terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A pistola


Podia ver o céu, podia ver a terra, e os montes, os telhados, as árvores, os grãos: não tinha explicação. Tudo começou com um nó na garganta que se desatou no molhar de olhos. Era uma gota graúda, brilhosa, mal cabia no peito. Nos cílios também não cabia, pois aos poucos desabou das pálpebras, direto para a pele fina onde se concentram as olheiras. Matias mal as tinha, por ser demais criança, mas aquela noite sem dormir deu à sua face redonda o máximo dos ares adultos que poda a sua vã anatomia. Ali, naquelas bolsinhas de pele e insônia, deitou-se a lágrima e, por questão de segundos, recuou no sentido inavançável – lá ficou, parada como quem espera no sinal vermelho. Depois deu um salto e transcorreu todos os poros quentes das maçãs morenas de Matias, num ângulo de trinta graus ao lado esquerdo quando se aproximou das concavidades infantis daquela bochecha. A lágrima permaneceu intacta. O tempo todo. Passou pelo rosto como se dançasse em pedra polida, ou se sua tensão superficial estivesse acima do padrão e não permitisse que aquele choro se esparramasse. Quando chegou à boca, sentiu a pele fina e os lábios tão pequenos, da grossura de uma linha, demorou-se mais em seu caminho e, por fim, acabou por perder-se nos limiares e entrou na pequena boca. Era uma lágrima aguada, acuada, mal tinha sal. Tocou as gengivas e sentiu o sangue das escovas de dentes mal utilizadas.

O mesmo se repetiu todos os anos ou quase, mas aquela, aos oito, foi a primeira vez, e também o motivo para todas as outras vezes. Era dia de natal. Matias corria para todos os cantos levando cadeiras, guardanapos e colheres para ajudar nos preparativos da festa. A família era grande, enorme na verdade, com um verdadeiro bananal de primos e tios. Lembrava pouco do ano anterior mas, em compensação e por malgrados, sabia de cor o decorrer de uma semana específica.

Eles nem, nesta data, estavam ainda preparados, e a campainha ressoou por detrás da cozinha. Era o tio mais velho, com a esposa por detrás, escondida em timidez. O tio mais velho sempre fora assim, motivo inclusive de chateação: sempre perfeito e de método; sempre o primeiro a chegar. Quando pequeno, corria direto ao ouvir a mãe chamando para o almoço. Chegava primeiro e fazia questão de escolher o lugar, sempre revezando entre canto esquerdo da frente e canto esquerdo de trás. Desta vez, portanto, não seria diferente, e já esperava na porta. Matias levou seus pés até o porta-chaves e, em seguida, ao portão, tudo com passos pesados, cavalares. No fundo, bem no fundo, achava o tio um pé no saco. Para quê ser certo o tempo inteiro? Acabava por demonstrar-se sempre inconveniente. Na família, se marcavam seis horas, é porque o horário de chegar mesmo seria seis e meia, sete horas, algo assim, e não seis horas em ponto. O pai de Matias, cada vez mais, botava fôlego em suas pressas a cada atraso. Bufaria, não fossem as normas de etiqueta, uma bufada de cansaço e raiva, ambos em uma mistura forte, bem no rosto barbado do tio. Em compensação:
- Olá, quanto tempo!
- Quanto tempo digo eu... você some, Agenor, até parece que nem sente falta de nós!
- É que está tudo muito difícil, você sabe. Quando tudo se ajeitar, o tempo vai render.
- Ah, eu entendo, Agenor.

Não entendia coisa nenhuma. Sua perfeição chateante impedia qualquer desvio do padrão de vida. Não fazia a mínima ideia do que estava muito difícil. Estava tudo muito difícil desde o ano de antes, da véspera, em que tudo mudou para pior. O tio voltou à sala, onde a esposa guardava um lugar no sofá, em frente à tevê aberta e seus filmes de papais noéis. Matias montava a mesa como se fosse um quebra-cabeça, detalhe por detalhe, como fazia ano a ano. Quando menor, saía tudo meio torto, e precisava vir a avó rearrumar cada talher, deixar a mesa inteira nos trinques. Então já era grandinho e podia fazer sozinho tal tarefa. Fazia com gosto, provando-se: não era uma arrumação qualquer de mesa, ainda que de almoços de domingo. Era mais. Era natal, a data mais importante para crianças depois de seus próprios aniversários. O segundo dia de casa cheia depois de apagar velas e cortar bolo recheado.

Matias até que estava feliz, mas nem tanto. Mudara muito no decorrer do último ano. Em trezentos dias para menos, havia assumido mais que tarefas: denunciou a si mesmo cada um de seus sentimentos, em um processo difícil, que machuca, rala, coagula. Foi assim que cresceu, não que seja esta a única forma de crescer, com tristezas e baques. Existe tempo feliz, bem como existe ar e terra e existe cada peça de porcelana da mesa de natal. Não podia dizer que existe pai, ou avó, ou tio. Esses todos acabam. E junto acabam os abraços e os colos, acabam os filmes no fim da tarde. Às vezes, sem nem querer, voava em sua cabeça novamente a imagem da morte de sua mãe. Esquisito para uma criança ver assim a morte. É a idade em que se cresce vários centímetros por mês, é preciso trocar sapatos e o tempo passa rápido. Mas de quê importa o tempo? É a idade em que não se imagina ficando velho, sequer adulto. Como se pairasse.

Um ano atrás, Matias já ia à escola e ia bem, por sinal. Tirava boas notas e muitas dúvidas em sala de aula. Consolidara um trio de meninos que brincavam sempre juntos, todos morando em ruas paralelas: Matias na Rua dos Rojões, André na Rua Ibisco e Márcio na Doutor Paulo. Conforme suas pernas finas se firmassem no chão – e cada vez mais se esforçassem no futebol – ambos passaram a voltar para casa em conjunto, falando sem parar sobre desenhos, jogos e atividades em sala. O pai de Márcio trabalhava durante a noite e, com sua disponibilidade de tempo, era o responsável por esperá-los no portão da escola. Geralmente demorava a chegar, para mais ou para menos, quinze minutos depois da aula, o tempo de os meninos brincarem mais um pouco. Brincar, naquela idade, parecia ser a coisa mais saudável de se fazer, mais importante ainda que as aulas básicas. Era o que os fazia correr, falar, soltar risadarias e entender o que é criar laços. Em casa já sabiam bem, não com essa palavra propriamente dita, mas com as horas de paz familiar. Assim, era rumo a suas casas que iam, os quatro, andando. Não era muito longe, bastavam quinze minutos. A primeira casa era a de André. Depois deixavam Matias em casa e voltavam um pouco o caminho até a do Márcio.

Matias tocou a campainha. A mãe sempre aparecia na janela e, depois, destrancava o portão. Do lado de fora podia ver as luzes do quarto acesas: havia gente em casa. Tocou a campainha mais uma vez. Ela poderia não ter ouvido somente; mais um toque e apareceria na janela. Olhou para trás, em um giro brusco de pescoço, mas Márcio e seu pai, de mãos semi-dadas, já haviam sumido na dobra da esquina, em exatos noventa graus. À sua frente, Dona Maria estava sentada como todas as tardes. Pois Dona Maria era uma senhora de muita idade e, paralelamente, muita doença. Gostava de criança e fazia gracejos a Matias desde que passou a morar na casa em frente à dele, falando coisas vez ou outra ininteligíveis aos ouvidos pouco treinados do pequeno menino. Um dia, sumiu e parou de aparecer no portão para olhar a rua. A doença se agravara, não podia mais passear ou carregar peso; e, de qualquer evento que fosse, por advento, se esquecia. Ficava mal por esquecer-se, a Dona Maria, em uma espécie de vergonha, como se, depois de tantos anos de vivências, se tornasse uma criatura irresponsável. Por isso sumiu, e assim ficou por alguns cinco meses, até que reapareceu detrás do novo portão – construído especialmente para ela, que não o queria e nem imaginava ser o motivo detal instalação. Estava como sempre bem sentada em seu banco de madeira, sem encosto nem almofada, mas desta vez não praticava seu crochê e tinha ao seu lado uma cuidadora muito nova, de cabelos esparsos, que podia muito bem ser sua neta, mas obviamente não era. Não havia nenhum traço comum entre elas, ainda por cima após todo este tempo de envelhecimento pelo qual sofreu Dona Maria. Era a primeira vez que reaparecia, com o fim do inverno, mas não podia ajudar em nada. Matias, de longe, balançou a mão em largo aceno, mas já sabia: ela não podia ajudar em nada. Não podia ajudar em nada porque não podia sequer ajudar a si mesma – sua cuidadora já se encarregava desta missão.

Tocou mais uma vez a campainha, a última vez antes que desistisse. Arregaçou as orelhas para ouvir o soar agitado que tilintaria direto da cozinha. E não tinha problema nenhum, fizera o mesmo barulho de todos os dias. Cecília devia ter ido ao mercado, ou ao banco, a mãe devia ter feito isso mesmo, era só para isso que saía. Ou então estava debaixo do chuveiro, logo ela que gostava de cantar durante o banho, e só durante o banho porque no resto do tempo sentia uma vergonha absurda do esposo, do filho, da mãe. Se cantasse não teria ouvido suficiente para atentar-se à campainha. Em dez minutos sairia do vapor quente que envolvia as janelas fechadas do banheiro e abriria a porta. Foi sentar-se a única opção plausível para o meninote Matias, ao lado da lancheira vazia que aplaudia à sua fome de almoço. Já o medo o envolvia como uma toalha encharcada. E pingava cada vez mais água gelada sobre suas pernas que nunca antes haviam passado por nada como aquilo. As mesmas luzes seguiam acesas, enquanto Dona Maria continuava sentada ao lado de sua cuidadora. Assim ficariam as duas até mais tarde, imaginava Matias com conforto. Elas eram um mínimo de segurança a quem nunca esteve sozinho, completamente sozinho, no mundo dos asfaltos. A cuidadora levantou-se sem pressa – do que poderia ter pressa, se levava uma vida de idosa? – e para matias, que via tudo com muito mais grandeza do que meus olhos crescidos, ela já era muito adulta, de seios saltados e cabelos amarrados. Mas bonita não havia de ser, nem para mim, que tenho a vista viciada pelo que os homens dizem ser belo, nem para Matias, que era criança e não tinha razão para ver beleza ou teor estético em qualquer gente maior. Ela estendeu o braço, e era fino o braço, para Dona Maria fazer força e levantar-se. Saíram juntas rumo à porta da sala, um passo, outro passo, mais um passo, com calma. Fecharam a porta. Do lado de dentro, sobre os tacos apodrecidos e úmidos pelas recentes chuvas, a rua inteira – era pequena – podia ouvir os passos mancos de Dona Maria, que mal se podia em pé.

Algum tempo se passou quando o Ford cinza do pai de Matias apareceu na esquina. Duas buzinadas breves se seguiram à pergunta.
– O que diabos você faz aqui fora, menino?
– Mamãe não me abre a porta.
– Que é que você aprontou?
– Mas não fiz nada! Ela sumiu, não apareceu nem na janela.

O pai já xingava. Como podia ela ser tão irresponsável? Sair sem avisá-lo? E, ainda por cima, deixando as luzes da sala acesa? Questionava a si mesmo e estava, acima de tudo, pocesso. Caçou o molho de chaves na mala e abriu o portão de zinco. O portão era horrível, mas com ele pensava se proteger das maldades do mundo. Mal sabia ele o tanto que fazia dentro de sua própria casa. Matias saiu a correr até a porta da sala, chacoalhando sua lancheira, o estômago a rugir de fome. Sentia uma mescla de alegria por entrar em casa, junto à chateação de ver o pai irritadiço com a mãe. Na certa, já sabia, haveria choro durante a noite. E hematomas escondidos sob as roupas.

Girou a maçaneta com força e fulgor, com um tanto até de amor, e gritava pela mãe aos ventos (que não existiam porque o dia estava mais abafado que nunca), e chamava. Poderia estar cochilando. O braço empurrou com força a porta enquanto o pai fechava o portão. Matias era tão pequeno, não tinha porque ver uma coisa dessas. Seus olhos se arregalaram e o espanto foi tanto que deu meia volta e agarrou-se às pernas do pai, com uma força que ninguém sabia que tinha. Nem ele mesmo. A visão da mãe morta, estatelada no chão, não lhe saía da cabeça, e gritava. Agenor correu, deixando Matias sozinho junto ao portão, e parou no limiar da porta. Por um instante ficou atônito, aturdido, e não sabia quê fazer. Em seguida, chorou absurdamente, gritando e aos prantos. Tomou o filho nos braços com um abraço envolvido, e lembrança de algo semelhante a isto não havia na memória. Esperneavam juntos, bem como juntos caíram ao chão a olhar com olhos fixos o declínio da Cecília, boa mãe e boa esposa, que se suicidara com a pistola da gaveta do marido. Agenor lembrou-se que era pai, e de súbito ergueu-se junto ao filho e saiu pelo portão. Tocou a campainha de Dona Maria e quem abriu foi a cuidadora.
– Preciso que cuide. Moro na casa da frente, e é muito urgente. Cuide que coma alguma coisa, qualquer coisa, e volto aí em duas horas. Obrigado, obrigado mesmo.

Matias, na casa de Dona Maria, chorava mais do que seu organismo podia. Ela o olhava, sorria, tentava levantar e a cuidadora dizia que não, que dissesse o que queria, e Dona Maria: “aqueles biscoitos de mel para o menininho.” Ele tentou voltar para casa, mas era impossível. Não havia ninguém que passasse pelas grades daquele portão. Enquanto isso, Agenor ligava a polícia, jogado sobre o sangue já viscoso de Cecília Sua Esposa, espiando de tudo a procura de resquícios. Não havia bilhetes, sequer erros de cotidiano. A feira havia sido feita, o almoço esfriara nas panelas, e ela estendida, estendida e vermelha, estorvando a rotina da casa.

A partir deste dia, Matias passou a visitar a avó muito mais vezes do que no passado, primeiro por não ter com quem estar quanto a ausência do pai impera, e segundo para amaciar a tristeza da avó, que a partir da lastimosa data, nunca mais trocou palavras com Agenor. Via nele a culpa de tudo, a pressão e a regra, de onde veio o suicídio como exceção. Voltaram a trocar palavras somente naquele natal, o primeiro depois de tudo, e o fizeram não por si, mas por Matias. Era o primeiro natal sem Cecília, a mãe, a filha e esposa. Ela fazia de um tudo para o dia, embrenhada o dia inteiro na cozinha. Provável é, na verdade, que odiasse tudo isso, mas nunca disse nada a ninguém porque, se pudesse, teria vergonha até de falar. Os outros convidados chegavam, todos de parte paterna, e Matias abria a porta a todos. O andar de baixo da casa se amontoava de pessoas, mas sequer Matias tinha primos que o entretesse. Juntou-se à avó e com ela, sem perceber, iniciou seu estado de braveza ante todos aqueles que mal se importavam. Ficaram um ao lado do outro, calados, como Dona Maria e sua cuidadeira, porém, desta vez, ambos se cuidando.

A hora da ceia se aproximava quando aquele primeiro tio a chegar levantou-se do sofá e, desatento, esbarrou na estante de madeira escura que, sem chamar muito as vistas, acolhia um vaso bonito, em cintilâncias de amarelo. O cotovelo malcriado passou violento e o vaso, na mais limpa porcelana, caiu como as lágrimas de Matias. No chão, esparramada, estava Cecília, nos minúsculos pedaços de cinzas que eram o único que havia sobrado dela. O pequeno Matias, num pulo, agarrou o tio pelas pernas e o derrubou ao chão. Subiu correndo as escadas e chorou seu choro agudo até o resto da noite. A avó, com pá e vassoura, juntou o que pode em um canto da sala, mas já estava tudo destruído. As poeiras da multidão se uniram em grandes flocos às cinzas; aquilo não era mais nada de Cecília. Montou ao neto um prato com todas as comidas que ele gostava e subiu vagarosa, em passos de muita idade. Chorou junto, encostada sobre seus baixos ombros. Enquanto isso, o andar de baixo não hesitava em fazer barulho e rir, rir muito, como se fosse de propósito. Agenor entrou no quarto muito quieto para dar um beijo no filho, mas não se demorou muito. Assim que desceu, Matias em seu quarto pôde ouvir o riso grosso e largo de seu pai. Por dentro de si, junto ao que lhe sobrava do coração de criança, sentia que a mãe não merecia tudo aquilo. Não, ela não merecia nada daquilo, e então se pôs novamente a chorar até dormir de cansaço. No dia seguinte, uniu-se à avó no ato simbólico de nunca mais falar com o pai, e assim o fez até o próximo natal, quando chorou, de novo, a noite inteira, como se a cada instante visse novamente a mãe morta pelas próprias mãos e pela pistola assassina do pai.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O outro vestido


provei um vestido de seda
com cheiro de amêndoas
e dele vesti-me
em seus tons de azul
como se me fosse a própria pele
e os ares fossem meus
(quem dera!)

eu que sou moça fuleira
nunca havia feito dessas
de vestir roupa de festa
e olhar
fundo
nos olhos do espelho
onde o direito é o esquerdo
onde assim vai, aos reflexos
e se esvai

bem como aprovei
a trama daquele tecido
desprovei, tirei, dobrei de volta
não porque seja fuleira
mas porque veio a lembrança
de tudo que gosto na vida

vestido bom é aquele
que escreveu Carlos Drummond
com a roupa de escritor
feita sob medida
para sua humana assimetria
que transforma
até mesmo
assinatura
em poesia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O futuro em mãos


quando eu fizer uma filha
- e espero que não seja agora -
decidi: terá nome de flor.

De resto
não sei nada:
qual o gene resultante
ou a cor de seus cabelos

só sei que deixarei
regar e remar
mexer em minhocas
e ter namoradas

cuidarei
que desabroche sem estupros
para que seja a flor que plantei
quando escolhi tê-la
a não tê-la

quando deixei:
cresça.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Longe demais


meu avô usava óculos
bem como minha avó
e minha mãe e meu pai
e minhas tias e eu.

Na minha casa todo mundo é míope
até a cachorra
que sorri de olhos miúdos
e late, late, late
mas não uiva:
ela não consegue ver a lua.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pensamento novo


que a poesia parou eu já sei
desde a semana passada
quando joguei palavras ao léu
e tudo ficou feio.

Quisera eu
saber trabalhar a poesia
montar vigas, veias e idades
estruturas de sintaxe
cortes, rebusques, simplezas
rimas – que não sejam aquelas
que todos já sabem por adivinhação.

Assim tem sido:
a poesia trancada com chaves
e poucos guardando o segredo.

Melhor de tudo
(ação direta e transmutável)
é pegar os manejos
dos grampos de cabelo
para abrir qualquer porta
ou código de cadeado.

Quero que a poesia volte
mas a quero clandestina;

clandestina e forte.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sinal aberto

(s)ó
(s)e
(s)em
semáforo:

d e s a f o r o
d e s a b a f o
a fora
alforria
euforia
eu

fúria / folia
folha vazia

e a poesia na ponta da língua.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Procura-se Frederico


_____Quando a gente começou a se falar, Marco era um homem lúcido, repleto de coerências. Tínhamos eu e ele uma diferença bruta de idade, como se aos gritos, e mesmo assim nos falávamos uma vez ao dia, por volta das duas da tarde, que era depois do almoço e depois da sesta dele. No começo, o assunto era amplo e atento, eu sempre botando as vistas no jeito com que Marco lidava com a vida.
_____Ele chegava e se movia como se seu corpo estivesse almofadado com plumas de sofá, e falava manso olhando sempre para a luminária de alumínio no canto da minha pequena sala – ou isso ou era outra coisa que olhava, porém com igual desimportância. A impressão que sempre tive foi a de que o velho Marco até gostava de mim, só que aos poucos, e torto. Em todas as conversas que fizemos, falamos a respeito de hojes e ontens, muitos ontens: ontens de guerras e presidentes, ontens de televisão e cinema, ontens de cabelo, comida, trabalho. Marco, velho, vira passar quase todo o antigo século, o já ido. Mas eu, em contaponto, não tinha como saber se não confiava em mim o bastante para causos mais íntimos – logo ele que mal tinha amigos –, ou se era àquela porção de histórias que se resumia sua vida. Pelo sim, pelo não, preferi não arriscar.
_____Àquela época eu estava desempregado e, como não fosse pouco, também desencontrado, dizimando a mim mesmo por nada. O dinheiro que sobrava do último batente deixou que, por algumas semanas, eu me desse ao luxo de acordar tarde e gastar meu tempo fazendo feijão e couve. Regando as plantas. Limpando janelas limpas. Por isso, as idas e vindas de Marco me eram boas pelo seu tom teórico de me impedir a loucura – pois para ser louco é preciso ter tempo. Eu, desempregado, tinha todas as tardes do mundo para ouvir Marco, ainda que por alguns dias. O bom dele, de seu modo pouco sociável, é que mal se importava se me atrapalhava ou não: chegava porque queria, saía porque queria, mas isso só quando atingimos um estágio mais radical de amizade, que é aquele de se ver todos os dias. Porque, das duas uma, sobre tudo o que penso: ou tive uma vida chata por demais, ou são os outros que inventam detalhes para acrescentar em suas rotinas regadas de tédio. De vez em quando dá para ter um dia genial, coisa-de-louco, desses que se conta tudo no dia seguinte, e isso só de vez em quando. Mas Marco não, Marco era velho e vivido, Marco falava todo dia e, quando já não tinha mais o que falar, repetia algum passado.
_____Eu, que sou mais novo, sempre tive uma vida craseada, desde menino. Acentuava-me aos poucos, de vez em quando, e sempre com dúvidas. Aos oito, ganhei um cão e perdi uma avó. Eram esses os tipos de crase que permeavam meus parágrafos, até que arranjei uma namorada de sobrancelhas finas e olhos largos. Grande coisa: acabou sendo só mais uma fase – ou crase – até mesmo um travessão, que durou três meses e se acabou sem prantos. Hoje, não é que estou triste, não é que acabei. Mas vejo a vida de Marco todos os dias, às vespertinas horas, e me torno contrapontos. Como se tudo o que passei virasse um poema do Mario Quintana, lotado de reticências e com eterno sem-fim.
_____Já ontem, Marco me mostrou uma foto três por quatro de quando beirava os vinte anos, já há mais de meia década. Não era um rapaz exatamente bonito, e na verdade nem um pouco bonito. Tinha um rosto sério e medroso, típico de timidez tamanha que impeça até o cantar durante o banho. Era o rosto de um jovem centrado e, como já dito, repleto de coerências.
_____Levantei os olhos e Marco chorava. Se empapava na mudez das lágrimas e olhava para a ponta de meu nariz (não para mim). Eu ainda não havia percebido, mas desde que acabou-se o ano passado Marco anda distraído, com cara de luar. Ainda assim, apesar de um pouco louco, tentava contar histórias sempre que chegava em minha casa. Ontem, porém, quando vendo a fotografia, não estávamos em meu sofá, na minha sala de estar, mirando meu abajur de alumínio. Estávamos na casa de Marco, uma casa chata e, ao extremo, sem graça. Ele sumira por dois dias, por isso lá fui eu saber que diabos lhe havia acontecido. Vestia pijamas quando eu cheguei, e falava pouco, pouco. Até hoje não sei porque não me contou. A única coisa que sei é que saí para botar o lixo para fora e vi uma crosta de cartazes sobre todos os postes da rua.
_____Frederico sumiu.
_____Frederico era um gato marrom, já com feição de velho, e Marco nunca havia me contado sobre nenhum gato, bem como nenhum romance, nenhuma demonstração de vida – assim como eu. Quando cheguei em visita, choramos juntos, antes até das fotografias. Ele pelo gato, eu por ele, pelo gato e, egoísta confesso, por mim. Não trocamos mais palavras e eu nem quero mais vê-lo.O mês é de chuvas, todos os dias, por muitos milímetros. Chove o dia inteiro e, como que por mágica, os cartazes continuam nos postes, intactos. Como que de propósito, Frederico me encara sempre que saio ao mercado.
_____Desculpa, Marco. Um gato marrom apareceu em meu quintal durante a madrugada. Eu matei, e sinto muito, matei porque tenho tempo livre e sou louco; matei em segredo que nunca contarei. Eu sou um idiota. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempos para cá

no começo a gente era bobo
e nem sabia das coisas

hoje a gente é feliz
porque não sabe das coisas

a gente assovia
finge que sabe
e fica sendo feliz
até que o amor (não) acabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Infância sem lirismo

a casa em que nasci
não era casa
era apartamento
na Abílio Soares
não-sei-que-número
nem quais andares

acontece que tenho um problema:
todo poeta que se preze
escreve um poema
à primeira casa

mas eu não sou de casa
sou de apartamento
e só depois fui ser de casa
não tinha hortas nem cabras
nem insetos nem goteira
só escadarias e cimento

tenho um problema ainda maior:
não sou poeta
mas tento.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Imortal


Isso aconteceu. E não somente isso aconteceu como também tenho total e absoluta certeza de que é verdade o acontecido – aconteceu de verdade –, pois o ouvi não de qualquer um, mas da própria, da dita cuja, a que fez ocorrer o referido fato, a Velha Duse, que sem ela nada seria. Não fosse ela a abrir a secura da boca fina para me contar a verdade, tintim por tintim, eu, certeza, não botava fé. Não falaria nisso nem para criticar, que não sou gente de dar ibope para o que não vejo graça. O caso foi sério, seríssimo, e daria muito o que falar não fosse o jeito quieto de Duse, que não fez alarde.

Antes que me chamem de mal-educado, já deixo claro que estava a conversar com a velha senhora, cheio de bons tratamentos, e quem me falou para retirar o “Dona” da frente do sujeito, manter o nome como é de batismo, foi ela mesmo, foi Duse, ou Dona Duse para aqueles que ainda pensam que não tenho respeito pelos mais idosos.

Quando soube do caso, tentei recobrar a memória para ver se lembrava de ter ouvido algo. Afinal, Duse mora na casa ao lado da minha, e por consequência nos vemos todos os dias ou quase.

Me mudei para aqui em casa, de onde escrevo e olho através da janela, há bem uns cinco anos, e de mim mesmo pouco mudou. Deixei metade do que tinha no lixo, que me parecia tralha demais, e o resto veio comigo, somente o essencial, para a casa nova, dois andares, vazia. Duse, que no começo era só uma vizinha, bateu em minha porta para saber quem eu era. Parecia cordata, bem simpatia, mas imagino que – com razão – a velha estivesse somente querendo saber se eu, que a partir daquele momento dividiria paredes com ela, não seria nada de muito perigoso ou agitador o suficiente para fazê-la acordar de suas sestas ou de seu leve sono noturno. Sei disso tudo, de seus hábitos de descanso, por dois motivos, sendo o primeiro o mais indelicado: ela bem que ronca um pouquinho, coitada. E também porque escolheu sua casa em arquiteturas altamente iluminadas, com janelas por todos os lados, voltadas ao quintal. Do segundo andar de meu sobrado, podia ver todos os seus pontos estratégicos de sono, mas não pensem besteira não: nunca teve uma vezinha sequer que vi ou tentei ver a Dona Duse sem roupas. Não sou calhorda a este ponto, vejam bem. Mas aos poucos, por essas e por outras, passei a conhecer bem aquela senhora, e durante os cinco anos de estadia pude acompanhar cada mudança de tom de seus cabelos, que rapidamente esbranqueceram.

Se eu estivesse em casa, no andar de cima, teria visto. Mas estava em horário de trabalho, e não vi. Perdi a cena. Dona Duse deixou de ser Dona no dia seguinte, quando nos encontramos em frente à minha porta, eu vindo do trabalho tal qual todo dia, ela com o carrinho de feira lotado de alfaces, couves e cenouras. E um pastel na mão, penso que de queijo, a velha não é boba nem nada! Perguntei como ia, ela ia muito bem (ela sempre vai muito bem), alguma novidade?, ah meu filho novidade é o que não falta!, qual é a nova da vez? E ela me contou tudo, até arrumou o carrinho na vertical, parado sozinho, para não gastar os braços segurando o peso todo enquanto me explicava.

A véspera tinha sido um dia de altos e baixos. Duse não gostava de sol, desses sóis fortes que doem os olhos, e também não gostava de chuva. Quando chove a casa fica toda acinzentada, e somado a isso vem aquele barulhinho de pingos atrás de pingo no telhado, ou seja: quando chove Duse dorme o dia inteiro, se sente velha, se sente inválida, desconfortável, como se estivesse em tempos perdidos. E depois não dorme de noite. De onde ia tirar mais sono? No dia anterior o sol havia se aglomerado nos cômodos, de fazer doer até o corpo, para Duse que já tem suas muitas décadas. E também a chuva despencara, brutal, tudo no mesmo dia, durante a manhã. Os gatos que dividiam a casa com ela entraram em situação de alvoroço. Eram três, todos monocromáticos. E nunca que se aquietavam. Quando o sol entrou, correram pelo quintal, entre cada uma das lagartixas. Não se cansavam. Aí veio a chuva, torrencialidade absurda, os gatos correram para dentro, a saltar janelas até invadir o quarto de Duse, que em contraponto encostava cada uma das venesianas em seu esforço idoso de andar pela cada inteira, que aliás era até pequena. Depois, ela se sentou em sua cadeira de balanço e ficou ali, parada, calada, espiando o movimento dos gatos, que iam de um lado para o outro querendo telhados e besouros. Foram poucos os minutos necessários para que dormisse, a cabeça redonda pendendo para uma angulação torta, diagonal.

A chuva cessou de uma vez, tal como seu início, e o dia continuou acinzentado, porém um pouco mais claro. Duse continuou seu sono, imperceptível que estava às coisas do mundo. Sonhava algo com laços de fita, um baile, cães gigantes, um sonho até que feliz para uma senhora que mal saía de casa para diversões. Sonhava e talvez sorrisse (não há certeza sobre isso, pois quem me contou foi a própria, e a própria dormia), dançava com um e com outro cavalheiro, em rodopios, enquanto os cachorros gigantes integravam o corpo organizativo da festa, se faziam de orquestra, de garçons, de mâitres. Mas isso tudo não importa, se sonhou, se não sonhou, o que havia em seus sonhos de idosa. Só que, se sonhava, embarcava em suas histórias e cada vez mais peso botava sobre seu sono. Não chegou a ouvir a maestria dos gatos ao empurrar a persiana da janela do quarto, assim que os ares secaram. Eles, malucos, saltaram e voltaram ao quintal, onde tinham espaço para serem inquietos e diferentes de todos os outros gatos de velhos, que são sempre dorminhocos e parados.

Depois que a chuva parou, como um fim de explosão, a gravidade puxava tudo para baixo, como sempre puxou. Somado a isso, também havia o mal das águas, que escorria e carregava o que encostasse em seu caminho vertical. Frutos caem no chão, folhas, árvores, fiações e telhados baratos estatelaram-se pela cidade. O que acontece com os insetos voadores quando começa a chuva? Sempre tão pequenos, rápidos, conseguem escapar dos diâmetros das gotas? Ou morrem. Quando cai a tempestade, tudo desaba junto, tudo finge que se acaba, menos os sonhos de Duse, que bailava com um milhão de rapazes diferentes. Os gatos pulavam ao redor da árvore que, fragilizada, semantinha ainda consistente e um pouco mais desfolhada. Eram lindos os gatos. Estavam a se morder, não de briga, mas de brincar, quando dos galhos mais altos e finos da árvore caiu um pardal minúsculo, de poucos tempos, encaixotado em seu ninho. Ou somente no que sobrou dele: o emaranhado de galhos e organicidades estava destruído, torto e fraco por completo. Chegava ao ponto de se esfacelar, misturando-se ao corpo pequeno do pardal imobilizado. Fez um barulho mínimo, o som de um quase nada, mas o suficiente para despertar Duse, que levantou em sua rapidez extremamente lenta.

O gato, um deles, num salto abocanhou o bichinho e correu em fuga até o outro lado do quintal. Sua boca era pequena, mal cabia o pardal inteiro; mais um pouco e vomitava. Aguentava firme, mas não sabia o que fazer, como direito fazer. Começou a morder de leve, e o pássaro foi cessando. Não podia se debater por muito tempo, e parou. O gato forçava um dente, forçava outro, forçou todo seu sistema bucal contra o pequeno animal que se derramava sobre sua língua áspera. Ao mesmo tempo, almofadava com as gengivas e o céu da boca ao dorso do pássaro, e quase o cuspiu fora, assim que o sentiu imobilizado. Mas Duse já estava a abrir a porta de seu quarto, sabia que algo acontecia, mas o quê, levava susto fácil e precisava checar o que era. Se Duse visse o bicho cuspido, o gato lambendo, mordendo, arrancando penas e carnes, não sobraria para ninguém, aí é que seria um deus nos acuda e o gato sabia disso, Duse disse que os gatos entendem bastante bem as normas de convivência da casa. Olhava para os lados e não sabia onde esconder seu novo tesouro. Guardou o corpinho defunto dentro da boca e deitou-se na grama, atrás das árvores, como se fosse mais um dos frutos caídos da estação. Como se não tivesse matado o pardal com as pontas dos dentes. Duse percorreu o quintal inteiro e tinha certeza: algo estava errado – fora de sintonia. Olhou para o canto do quintal e lá estava o gato, separado dos outros, que a tudo ignoravam. Ele correu em disparada, aos trupicões, mas foi encurralado perto do portão alto e fechado. Deveria ter aberto a boca antes, largado o bicho morto na terra, soterrado, para ser esquecido e degradado. Mas tempo não tinha mais. Sua boca sangrava de leve, aquele sangue típico de gato que apronta, e vinha direto dos machucados que levou no atrito interno com o bico do pardal. Duse abriu a boca do gato, as mãos também já avermelhadas, escorrendo, e de lá arrancou o filhote antes que levasse uma mordida ou um arranhão, não por mal, mas por falta de opções. Deu meia-volta e o gato ficou ali mesmo, parado, muito bem sentado no chão de ladrilhos. Seus olhos acompanhavam cada passo da senhora que fazia seu máximo para chegar à lavanderia. 

O pássaro, mortinho da silva, se aninhava em suas mãos de grandes nódulos e veias saltadas. Mais parado que ele, não existia nada, edifício algum que ganhasse de sua imobilidade mórbida. Ela o posicionou sobre um tapete velho, na pia da lavanderia, e se transformou em uma pessoa mais serena do que qualquer lenda de deuses. Tocou com as almofadas dos dedos, bem nas pontas, ao peito murcho do pardal. Não se mexia, definitivamente. E guardou o choro para depois, restando somente o escorrer de lágrimas que se expandia sem balbúrdia, com a leveza de quem respira. Apertou o que havia de músculo no bichinho, tocando não em peles ou pedaços, mas sim em pontos-chave, pequenos botões do corpo que se escondiam pelos tecidos e órgãos. O pardal estava morto e o gato não daria as caras por mais uma meia dúzia de horas. Duse seguiu, chegou perto do peito meio depenado, apertou-o nas costas como a uma marionete delicada. Parecia que sua operação tinha base em um abraço tátil, na proporção dos dedos, e as mãos sendo um segundo corpo inteiro, pleno. Um abraço cirúrgico, estratégico, cuidadoso. O coração voltou a bater depois da infinidade dos segundos, um ecoar imenso se orquestrava na lavanderia, conjunção entre o pulso fraco e velho de Duse e o peito fraco e infante do pardal, que um pouquinho depois abriu os olhos.

Que a morte existe, a gente sabe, a gente já viu, a gente já sentiu no estatelar de algum parente. A morte está por aí, rondando, e matou o passarinho. Duse, sabe-se lá como, o ressucitou. Não acredito em Deus, não acredito em milagres, não acredito em magia, mas Duse, para mim, é um caso a parte. O passarinho já sumiu, deve ter ido embora para o mundo. Mas está vivo, assim como Dona Duse, a Duse, que ressona sua sesta e permanece em vida há muito tempo. Mês que vem fará cem anos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

São Paulo

Maria bonita
ou meio sem-sal
Maria custódia
Maria nariz largo da batata
Maria paulista
medo da polícia
malícia (nos olhos
de quem vê
w x y z)
pelas ruas frias
(e batatas fritas)
onde passa
não qualquer outras
mas essa maria
sofrida
desvazia
mas não rasa.

Maria vive todo dia
em constante
afogamento:
não achou ainda
possível fuga
pro fogo que a inflama por dentro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Carta ao homem

que não é seu
que nunca é feio

não tem que ser grande
não tem que ser pequeno
- é do modo que é - 

que não é dom, que não é dama
que não é cama nem é bom
(que para ter o bom
é preciso ter o ruim)

que não tem um só jeito
uma forma, um só meio

que é de quem o tem:
o seio.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Aquilo que é visto de longe

tudo que lívia não via
eu via e calava
eu
não ia
e amava
lívia
(tão linda!)

amava
sem sossego
sem alívio
sem
nem aconchego
na vida.

domingo, 11 de novembro de 2012

diário

acho incrível isso tudo
que você me faz
diapósdia
feliz demais

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ou vi do

do grave
ao agudo
muda-se o mundo

e vai pra bem longe daqui.