sábado, 27 de julho de 2013

Situação de risco

Eu duvido que soltes a flecha
que a lance direto em meu peito
e, ao mesmo tempo,
também duvido que te lances,
a si próprio, sobre mim
você que tem medo
não do escuro que assombra.
Não do inverno ou da ausência das lãs.
Dos insetos bizarros a assombrar a sujeira do chão.
Você não tem medo de nada.
Mas tem medo de mim.

Eu duvido que salte e que corra
que grite na minha cara
dentro da minha boca
e, ao mesmo tempo,
que me rasgue um beijo
me tire do sério
me ponha mais louca
do que já sou.

E duvido que me olhe nos olhos
no entorno das pálpebras
na cor dos olhos semi-mortos
por horas, por dias.
Que passemos um ano inteiro
um sobre o outro.
Sendo o assunto da dúvida.
Sendo uma eterna dívida
que poderia doer e arder
e dividir cada cômodo da casa
que não temos.

Até que um de nós, o primeiro,
comece a gargalhar
ou então que chore
até não se saber mais quem exala
as lágrimas duplas
de duas pessoas
transformada em uma.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O canto de Mariano

Estávamos conversando, esses dias, sobre a dependência da criação poética às experiências pessoais. Decidimos então fazer um desafio: Helena, mulher branca e feminista, teria que escrever um poema sobre a causa negra, e Ronaldo, homem negro e anti-racista, faria o mesmo, mas sobre a opressão por gênero. As trocas de experiência sobre as opressões que sofremos foram cruciais para que pudéssemos entender mais e apoiar às causas um do outro e vice-versa. Seguem abaixo os resultados deste desafio conjunto.



Bastaria uma noite preta
um chão preto
botas pretas
e olhos fechados,
pensavam os brancos,
para armar na festa negra
uma farra comedida e calada
sem incomodar aos caprichos
e às canecas de leite
de seus vizinhos brancos:

os que dizem fazer a ciência
em torno de si,
e fizeram da poesia
um troço branco e inexato,
poema raro,
armaram mil mecanismos
para arrancar do preto
o que é dele
roubar-lhe a música
os versos e medicamentos
roubar as salas de aula
os adereços de cabelo
os pequenos endereços
e até o barulho das festas.

Uma festa muda e camuflada,
eles pensavam,
para que ninguém desperte:
nem brancos, em sono de edifícios
nem pretos, a despertar todos juntos
sobre si mesmos.
Mal sabiam eles que a negada
já acordou unida há tempos.

Não é preciso que caia a tarde
e chegue a noite
para Mariano começar a cantar.
Mas nesta noite ele canta.
A voz sai seca, coaxando,
e ecoa entre o cimento,
pelas frestas das lajotas,
rente a cada azulejo
e passa
da festa
ao mundo
e o mundo não passa da festa dos negros
e mais um pouco,
o pouco dos brancos.

Quando Mariano abre a boca
até o fundo do seu próprio céu,
um fim de mundo na garganta,
canta
as dores de ser camuflado
ser escondido à revelia
Mariano, o sapato furado
mas por pouco tempo,
que fique bem claro.

Cantar o pão velho
não o torna macio
não coloca recheio
presunto nem queijo
mas faz o pão
ainda mais pão,
completamente pão,
duro e coberto de dias,
porém pão.

Canta-se a dor
pois a dor é ainda mais dor
para doer nos tímpanos
de quem a causa
e fortalecer cada um dos doloridos.
E vejam que a dor é muita
para a pouca porção de pão
mas a festa irá mudar,
vão haver reviravoltas,
é o que canta Mariano
e que Dona Marta chora
suspira, esfrega os olhos
calada e de ouvidos atentos,
o grande corpo de matrona,
de corajoso ventre,
posicionada em meio à roda confusa
mas plena de si.

As estrelas medrosas aparecem,
aos poucos, como gatos desconfiados,
só para ouvir Mariano cantar
e ver a festa preta dançar
nítida,
tremendo o chão da madrugada.

Ninguém dormiu naquela noite
e ninguém mais dormirá
até Mariano decidir
se a grande festa já ganhou
tudo aquilo que queria
e que lhe foi negado
durante toda a vida.

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O outro poema está neste link:
http://assimbemdepressa.blogspot.com.br/2013/07/encaminhamento-de-ana.html

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dentro de dentro

Não escrevo
em entrelinhas.
Exponho o imaginário
num porta-retrato
de tudo que é sólido
por si só lido
sem poeta exato.

Durante a poesia
descrevo
cada incrível estrela
que não vejo
na noite nublada
e feia.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Falso eclipse

Meu amor,
e se eu te disser
que essa lua enorme
que você tanto fala
está na verdade
dentro dos seus olhos?

e brilha o reflexo
do brilho dos meus olhos
que te veem cair no sono
lentamente
como quem cai do céu
ou como um falso eclipse,
meu amor,
entre a tola corrida das nuvens.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Saudades de minha mãe

quis voltar, fiquei.
fiz feliz, mas não a mim.
de que vale tudo isso?
os sóis que partem,
as ondas a chacoalhar esta ribanceira.
vê? até os sóis partem!
e então se repartem em mil
quando passam pelos caleidoscópios de mamãe,
sua diversão diária, infantil e imatura.

seu barco se foi.
foram-se os sapatos
que guardava ao pé da cama
em desejos de promessa
não cumprida, coisa louca.

foi-se a boca de cor incolor
e os cabelos bem presos à nuca
que nunca permitiu-me pensar
na solidão em estado sólido,
permeando meu corpo todo
virginal petrificado de bom filho.

só me deixou às intempéries
sem documentos em mãos
sem décadas de experiência
ou noções de decência.
minha vida aqui largada
meus olhos, meus óculos, a camisa
às traças e às catracas da fronteira
no novo país.

por isso e por tudo o que lembro
marejo os olhos
toda vez que a vejo.
mas nunca vejo.
sobrou-me, o que? uma foto.
como eu, o resto do poema fica para trás
e nunca mais se recompões
clandestino, atracado na popa de seu navio
até que eu me afogue
ou que volte.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Mônica

Quando ela nasceu,
nasci eu
ainda que não tivesse nascido.

Quando eu rio
ria ela,
a gente não se aguentava
de dar gargalhadas.

Até que em abril
ela: Rio
(de Janeiro)
e a gente chorou
mas chorou bem pouquinho

a ponto de rir no final.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O cão

cego
o cão atravessa a rua
o cão
no chão quente, no asfalto
que mente ser céu
e tudo
de ponta cabeça
aos olhos sem olhos
do cão amarelo
torto e esbelto
que some
que fome!
debaixo dos carros

ou será que são os carros
tratores urbanos
catarro de ar poluente,
será que são
os carros que surgem
por cima do cão?

vermelho, o cão
de olhos vazios pedindo
fechem-me.

terça-feira, 4 de junho de 2013

As linhas das mãos

as mãos não eram,
desde o princípio,
de todo, mãos.
às mãos de minha mãe
não custava levar-me ao colo
quando eu era criança.

mas as suas são diferentes,
as suas mãos,
mãos de cinco dedos
cinco unhas
cada uma
são as mãos somente suas
que te fazem fazer
tudo aquilo que faz
e de mil propósitos me encanta.

porque de todo o tempo
que juntos passamos,
cresceu sobre nós
de maneira inexplicável
o tamanho de nossas mãos
e cada qualquer motivo
para suas novas funções
que nos felicitam em dias
de chuva.

suas mãos,
imperfeitas e tortas,
de dedos delgados,
avançam e agarram
me dão de comer
nas horas que peço.

como se fossem
mãos de cetim
desfiando, aos poucos,
as linhas da vida
em meu corpo inteiro
e nu de destinos.
até que eu nunca pense
nem chegue a morrer.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Coube em mim o universo inteiro


de tanto não poder dormir
lembro que existe o mar e existe a Bahia
lembro da areia do Chile e de outras estradas rodadas

e lembro do cão
que vi se esgotar na terra batida
sob a carga de um caminhão brutamontes
as rodas manchando sangue pela rota
até se esquecerem.
e lembro do cão
o cão de pelúcia que me abraçava
quando eu, pequena, deitava na cama
e dormia de vez
como se por horas
piscasse
no pêndulo parado de um relógio.

de tanto ter que cedo acordar
não pude dormir
até o dado momento.
olhos abertos de olhos para cima
ao teto escuro, à janela fechada
olhos abertos como que fechados
achados no rosto, a serem perdidos
no sonho que não chega nunca.

o olho fechado
pensa estar bem aberto
como a mais nova luneta
de um planetário chileno
sob o controle apagado das luzes.

ali
é uma estrela?

não, é Netuno
nos meus pensamentos noturnos
de tanto não poder dormir.

domingo, 12 de maio de 2013

Urubuqueçaba


Num salto de sombras
voou o urubu em pleno dia
de carnaval e folias
por entre os grãos de areia
a trespassar suas patas sujas
e sem brincadeiras

pisava torto e sem jeito
o animal de defeitos
à caça de lixo e de queixas
do podre das maçãs
e do sal presente nos restos dos flocos de milho

depois, com certeza,
cagava o lixo do lixo
o podre do podre
a sujeira em dobro.

as crianças pequenas
arregalavam os olhos
já da infância arregalados
e davam meia-volta lotadas
de medo
como se fosse o urubu
o vilão de todas as fábulas
(e quase era mesmo)

o pretume do passarão o trajava em uniformes
tal qual vestimenta de polícia
ou de segurança assassina.
ele alçou voo, batendo forte as asas
e poderia inclusive batê-las
sobre a cabeça de alguém.

no céu de praia festiva
um mar de urubus se encontraram
em ronda sobre tudo que havia
os picolés e amores
as revoltas mais íntimas.

botaram no povo
um medo danado
e, depois, cheios de si,
voaram todos, urubus, à ilha Urubuqueçaba,
o seu quartel-general.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O mundo no asfalto do medo

Na rua de baixo
tem um homem
cujas partes de baixo
e linguajar baixo
me dão medo.

Assombra-me os passos
de noite e de dia
sua voz sombria
que se soma às injustiças
fincadas nas sombras do mundo
durante a penumbra da noite.

O homem
que me amedronta
não ama a ninguém
e nem ama a mim
quando silva assovios
e cospe elogios
em meus ouvidos.

Não ama nem a si próprio
este homem
homem ingrato e folgado
só serve para servir-se
e cobrar os serviços
de suas domésticas.

Caso se amasse
veria a verdade
que exala nos pelos do corpo:
todo homem que se impõe
- HOMEM!
Com tudo que tem direito
vira um monstro
tal qual este ser asqueroso
de zíper aberto
volumes expostos
na busca de caça
para exercer o privado
no meio público
sob a força dos braços
e das ameaças.

O homem me dá medo
mas é por pouco tempo:
em breve serei mais forte
que os cortes e sustos do vento.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Não me esqueci

Quando eu olhar para os lados
verei somente o espelho do céu
sobre o chão de miragens
da estrada mais que sozinha,
eu na estrada vazia.

Meus amigos estão longe
levaram mala, cuia, tudo
foram cada um ao seu canto
tocar a vida
em estudos e artes,
nas novas cidades,
no dinheiro que a vida cobra
e nos descobre adultos.

No frio das europas ou
no calor do interior
meus amigos devem estar bem.
Devem cantar aos pouquinhos
e dançar escondidos
pelados no quarto
sozinhos ou, quem sabe,
com novos amigos.

Quisera eu voltar aos tempos
em que a tarde era livre
para fazermos comida
sentarmos em roda
por entre os abraços.

Pois na verdade meus amigos
são mesmo lindos
pensam no céu como um teto azul
nas nuvens como um algodoal
e gigante sinal da chuva.

Nós amigos cobramos de nós
igual:
que sejamos o nosso básico
que é o fácil que somos
quando em plena felicidade.

Quase muitos, quase todos
meus amigos já saíram da cidade
e eu fico aqui
afogada
em afazeres que me alegram.

Amanhã caço uma brecha
e, pensando,
faço uma breve visita
àqueles que por anos
fizeram à minha vida.

terça-feira, 26 de março de 2013

Cochilinho


desde que eu era criança
tinha o frequente hábito:
mal entrava num carro
já dormir
e dormia tanto
(mas tanto!)
que chegava a babar

hoje tenho dezessete
e sei bem
que verdadeira adulta ainda não sou
pois é tiro e queda:
mal entro num carro
já faço minha ridícula
piscina
de saliva

dessas breves dormidas
ficou a lembrança
dos sonhos malucos
que tive quando criança.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Noite no litoral


o mar me olha
como eu nunca olhei ninguém
não é por querer
ou por malquerer:
para ele
tudo não passa de uma questão de hábito.

como se fosse fácil
ler os céus
tornar-se estrelas
quando em noites de onda crua.
como se fosse nu
e não doesse ver seu corpo
seu ângulos, seus jeitos
que esconde em verdes águas
às vezes azuis
ou cor de areia.

bem que o mar poderia ser desprezo
o gigante
o insuportável
o rouba-atenções da lua
o movimento sem medo
mas não:
ele me acolhe
(sereia)
a mim e a toda minha inveja.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A pistola


Podia ver o céu, podia ver a terra, e os montes, os telhados, as árvores, os grãos: não tinha explicação. Tudo começou com um nó na garganta que se desatou no molhar de olhos. Era uma gota graúda, brilhosa, mal cabia no peito. Nos cílios também não cabia, pois aos poucos desabou das pálpebras, direto para a pele fina onde se concentram as olheiras. Matias mal as tinha, por ser demais criança, mas aquela noite sem dormir deu à sua face redonda o máximo dos ares adultos que poda a sua vã anatomia. Ali, naquelas bolsinhas de pele e insônia, deitou-se a lágrima e, por questão de segundos, recuou no sentido inavançável – lá ficou, parada como quem espera no sinal vermelho. Depois deu um salto e transcorreu todos os poros quentes das maçãs morenas de Matias, num ângulo de trinta graus ao lado esquerdo quando se aproximou das concavidades infantis daquela bochecha. A lágrima permaneceu intacta. O tempo todo. Passou pelo rosto como se dançasse em pedra polida, ou se sua tensão superficial estivesse acima do padrão e não permitisse que aquele choro se esparramasse. Quando chegou à boca, sentiu a pele fina e os lábios tão pequenos, da grossura de uma linha, demorou-se mais em seu caminho e, por fim, acabou por perder-se nos limiares e entrou na pequena boca. Era uma lágrima aguada, acuada, mal tinha sal. Tocou as gengivas e sentiu o sangue das escovas de dentes mal utilizadas.

O mesmo se repetiu todos os anos ou quase, mas aquela, aos oito, foi a primeira vez, e também o motivo para todas as outras vezes. Era dia de natal. Matias corria para todos os cantos levando cadeiras, guardanapos e colheres para ajudar nos preparativos da festa. A família era grande, enorme na verdade, com um verdadeiro bananal de primos e tios. Lembrava pouco do ano anterior mas, em compensação e por malgrados, sabia de cor o decorrer de uma semana específica.

Eles nem, nesta data, estavam ainda preparados, e a campainha ressoou por detrás da cozinha. Era o tio mais velho, com a esposa por detrás, escondida em timidez. O tio mais velho sempre fora assim, motivo inclusive de chateação: sempre perfeito e de método; sempre o primeiro a chegar. Quando pequeno, corria direto ao ouvir a mãe chamando para o almoço. Chegava primeiro e fazia questão de escolher o lugar, sempre revezando entre canto esquerdo da frente e canto esquerdo de trás. Desta vez, portanto, não seria diferente, e já esperava na porta. Matias levou seus pés até o porta-chaves e, em seguida, ao portão, tudo com passos pesados, cavalares. No fundo, bem no fundo, achava o tio um pé no saco. Para quê ser certo o tempo inteiro? Acabava por demonstrar-se sempre inconveniente. Na família, se marcavam seis horas, é porque o horário de chegar mesmo seria seis e meia, sete horas, algo assim, e não seis horas em ponto. O pai de Matias, cada vez mais, botava fôlego em suas pressas a cada atraso. Bufaria, não fossem as normas de etiqueta, uma bufada de cansaço e raiva, ambos em uma mistura forte, bem no rosto barbado do tio. Em compensação:
- Olá, quanto tempo!
- Quanto tempo digo eu... você some, Agenor, até parece que nem sente falta de nós!
- É que está tudo muito difícil, você sabe. Quando tudo se ajeitar, o tempo vai render.
- Ah, eu entendo, Agenor.

Não entendia coisa nenhuma. Sua perfeição chateante impedia qualquer desvio do padrão de vida. Não fazia a mínima ideia do que estava muito difícil. Estava tudo muito difícil desde o ano de antes, da véspera, em que tudo mudou para pior. O tio voltou à sala, onde a esposa guardava um lugar no sofá, em frente à tevê aberta e seus filmes de papais noéis. Matias montava a mesa como se fosse um quebra-cabeça, detalhe por detalhe, como fazia ano a ano. Quando menor, saía tudo meio torto, e precisava vir a avó rearrumar cada talher, deixar a mesa inteira nos trinques. Então já era grandinho e podia fazer sozinho tal tarefa. Fazia com gosto, provando-se: não era uma arrumação qualquer de mesa, ainda que de almoços de domingo. Era mais. Era natal, a data mais importante para crianças depois de seus próprios aniversários. O segundo dia de casa cheia depois de apagar velas e cortar bolo recheado.

Matias até que estava feliz, mas nem tanto. Mudara muito no decorrer do último ano. Em trezentos dias para menos, havia assumido mais que tarefas: denunciou a si mesmo cada um de seus sentimentos, em um processo difícil, que machuca, rala, coagula. Foi assim que cresceu, não que seja esta a única forma de crescer, com tristezas e baques. Existe tempo feliz, bem como existe ar e terra e existe cada peça de porcelana da mesa de natal. Não podia dizer que existe pai, ou avó, ou tio. Esses todos acabam. E junto acabam os abraços e os colos, acabam os filmes no fim da tarde. Às vezes, sem nem querer, voava em sua cabeça novamente a imagem da morte de sua mãe. Esquisito para uma criança ver assim a morte. É a idade em que se cresce vários centímetros por mês, é preciso trocar sapatos e o tempo passa rápido. Mas de quê importa o tempo? É a idade em que não se imagina ficando velho, sequer adulto. Como se pairasse.

Um ano atrás, Matias já ia à escola e ia bem, por sinal. Tirava boas notas e muitas dúvidas em sala de aula. Consolidara um trio de meninos que brincavam sempre juntos, todos morando em ruas paralelas: Matias na Rua dos Rojões, André na Rua Ibisco e Márcio na Doutor Paulo. Conforme suas pernas finas se firmassem no chão – e cada vez mais se esforçassem no futebol – ambos passaram a voltar para casa em conjunto, falando sem parar sobre desenhos, jogos e atividades em sala. O pai de Márcio trabalhava durante a noite e, com sua disponibilidade de tempo, era o responsável por esperá-los no portão da escola. Geralmente demorava a chegar, para mais ou para menos, quinze minutos depois da aula, o tempo de os meninos brincarem mais um pouco. Brincar, naquela idade, parecia ser a coisa mais saudável de se fazer, mais importante ainda que as aulas básicas. Era o que os fazia correr, falar, soltar risadarias e entender o que é criar laços. Em casa já sabiam bem, não com essa palavra propriamente dita, mas com as horas de paz familiar. Assim, era rumo a suas casas que iam, os quatro, andando. Não era muito longe, bastavam quinze minutos. A primeira casa era a de André. Depois deixavam Matias em casa e voltavam um pouco o caminho até a do Márcio.

Matias tocou a campainha. A mãe sempre aparecia na janela e, depois, destrancava o portão. Do lado de fora podia ver as luzes do quarto acesas: havia gente em casa. Tocou a campainha mais uma vez. Ela poderia não ter ouvido somente; mais um toque e apareceria na janela. Olhou para trás, em um giro brusco de pescoço, mas Márcio e seu pai, de mãos semi-dadas, já haviam sumido na dobra da esquina, em exatos noventa graus. À sua frente, Dona Maria estava sentada como todas as tardes. Pois Dona Maria era uma senhora de muita idade e, paralelamente, muita doença. Gostava de criança e fazia gracejos a Matias desde que passou a morar na casa em frente à dele, falando coisas vez ou outra ininteligíveis aos ouvidos pouco treinados do pequeno menino. Um dia, sumiu e parou de aparecer no portão para olhar a rua. A doença se agravara, não podia mais passear ou carregar peso; e, de qualquer evento que fosse, por advento, se esquecia. Ficava mal por esquecer-se, a Dona Maria, em uma espécie de vergonha, como se, depois de tantos anos de vivências, se tornasse uma criatura irresponsável. Por isso sumiu, e assim ficou por alguns cinco meses, até que reapareceu detrás do novo portão – construído especialmente para ela, que não o queria e nem imaginava ser o motivo detal instalação. Estava como sempre bem sentada em seu banco de madeira, sem encosto nem almofada, mas desta vez não praticava seu crochê e tinha ao seu lado uma cuidadora muito nova, de cabelos esparsos, que podia muito bem ser sua neta, mas obviamente não era. Não havia nenhum traço comum entre elas, ainda por cima após todo este tempo de envelhecimento pelo qual sofreu Dona Maria. Era a primeira vez que reaparecia, com o fim do inverno, mas não podia ajudar em nada. Matias, de longe, balançou a mão em largo aceno, mas já sabia: ela não podia ajudar em nada. Não podia ajudar em nada porque não podia sequer ajudar a si mesma – sua cuidadora já se encarregava desta missão.

Tocou mais uma vez a campainha, a última vez antes que desistisse. Arregaçou as orelhas para ouvir o soar agitado que tilintaria direto da cozinha. E não tinha problema nenhum, fizera o mesmo barulho de todos os dias. Cecília devia ter ido ao mercado, ou ao banco, a mãe devia ter feito isso mesmo, era só para isso que saía. Ou então estava debaixo do chuveiro, logo ela que gostava de cantar durante o banho, e só durante o banho porque no resto do tempo sentia uma vergonha absurda do esposo, do filho, da mãe. Se cantasse não teria ouvido suficiente para atentar-se à campainha. Em dez minutos sairia do vapor quente que envolvia as janelas fechadas do banheiro e abriria a porta. Foi sentar-se a única opção plausível para o meninote Matias, ao lado da lancheira vazia que aplaudia à sua fome de almoço. Já o medo o envolvia como uma toalha encharcada. E pingava cada vez mais água gelada sobre suas pernas que nunca antes haviam passado por nada como aquilo. As mesmas luzes seguiam acesas, enquanto Dona Maria continuava sentada ao lado de sua cuidadora. Assim ficariam as duas até mais tarde, imaginava Matias com conforto. Elas eram um mínimo de segurança a quem nunca esteve sozinho, completamente sozinho, no mundo dos asfaltos. A cuidadora levantou-se sem pressa – do que poderia ter pressa, se levava uma vida de idosa? – e para matias, que via tudo com muito mais grandeza do que meus olhos crescidos, ela já era muito adulta, de seios saltados e cabelos amarrados. Mas bonita não havia de ser, nem para mim, que tenho a vista viciada pelo que os homens dizem ser belo, nem para Matias, que era criança e não tinha razão para ver beleza ou teor estético em qualquer gente maior. Ela estendeu o braço, e era fino o braço, para Dona Maria fazer força e levantar-se. Saíram juntas rumo à porta da sala, um passo, outro passo, mais um passo, com calma. Fecharam a porta. Do lado de dentro, sobre os tacos apodrecidos e úmidos pelas recentes chuvas, a rua inteira – era pequena – podia ouvir os passos mancos de Dona Maria, que mal se podia em pé.

Algum tempo se passou quando o Ford cinza do pai de Matias apareceu na esquina. Duas buzinadas breves se seguiram à pergunta.
– O que diabos você faz aqui fora, menino?
– Mamãe não me abre a porta.
– Que é que você aprontou?
– Mas não fiz nada! Ela sumiu, não apareceu nem na janela.

O pai já xingava. Como podia ela ser tão irresponsável? Sair sem avisá-lo? E, ainda por cima, deixando as luzes da sala acesa? Questionava a si mesmo e estava, acima de tudo, pocesso. Caçou o molho de chaves na mala e abriu o portão de zinco. O portão era horrível, mas com ele pensava se proteger das maldades do mundo. Mal sabia ele o tanto que fazia dentro de sua própria casa. Matias saiu a correr até a porta da sala, chacoalhando sua lancheira, o estômago a rugir de fome. Sentia uma mescla de alegria por entrar em casa, junto à chateação de ver o pai irritadiço com a mãe. Na certa, já sabia, haveria choro durante a noite. E hematomas escondidos sob as roupas.

Girou a maçaneta com força e fulgor, com um tanto até de amor, e gritava pela mãe aos ventos (que não existiam porque o dia estava mais abafado que nunca), e chamava. Poderia estar cochilando. O braço empurrou com força a porta enquanto o pai fechava o portão. Matias era tão pequeno, não tinha porque ver uma coisa dessas. Seus olhos se arregalaram e o espanto foi tanto que deu meia volta e agarrou-se às pernas do pai, com uma força que ninguém sabia que tinha. Nem ele mesmo. A visão da mãe morta, estatelada no chão, não lhe saía da cabeça, e gritava. Agenor correu, deixando Matias sozinho junto ao portão, e parou no limiar da porta. Por um instante ficou atônito, aturdido, e não sabia quê fazer. Em seguida, chorou absurdamente, gritando e aos prantos. Tomou o filho nos braços com um abraço envolvido, e lembrança de algo semelhante a isto não havia na memória. Esperneavam juntos, bem como juntos caíram ao chão a olhar com olhos fixos o declínio da Cecília, boa mãe e boa esposa, que se suicidara com a pistola da gaveta do marido. Agenor lembrou-se que era pai, e de súbito ergueu-se junto ao filho e saiu pelo portão. Tocou a campainha de Dona Maria e quem abriu foi a cuidadora.
– Preciso que cuide. Moro na casa da frente, e é muito urgente. Cuide que coma alguma coisa, qualquer coisa, e volto aí em duas horas. Obrigado, obrigado mesmo.

Matias, na casa de Dona Maria, chorava mais do que seu organismo podia. Ela o olhava, sorria, tentava levantar e a cuidadora dizia que não, que dissesse o que queria, e Dona Maria: “aqueles biscoitos de mel para o menininho.” Ele tentou voltar para casa, mas era impossível. Não havia ninguém que passasse pelas grades daquele portão. Enquanto isso, Agenor ligava a polícia, jogado sobre o sangue já viscoso de Cecília Sua Esposa, espiando de tudo a procura de resquícios. Não havia bilhetes, sequer erros de cotidiano. A feira havia sido feita, o almoço esfriara nas panelas, e ela estendida, estendida e vermelha, estorvando a rotina da casa.

A partir deste dia, Matias passou a visitar a avó muito mais vezes do que no passado, primeiro por não ter com quem estar quanto a ausência do pai impera, e segundo para amaciar a tristeza da avó, que a partir da lastimosa data, nunca mais trocou palavras com Agenor. Via nele a culpa de tudo, a pressão e a regra, de onde veio o suicídio como exceção. Voltaram a trocar palavras somente naquele natal, o primeiro depois de tudo, e o fizeram não por si, mas por Matias. Era o primeiro natal sem Cecília, a mãe, a filha e esposa. Ela fazia de um tudo para o dia, embrenhada o dia inteiro na cozinha. Provável é, na verdade, que odiasse tudo isso, mas nunca disse nada a ninguém porque, se pudesse, teria vergonha até de falar. Os outros convidados chegavam, todos de parte paterna, e Matias abria a porta a todos. O andar de baixo da casa se amontoava de pessoas, mas sequer Matias tinha primos que o entretesse. Juntou-se à avó e com ela, sem perceber, iniciou seu estado de braveza ante todos aqueles que mal se importavam. Ficaram um ao lado do outro, calados, como Dona Maria e sua cuidadeira, porém, desta vez, ambos se cuidando.

A hora da ceia se aproximava quando aquele primeiro tio a chegar levantou-se do sofá e, desatento, esbarrou na estante de madeira escura que, sem chamar muito as vistas, acolhia um vaso bonito, em cintilâncias de amarelo. O cotovelo malcriado passou violento e o vaso, na mais limpa porcelana, caiu como as lágrimas de Matias. No chão, esparramada, estava Cecília, nos minúsculos pedaços de cinzas que eram o único que havia sobrado dela. O pequeno Matias, num pulo, agarrou o tio pelas pernas e o derrubou ao chão. Subiu correndo as escadas e chorou seu choro agudo até o resto da noite. A avó, com pá e vassoura, juntou o que pode em um canto da sala, mas já estava tudo destruído. As poeiras da multidão se uniram em grandes flocos às cinzas; aquilo não era mais nada de Cecília. Montou ao neto um prato com todas as comidas que ele gostava e subiu vagarosa, em passos de muita idade. Chorou junto, encostada sobre seus baixos ombros. Enquanto isso, o andar de baixo não hesitava em fazer barulho e rir, rir muito, como se fosse de propósito. Agenor entrou no quarto muito quieto para dar um beijo no filho, mas não se demorou muito. Assim que desceu, Matias em seu quarto pôde ouvir o riso grosso e largo de seu pai. Por dentro de si, junto ao que lhe sobrava do coração de criança, sentia que a mãe não merecia tudo aquilo. Não, ela não merecia nada daquilo, e então se pôs novamente a chorar até dormir de cansaço. No dia seguinte, uniu-se à avó no ato simbólico de nunca mais falar com o pai, e assim o fez até o próximo natal, quando chorou, de novo, a noite inteira, como se a cada instante visse novamente a mãe morta pelas próprias mãos e pela pistola assassina do pai.