir a linha pelo labirinto da Singer até chegar à fresta da agulha, ponta afinada. Acender a pequena luz amarela, único foco no breu da casa solitária às oito horas de uma quinta-feira à noite. Acelerar, pé na tábua,  pedal da Singer que me sabe e aceita o rumo que moldo, demodê modelo sem teoria, impulso da vontade não de roupa mas de linha demarcada, sinal cabal de vidas e poesias, sinal cabal de minha existência tosca e só, soando versos desafinados e de melodia errada na casa que me lembra nós. Pois eu e minha Singer, companheira, cantamos juntas -e canto torta somente eu, pois ela segue a condução que faço da flanela mas é irresoluta, rainha rubra com jeitos de quem manda no lar. 

Alfinetes, música, livros jogados para os lados. A história é ali, em cada tuf imediato nas cores da flanela que me acompanhará. Já foi-me dito que sou de família memorialista e, portanto, memorialista sou também eu. Guardo a imagem na câmera, guardo toda história em baús que sempre abro e abro de novo para fuçar e avivar a recordação. Guardo as aventuras em tênis rasgados de marrom vermelho. Saias tortas de acabamento pobre guardam minhas noites de solidão aconchegada e boa, em cada botão uma saga em grama, chá mate e toalha xadrez; em cada arremate um debate; em cada florzinha da estampa um amigo ou ente querido. 

Corto a linha e experimento: está mais ou menos, sempre um mais ou menos. Mas talvez mais mais e menos menos. O espelho espia, curioso, cada volta no corpo errado que me serve, esqueleto sem prefixo de inseto, pois platônico e dualítico, isso seria. paralítico. A barra acabou por ficar meio retorcida, mas isso é coisa que só os olhos repressores do reflexo sujo reparam e desprezam. As pregas formam novo caimento para a nudez. Sou nua nas noites de mim. Exoesqueletos são meu baú: guardo todos com cuidado, dobrando e alisando, ajeitando de vez em quando com a Singer minha amiga, um ponto ali e outro aqui, um ajuste na cintura  também não faz mal nenhum. Às vezes, retomo e saio mostrando, pois é esqueleto que ao lado de fora pertence, mundo e gente. é? Pois tão guardo com cuidado como visto e uso com cuidado: sou eu que os faço.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Desmemórias de uma terça-feira finalizada.


Não posso mais escrever sobre meu fim de tarde porque agora já não mais é fim de tarde, embora para alguns ainda seja. Só sei que foi belo, e me lembrarei dele com carinho – belo fim de tarde aquele do dia que não sei qual é, e que não me importa, pois foi de uma terça-feira boa, e isso me basta. Não posso mais falar do ônibus vazio, as cadeiras frias de ninguém, o mundo em sincronia com as armas de caça de Beirut, e somente com estas e nenhuma mais, porque outras seriam excesso fora do conto. Não posso mais contar de moleques correndo eufóricos com o bater do sinal da escola, do balão parado no meio da calçada feia. Sim, eu diria que havia um balão pairando no ar, preso não se sabe como ao chão. Chão este ao qual ninguém quer se prender, porque é áspero e duro. Meu balão é como a rosa de Drummond, mas não furou o asfalto. Só está lá, em calma de silêncio, no meio da calçada, planando quieto no ar. Eu diria que vi os olhos de uma mulher, olhos de gato acordado, no reflexo da grande janela do ônibus – e que a mulher trazia uma flor de pano na cabeça, que acochegava só de olhar. Eu contaria sobre o homem da tapioca, em sua barraquinha que cruza meu caminho, homem de barba rala, que veio da Bahia e olhava o céu laranja ao cheiro amarelo de queijo derretido. E contaria sobre um pequeno bem-te-vi parado no chão, sem medos e pequenices, ignorando meus brutos passos. Eu contaria sobre o céu laranja e rosa. Mas é que tem coisas que são grandes demais para nos apoderarmos assim delas. Contaria sobre meu céu não mais céu, meu céu espelho, no retrovisor de um fusca branco, que de olhar para frente, se via também atrás, meu azul e laranja, cores opostas separadas, o laranja no espelho sujo. Mas não posso contar, porque agora é noite, e esta minha história não tem fotografias. Agora é noite, de azul que se apoderou do céu quando destranquei o portão para entrar em casa. O que posso contar é que agora não é mais daquela cor, agora tem outro sorriso dentro de si. Então faço meu texto duro e triste, deixo-o texto sem tempo. Feio, aquilo que poderia ser mas passou do prazo. Então eu deixo o meu céu ser só um belo céu, que pertenceu a uma bela terça-feira, que por sua vez pertenceu a mim e ao Homem da Tapioca.

Canto do desejo


Ninguém nunca viu uma flor de caqui. Ela também não. Tenho certeza, e boto minha mão no fogo, que todos têm um desejo, qualquer que seja, inexplicável como os que têm as grávidas, daqueles que florescem do nada, que brotam em meio ao concreto, vindos diretamente das lembranças mais profundas de nossos tempos de moleques perguntadeiros. O dela era este. Pois se há fruto, há flor. Se há flor, há-se. E se há-se, ela pode ver. Não só pode como deseja todos os dias, em ideias curiosas, agora também de meninas-moças. Meninas-moças querem a vida. Ela, tão menina-moça quanto qualquer outra, sabe que toda menina-moça é uma, uma diferente. Ela, menina-moça, quer sentir uma flor de caqui. Em sua cabeça apaixonada e vírgula, sua flor de caqui sofre de crescer, madura mesmo em florescer, colorida de manhãs alegres do existir e só.

Já buscou em livros mil, mas para ela, eles quase diziam, na ausência de existência, que direto floresce o caqui. Não é, ela sabe que não. Há-se. Os pais sabiam, mas não lembravam; fizeram-se esquecer do motivo de tantos livros empoeirados, de solidão e biologia, espalhados pelo quarto de menina da menina-moça-menina deles. É certo, ela nunca foi de falar muito sobre seus subjetivos. É certo, ela sempre foi meio difícil, mas também é certo que todo mundo é um meio difícil. E seus olhos de gude diziam por si só, pediam mesmo quando o ela que não é tão ela não lembrava mais do assunto. “Flor, flor, caqui, caqui”. O problema é que pediam em língua outra, língua de quem vê os olhos, língua de quem mergulha e entende sem saber. Língua que só os loucos e sonhadores entendiam. Ela sabia, mesmo sem pensar – porque para isso não precisava pensar – que os tempos são difíceis para os sonhadores. Mas todo mundo é um pouco difícil.

Corria aos parques e jardins, onde conseguia soltar palavras para perguntar, e perguntar mais e mais, e enviar cartas a especialistas, mesmo estas nunca sendo respondidas, e convencer seus olhos mendigos que era tudo erro do correio. Onde há?, pois se há fruto, há flor. Não soltava era o seu desejo, que cantava sussurros em terno desespero pelo olhar.

Um dia, veio, como folhas amarelas do outono. Folhas amarelas do outono, secas, frágeis e quietas de solidão marrom e leve, leve só porque o ar conduz. Seus olhos de menina-moça se fixaram em cada pétala, no caule, no descheiro que para ela existia. Ela não percebeu que, quando a flor chegou em suas mãos, não tinha as cores dos dias alegres. Não percebeu que seus olhos se confundiam, queriam ver quem pertencia as mãos vividas que tocavam as suas, entregando a flor, queriam querê-lo mais e mais, olhar em seus olhos que poderiam também querê-la. Poderiam, ela não sabe por que não via, porque repreendia seus olhos que brilhavam dias mais aflitos que alegres. Os olhos subiam, ela arrastava-os à flor, somente à flor, aquelas mãos deveriam se tornar desimportantes. Havia sim percebido que a flor não era assim tão bela, não tinha cores de dias alegres, mas não poderia dar o braço a torcer, era ou não era o que ela sempre quis? E era. Enrubescida, gaguejou um obrigada, disse seu nome, foi embora em rodopios de dúvida. Aquele mistério resolvera-se. Desabrochou um outro, intenso e de cores de dias sentidos. Não sabia quem, por instantes de milênios, amou. Não sabia se devia estar feliz ou triste. Ou alguma outra coisa, sem nome nem definição, só sentindo só.

(Nov/2009)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Preta Pomba da Paz

A pomba,
cheia de pompa,
pombeia,
catando pingos de pão.

Pé laranja e olho preto,
pomba pica a mula,
pega vento e se avoa.
Antes pinta branco
presente-bomba, excreto,
do céu do poste.
Pimba!

Pomba pirata apedrejada,
Pomba bambeia pros cantos,
pomba parada
no piche da alameda presa,
pomba pombeia e pondera.
Pois o passo do carro pesa por cima.
Pois o peso do carro passa por cima.
(Pomba,
bum!, pobre pomba perdeu-se na paz.)

Ponto.