domingo, 9 de janeiro de 2011

Meu relógio não é à prova d'água

       Tic

            Tac

                 Tic

                      Tac

                            Ping
                     Ping       Ping
              Ping       Ping       Ping
       Ping       Ping       Ping       Ping  
Ping       Ping       Ping       Ping       Ping;

A chuva é mais rápida que o tempo
pos se expande em diagonais.
A chuva rouba o tempo
do relógio do senhor
do almoço da secretária
da pelada em bola de meia.

A chuva para o tempo
um segundo se torna obsoleto;
um segundo somente um
é cachoeira nas lentes de meus olhos.
Um segundo equivale
à queda de cumulus, mundos
talvez também de muros.

A chuva para o tempo
a chuva para o menino
o menino para para a chuva:
"Não há raios nem trovões
só pingos, poças e pés!"

Chover;
            chora e vê
chorar de olhos abertos é crer em mundo
crer no segundo de uma gota
pois se me pinga também sal
e minha lágrima vale instante
é, então, nuvem, muro, muro
talvez menino de língua estendida
bebendo o tempo do mais puro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Incenso Parafina

A fumaça de meu vício
Não tabaco ou baseado
É o clímax do fogo em parafina

Meu fogo, te acendo puro
Quando a luz foge da cidade
Para ver teu breu e sombra
Perspectiva de casa toda
E dos fantasmas que ressurgem
Minha silhueta enegrecida na parede

Meu fogo, tua vela quase explode
A estática de um meio-fio
Enquanto escorre vazio
Toda a viscosidade possível de luz
E meus dedos tocam a caliência de teu plasma

Mas fogo, fogo meu que guardo em bolso
Se tua vela é incendiária
Porque ainda, eu desnuda,
Não fiz-me de ti?
Resistes feito soldado
Eu acarinhando-te com a palma da mão

Senhor fogo, tenha cuidado
Pois estou muito doente
E por isso presa em casa
Espirro, tusso ou algo da estirpe
Um sopro meu te mata em pronto

Cof Cof Atchim Snif
A escuridão se fez plena.
Ó céus, ó céus!
Minha gripe matou fogaréu!

Preciso agora cuidar do velório
E acender muitas velas
Pro meu fogo que morreu
E me deixou por instantes no escuro.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pajarito


À Paula

Há quem confirme feliz
o voo de todos seus amigos
mas meu querido pajarito
tem como habitat o solo

não por falta de quereres
nem descaso ou preguiça;
ainda é época de ninho.

Certo dia em tempestade
de seu berço foi ao chão.
Flor de jabuticaba (que pena!)
deixou de ser sua jardineira.

Sob as gotas grossas grandes,
aos predatórios perigos felinos,
pajarito desespera, e pia pia pia
"Que mamãe me acuda, que papai me salve!"

Mal sabia o pequeno infante
que o quintal onde se achava
era parte de uma casa.

Poderia ser cadeia ou manicômio
poderia ser abrigo de insensíveis
mas, thebaida, lá viviam três mulheres sábias:

uma velha e duas filhas
de coragem, voz, direitos
sempre com curtas madeixas
escrit, estudo e militância.

Bebericavam vendo a chuva
e atentando à proteção da casa
enquanto, sobre mundo, discutiam tese e opinião.

Eis que pajarito se ensopava
seja chuva trovejante
seja saliva dos gatos à espreita
e papai mamãe não sabiam que fazer.

Planando vista com vidraça
o olhar traceja céu ao chão
"Nosso gato tem na boca um passarinho!"

Correm as três em alarde
abrindo espaço entre gotejos
"Gato, largue mão desses desejos;
abra boca antes que seja tarde!"

A bobice do felino somada
à ordem firme das mulheres
fez do predador cair mandíbula:
de lá, tremelicando, saiu em pulos pajarito.

De mãos quentes meio úmidas
acasularam pajarito amedrontado
soltando-o, vívido, dentro da casa.

Com calma, paciência e histeria
descobriram ser filhote
--pouca pena, rabo, bico.

O outro dia amanheceu bonito
feito orquídea em cores quentes
que, sem qualquer aviso prévio
de repente, floresce.

Pai e mãe preocupadinhos
se achegam à janela
iniciam coral: "venha, filho!"

Nisso as sábias, que são sábias
mas não entendem língua de pássaro
focaram vista no olhar do pajarito
e o moleque só encarava janela.

Portas fechadas em casa
o felino no sofá
pajarito esperando os pais
e saltita aqui e acolá (firuli firulá!)

Essa história é tão bonita
que ninguém nem acredita
"Tu és mesmo aflita por mentira!"

Mas eu vi de próprio olho
como pode?, já não sei
"Bicho de bico tem igual expressão todo dia."

Pois vi da ponta nascer lábio
pajarito abrir sorriso
Ao ver planar mamãe-papai
com, em bico, besourinho.

Deu-se início ao hino à vida
mamãe passando ao pajarito
nutriente gosto abrigo

os dois bicos se fundiram
com besouro sendo vértice
currupios ensaudosados
fotografia que guardo em memória.

O mundo das três sábias
num instante era estátua.
(Ninguém sabe mas seus óculos reluziam
Os cem fogos de artifício dos olhos.)

Eis que um dia,
Tão orquídeo quanto aqueles
Das auroras de outrora

o felino achou uma fenda
foi-se ao quintal de faiscância
e lá se deu toda a perfídia.

Pajarito aprendia a voar
a estímulo familiar
mas, ainda em raras penas
saltitava entre mato e primavera.

Eis que o gato pula, ataca
o instinto imperando
orfaniza o pajarito.

Pobre pobre pajarito,
pajarito tão sozinho
covardia pelas sombras
e patas fincadas ao chão.

Pajarito, pajarito,
não te aflijas tanto assim
ainda há casa, sábias, tempo.
És tu pássaro, mas não cuco.

E mesmo fosses tu um cuco
e a portinhola se abrisse para tu voar
haveria mola e tempo para tu te acostumar.

Pajarito, pajarito,
se findou em rapidez
nem deu tempo de chorar.

Pajarito, pajarito
tu que eras um pardal
nem cantou a hora triste
de a corda se acabar.

Hora de portinhola escancarar
pajarito frágil olhar pra fora
ver o tão enorme mundo
e se trancar pra sempre no ponteiro enferrujado.

Pajarito, eu te peço:
salta o tempo e acá rebola
pois por ti as sábias choram.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Parentada

à Maria Fulô, nossa árvore-de-natal-cabide que eu nominei mandacaru

Não sei se é culpa das tais novas tecnologias ou se tal situação é inversamente proporcional ao meu crescimento (neste ano me tornei mais alta que minha mãe, gente!). Talvez também seja pelo estilo meio chita de correr o tempo neste ano tão rápido. Só sei que cada vez mais sobra espaço na casa, que antes lotava durante o natal. Eram bonitos os natáis daqui de casa -- pela noite, a casa inteira virava uma suculenta mijadra (prato árabe típico de vovó) de filhos, primos, tios, avós, tios-avós, primos-tios, filhos-netos, todas essas confusões dignas de novela mexicana e vez em quando até vizinhos tinham presença garantida. Talvez o espaço superlotado se dividisse em três: parentes, comilança e presentes. Hoje em dia, cadê? A criançada cresceu e não ganha mais bicicleta. Nem caixas gigantescas de bonecas medonhas e trilíngues. Nem os envenenados carros de fricção maiores que cabeça de criança. Tudo pequeno (digamos minimalista, que atualmente é um termo que está na moda), a gente ganha celular, dinheiro, emepetrês, livro ou devedê. Acho ótimo, pois meu saldo desse ano foi Walden, A Esperança e ainda posso tomar a liberdade de usufruir d'O Caçador de Pipas, Outra Vez (do Che) e cedês da Elis e do Bosco, tudo presente que parentes mais próximos ganharam. 

A esposa de meu tio tem família no Paraná, e lá foram eles comemorar o natal, levando junto a Maria Júlia e o João, os pequininíssimos que ainda esperavam a chegada de Papai Noel com um saco cheio de presentes, entrando pela porta da sala. Eu mesma vi Papai Noel poucas vezes. O de verdade, digo, pois desde pequena já havia sido alertada por mamãe que Papai Noel de shopping é de mentirinha. Como a família não possuía as tais vestes vermelhas, sempre chegavam com uma história de que "Papai Noel não sabia que o natal ia ser aqui em casa, passou na casa da vovó antes e deixou os presentes lá. Tó o seu!" Esse ano, meu pai, exibicionista como sempre, decidiu esculachar com a imagem do bom velhinho e saiu pela casa se vestindo toscamente com o paletó vermelho e a barba sintética. "Eu enganei todos vocês! O Papai Noel que subiu no telhado da casa da vovó naquele natal era eu!", gritava meu pai em alegrias para mim e todos meus primos. Há quem tenha soltado risos de canto com tal graça, mas um ar de dúvida surgiu no ar. Meu priminho, o mais novo no recinto, ainda tinha esperanças nos presentes pedidos via cartinha, diretamente para o Pólo Norte, entregues direto pelas mãos do velho. Aprendeu as verdades da vida num baque de segundo. 

Há um tempinho atrás, na hora da ceia tão esperada -- pelos adultos por motivos óbvios e pelas crianças porque o fim da ceia era equivalente a abrir presentes --, os mais velhos sentavam-se à toalha florida de comidas rebuscadas enquanto as crianças se acomodavam no sofá, junto à programação comemorativa -- horrenda -- da tevê aberta, ao mesmo tempo em que, estabanadas, derrubavam arrozes e pedaços mal cortados daquelas carnes que ninguém sabe direito o que é. Ontem, com a ajuda de alguns bancos improvisados a mais, não duvido da possibilidade de sentarmos todos juntos à mesa para devorar loucamente a comida quando nem fome sentimos direito, em meio a milhões de assuntos paralelos muito diferentes entre si que, às vezes, se entrelaçam e confundem a mesa inteira. A partir daí, inicia-se outro assunto totalmente outro, e assim vai até a pausa para todos se atentarem à hora da sobremesa. Rabanada, rabanada... Se não fosse a presença de uma amiga de mamãe -- cozinheira por excelência -- não teríamos rabanada!

Poderia agora finalizar a crônica com lamúrias e saudosismos que de nada valeriam. Dizendo que doismiledez teve natal mais melancólico, faltando hipérboles, vovô Ivan, Icleia (viúva do meu finado vô que, espalhafatosa, fazia-se engraçada e extrememente brigável), tio Guto e as crianças (que já contei terem viajado), Tiquinha e Juju que só vem no vintecinco, tio Leo para encrencar com o mundo inteiro e aquele monte de criança pentelha correndo por todos os cantos. Mas acho que está bom assim. Não minto, pois foi também natal de alegrias e presentes emocionantes, aquele ditado dos pequenos frascos que todo mundo já está cansado de saber. Acabo este registro ao mesmo tempo em que, veja só!, o disco da Elis também se acaba -- "Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação". O almoço do dia vinte e cinco (com os restos da fartura de ontem) me espera, com também uma certa parentada. Um beijo, bye bye, até logo e, sempre, "quaquaraquaquá", minha gente!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poesia em parapeito

A prosa desperta, desponta,
Abre a janela,
Narra a poesia e se conta.

Poema se enlaça entre velas
Ou num sol-fevereiro
Se esbanja em camélias;
Poema é a arte dos pacientes.

sábado, 18 de dezembro de 2010

(Sê)rmão

De "se" a "se", não há
Ser humano ou sombra disso
"Se" é hipótese covarde: Sê, isso sim.

Sê teus próprios impropérios
Improvérbios, magistérios internos
Tudo que se seja.

Sê o balcão o amendoim a cerveja
O passo falso decadente
Sê a fraqueza de teu fígado insaciável.

Sê os cílios de tua filha
Vislumbrados com um cão
Que rosna. (e tu nem vês nada)

Sê a luz do poste falho
Vista em óculos de teu amigo ao lado
E te atenta que essa fonte não é luar.

Sê sem roubar dramas alheios
Sê sempre a prática ideológica
De bandeira teórica e própria.

Sê essa chuva rala
Que não-se-vê, não-se-vê
Mas goteja na pele e na ponta do nariz.

Se ordenam que eu me seja
Assim de bom grado serei;
Assim de bom grado sereu.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Personificação

Para o Ive , o meu tal amigo-Poema

Macabéa era estrela
Alice, curiosa
Pedro Bala foi herói
Sierva María, paixão contagiosa;

Capitu tinha olhos singulares
Zarité, o melhor dos gingados
Mr. Hyde era fração humana
E Gregorio, por mutar-se, acusado;

Quincas morreu em primeira página
Tal como a barata de G.H.
E o pai de Pedro Páramo
E o irmão de Holden Caulfield;

Mas quem nasce agora, personagem
E renasce a todo instante
É poema inteiro de coragem
A um amigo, codinome Poema:

Conheci não lembro como
Talvez em páginas mais líricas
De juventude, estudos, mímica
Amizade em tom autônomo;

É um Poema tão galante
De sorriso que se alarga
Com abraço que não tarda
E atravessa o coração-semblante;

Tal Poema é meu amigo
Pois resguarda boa-vontade
Graça, mimo e bondade
Junto à chatice e às besteiras de menino;

Meu Poema que é tão moço
Tem bigode de penugem
Mal cresceu, é cor ferrugem
Aparenta ser esboço;

É Poema bem mineiro
Que até fala com sotaque
E se pega em xeque-mate
Em discussões sem argumento;

É Poema-personagem
É poesia literária musicada
Em cada verso de seus risos e entoadas
Antologia de amizade e molecagem.

(Leio, e leio para conhecer pessoas
Dançar toda nossa humanidade
Transmutar meus amigos em pássaro que voa
Que é pra não me morrer de saudade.)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Camaleônico


"Com desperdício de cores
Selo o fim dos meus amores"
(Thiago de Mello)

I
Sob o sol meu olho é verde
Em dilúvio ele se azula
Ao te ver ele se perde

Cai a tarde, vira anil
Em milímetros de poente
É um carmim que ninguém viu

Em invernos é magenta
Aos holofotes, encastanha
A teus trejeitos se atenta

Em casa de vó é pura turquesa
Pelo trânsito se acinzenta
Se te mira, és tu minha presa

Com abajur é todo preto
Em luar-pérola, cor de mel
De olho fechado eu te vejo.

II
A insensatez ainda é oblíqua
Pois a miopia impera:
O que o olho mira em mim não fica

Basta!, tanta ladainha me horripila
Meus próprios olhos eu não vejo
Prefiro enxergar mundo, tua íris e pupila.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Assassinato de pequenas causas



A: Você viu a vítima?
A: Veio lá da vastidão
A: Vagueando entre veludos!

B: Era velho, vil ou vândalo?
B: Quem o viu, o vigilante?
B: Vim aqui ver os vestígios!

A: Verdureiro venerado,
A: Dos cultivos vitalícios.
A: Prova viva é o vigário!

B: Quem seria vil à vida
B: De um varão tão bem visto?
B: Evoque já as viaturas!

A: O que viram é duvidoso
A: Se verdade, é uma vergonha...
A: Quem o vela é a viúva.

B: Verbalize tal vacilo
B: E veloz virá a verdade.
B: Quando vem a ser o velório?

A: Violaram-no em veneno
A: Varejando sua cabeça
A: Contra as vozes da varanda.

B: A viravolta já me veio
B: Não vazou-me quem foi o violento
B: Cuja várzea varreremos.

A: Quem vingou com valentia
A: O vaso de verdugos esverdeados
A: Sem vacilos ou vexames foi...

B: Vocifere tua voz, sem vetos a cada verbo!
B: A vilania ainda é vindoura
B: E viajaremos de véspera ao velório!

A: Quem soltou o sangue violáceo
A: Em vitupério e violência
A: Foi uma invejosa violeta
A: Da varanda vergastada. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Carta ao meu verdadeiro lar


"Está escurecendo. Tenho que voltar pras minhas terras, tenho que encontrar minha bella casinha. Mas como faço pra levar todas essas bugigangas que deixei aqui? São também fração de mim. Aceita-me como todos esses meus apêndices? Estou voltando, mas não tenho como bater à porta porque minhas mãos estão ocupadas com essas minhas tralhas. Abra-se pra mim? Semana passada o calor imperava, aposto que você sentiu também. Quase rapávamos careca de tanta quentura na cachola. O ar mantinha-se fresco, dançando entre moléculas. Nós pulando, nós em bellas gargalhadas, os pés sentindo a areia úmida à beira do mar. Ah, Mar, és também meu lar! Teus rebolados me instigam os caminhos... pra ti me vou, mas em ti serei nômade: aqui tenho meus álbuns de fotografia e minha casinha que tanto me bem-guarda. 


Pois Recife é também meu lar, mas só o é por ser Vida para minha casa. Minha casinha, a passos ansiosos, me levou até Recife, mesmo com alguns atropelos e pausas no caminho. Foi-se o tempo em que corríamos para tudo quanto é canto do mundo - porque afinal, para crianças, um ou dois centímetros já são gigantes mundos. Agora a gente tem fome. Fome de mundo, fome de dias, fome de êssencia, fome daquele tempero verdadeiro, que não precisa de sal: já se gusta por si só. Mas preciso da minha casinha por perto, pois ela passeia comigo. Às vezes se enraiza, é certo. Mas costuma acompanhar-me. É de muito belleza minha casinha. Toda amarela, com estrelas vermelhas em alguns cantos, meu lar vezenquando se camufla, mas isso é só porque é uma casa no campo. Está ficando escuro e o vento frio se achegando, abre a porta pra mim? Sinto falta de teus ideais, do sofá que guardas para mim, da escarola que me serves à contragosto. Sinto falta de tuas birras, porém mais ainda sinto falta de tuas andanças cantantes, quando acompanho teus caminhos por nossa janela. 


Casinha tão bella, de margaridas em parapeito, e veranesca paixão, só queria de avisar que gosto de, pela nossa janela, olhar o teu andar que se faz nosso, por entre política, gastronomia, cinema e futilidade. Pensa só, Casinha que tanto amo: agora o inverno já foi-se, por enquanto é tempo de Sol, Saias Rodadas, Dilma, Olinda - Tu Tão Linda. E se ainda não for tal época, se atranquila, a nossa estação há de chegar logo. Pois verão é tempo de janelas abertas, portas destrancadas, passeios na praça, pipoca e sorvete. Tempo de férias, tempo de comemorar novos anos em viagem (essa tal viagem de sempre que, pode parecer ingenuidade, mas tem pezinhos andarilhos por entre tantos mares, tantas ervas-daninhas. Por entre tanta orquídea, por entre o cão risonho da maior negritude que acompanha o passo do tal "eu e você-minha-amiga"). Temporada de Casa no Campo. Onde, como já diz Elis, eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. Isabella, obrigada por me abrigar sempre, por ser assim "a certeza dos amigos do peito e nada mais". As margaridas que me perdoem, mas minha Casa no Campo é recheada de mandacarus. Talvez eu tenha sumido em algumas estações, mas o inverno e o outono são sempre um pouco mais complicados, e acho que você partilha da mesma opinião. Acho que preciso visitar mais - muito mais! - minha Casa no Campo, tão linda e charmosa que ela é! Obrigada por tudo e feliz aniversário." 


(12/11/2010)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resina

Violino, tal qual meu amor
Talvez com traços violetas
Ante aquele verniz-madeira

Violino assim rasgado
Uma nota, som afinado
Nos fiapos dó-ré-mi

Violino, vi-o-lindo
E sofro em curvas de agudeza
Cordas apertadas que se ecoam só para si

Violino, artefato esconderijo
Cujo arco sinestésico
Toca o corpo e incita voz

Violino, quatro cordas
Quarto e vozes em sussurros
Vinho e tato em solidão

Violino, tão sofrido
Violino resguardado
A cabeça sua voluta, aguardando mil volúpias

Violino é meu amor
Que se faz em fricção
Em meus sonhos, utopia da mais pura ficção

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pedras


 - Qual será a de hoje?
 - Blowin' in the Wind.

E nenhuma palavra mais. Roger começou sua cantoria junto ao inseparável violão vermelho enquanto a tal moça escutava de olhos atentos às unhas sujas que se movimentavam em piscares pelas cordas e casas. A princípio era uma relação um tanto quanto bizarra: A moça caminhava pela grande avenida de metrôs, cinemas e bancas de jornal, enquanto Roger conversava com um senhor pedinte de pernas amputadas. De um salto, esqueceu-se do velho deficiente físico e, inflando o peito fraco com o máximo de garbo, apresentou-se:

 - Roger, O Músico De Rua. Prazer!

Ela, em gestos bruscos de quem fora pega desprecavida, soltava monossílabos avulsos, porém cabíveis. (Monossílabos, por mais que sem grandezas, guardam as maiores profundidades do ser humano. Resta a cada um escolher se o seu guardar é mostrado ou omitido.) Roger, O Músico De Rua, perguntava em insistência frenética que música a moça gostaria de ouvir – qual, qual, qual - deixando claro que pedia por ouvidos e não moedas. Em (como sempre) atrapalhada tentativa de mistério, a confusa moça deixou à escolha do homem. Ele que descubra, se é tão músico assim como diz. Sem meias palavras, fugiram da caixa do violão alguns acordes conhecidos, start spreading the news, I'm leaving today, I want to be a part of it, New York, New York. Observando os dentes daquela criatura, cada um com um ângulo diferente (imagine só: um mapa de senos e cossenos, diversos círculos trigonométricos, nesta boca infeliz!), seu pensamentos se voltaram à voz do homem que já beirava uns trinta anos. 


Pois não é que a moça, diante de Roger O Músico De Rua, o lendário desconhecido, o conhecedor de mundos cuja São Paulo não faz a menor ideia de quem seja, este mesmo; diante dele, a moça de cabelos sujos pelos ventos poluídos ouvia a apresentação única e exclusiva de Dylan cantando Sinatra. Roger O Músico De Rua não é algo tão distante de Bob Dylan O Músico De Vagões De Trem. A moça, em auge de miçangas e juventudes, foi-se embora antes que Roger começasse a já proposta segunda e última música do primeiro dia – mal sabiam dos próximos que viriam -, não sem antes bater palminhas com uma mescla de satisfação, simpatia e descompasso (descompasso este oposto às sabedorias musicais de Roger mas proporcional aos trilhos tortos de seus dentes amarelados.)

 - Obrigado pelo carinho e pela atenção. Nos vemos dias desses pelos aquis. - ele concluiu em ares joviais de certos pingos de rebeldia, as fuças aprumadas para sorrisos retribuíveis, transparecendo companheirismos. Ela, em passos largos de interrogações, absorta em entender a bizarrice dos ares que a mantiveram em sincronia amiga a um músico de rua de voz nasalada totalmente perdido no tempo.

Pois em outros dias de andanças e divagações se cruzaram novamente e ela, sem pestanejar, exigiu The Hurricane, cujos palpitares ecoaram ao mesmo tempo que seus conflitos internos da época, essas tais besteiras que importam, cujos mares não cabe a mim navegar. Dylan esteve novamente encarnado ao seu lado. Aplausos; sílabas; adeus; adeus não, eu diria até logo; se é assim, então até; sorrisos solitários de memória recente. Se encontravam pela hora do almoço (eles que nunca tinham hora certa para refeições), e a moça um tanto quanto sensata (talvez até um pouco demais) nunca permitira que Roger se ecoasse por mais de uma canção, em recuos e semáforos de anseio. 


Agora, frente a um pedido que conhecia e esperava, Roger O Músico De Rua, o bom, o ídolo único, o cara estranho, este mesmo; ele errara as notas, errara a letra, a tal resposta ficou pairando no vento sujo da cidade podre e ele não tentara tocar, não levantara um dedo para acalmar as trilhardárias perguntas da tal moça. Não, Roger Músico de Rua, um beijo aproveitador não ajudaria; esqueça. Tentara abandonar a canção e trocá-la por um Raul qualquer, sem ver que este não fazia jus àquela específica calçada movimentada onde estavam os dois sentados, intocáveis. Roger, para você não há como caçar respostas porque não perguntas nada. Agora nesta tentativa afobada, adivinhara errado o som que me cabe, e assim vemos que nossas desatinadas afinidades são bastante desafinadas. Ainda se sua saída fosse “don't think twice, it's all right”, ou qualquer merda do gênero. Mas não viste nada, assim com o olhos encovardados atrás de opacos óculos. Fácil olhar nos olhos dos outros quando eles não podem chegar aos teus. Pois eu mesma não acredito nem nunca acreditei em adivinhações. O que há não é nem sintonia; é, isso sim, sincronia. Diante tantas monodiscursos escuros mentais, a moça de nome desconhecido e desnecessário joga os cabelos como um lençol vermelho no varal e adeus:

- The times, they are a-changin. Sei bem, sei sempre a todo instante dessa avenida em pisca-pisca. Porém... it's all over now, Baby Blue.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mofo

Eu acá em lábios rachados
E tu aqui em bico de papagaio
Eu acá feito espantalho
Entre intempéries e merda de pássaro
E tu aqui cantando Rosa ao vácuo
Ao meu vácuo, meu pacto com o diabo
Esse diabo que tem a mim como bastardo


Eu morrendo-me em som de bolero e fado
E tua vitrola sendo samba, festa, chocalho
Este chocalho teu de sementes, penas, gingado
Tuas penas atentas de todo meu estrago


Este trevo teu, quatro folhas mais orvalho
E eu, irresponsável, a fincar dedos em cacto
Do cacto, o fato:
Teu otimismo é um saco.