quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poesia em parapeito

A prosa desperta, desponta,
Abre a janela,
Narra a poesia e se conta.

Poema se enlaça entre velas
Ou num sol-fevereiro
Se esbanja em camélias;
Poema é a arte dos pacientes.

sábado, 18 de dezembro de 2010

(Sê)rmão

De "se" a "se", não há
Ser humano ou sombra disso
"Se" é hipótese covarde: Sê, isso sim.

Sê teus próprios impropérios
Improvérbios, magistérios internos
Tudo que se seja.

Sê o balcão o amendoim a cerveja
O passo falso decadente
Sê a fraqueza de teu fígado insaciável.

Sê os cílios de tua filha
Vislumbrados com um cão
Que rosna. (e tu nem vês nada)

Sê a luz do poste falho
Vista em óculos de teu amigo ao lado
E te atenta que essa fonte não é luar.

Sê sem roubar dramas alheios
Sê sempre a prática ideológica
De bandeira teórica e própria.

Sê essa chuva rala
Que não-se-vê, não-se-vê
Mas goteja na pele e na ponta do nariz.

Se ordenam que eu me seja
Assim de bom grado serei;
Assim de bom grado sereu.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Personificação

Para o Ive , o meu tal amigo-Poema

Macabéa era estrela
Alice, curiosa
Pedro Bala foi herói
Sierva María, paixão contagiosa;

Capitu tinha olhos singulares
Zarité, o melhor dos gingados
Mr. Hyde era fração humana
E Gregorio, por mutar-se, acusado;

Quincas morreu em primeira página
Tal como a barata de G.H.
E o pai de Pedro Páramo
E o irmão de Holden Caulfield;

Mas quem nasce agora, personagem
E renasce a todo instante
É poema inteiro de coragem
A um amigo, codinome Poema:

Conheci não lembro como
Talvez em páginas mais líricas
De juventude, estudos, mímica
Amizade em tom autônomo;

É um Poema tão galante
De sorriso que se alarga
Com abraço que não tarda
E atravessa o coração-semblante;

Tal Poema é meu amigo
Pois resguarda boa-vontade
Graça, mimo e bondade
Junto à chatice e às besteiras de menino;

Meu Poema que é tão moço
Tem bigode de penugem
Mal cresceu, é cor ferrugem
Aparenta ser esboço;

É Poema bem mineiro
Que até fala com sotaque
E se pega em xeque-mate
Em discussões sem argumento;

É Poema-personagem
É poesia literária musicada
Em cada verso de seus risos e entoadas
Antologia de amizade e molecagem.

(Leio, e leio para conhecer pessoas
Dançar toda nossa humanidade
Transmutar meus amigos em pássaro que voa
Que é pra não me morrer de saudade.)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Camaleônico


"Com desperdício de cores
Selo o fim dos meus amores"
(Thiago de Mello)

I
Sob o sol meu olho é verde
Em dilúvio ele se azula
Ao te ver ele se perde

Cai a tarde, vira anil
Em milímetros de poente
É um carmim que ninguém viu

Em invernos é magenta
Aos holofotes, encastanha
A teus trejeitos se atenta

Em casa de vó é pura turquesa
Pelo trânsito se acinzenta
Se te mira, és tu minha presa

Com abajur é todo preto
Em luar-pérola, cor de mel
De olho fechado eu te vejo.

II
A insensatez ainda é oblíqua
Pois a miopia impera:
O que o olho mira em mim não fica

Basta!, tanta ladainha me horripila
Meus próprios olhos eu não vejo
Prefiro enxergar mundo, tua íris e pupila.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Assassinato de pequenas causas



A: Você viu a vítima?
A: Veio lá da vastidão
A: Vagueando entre veludos!

B: Era velho, vil ou vândalo?
B: Quem o viu, o vigilante?
B: Vim aqui ver os vestígios!

A: Verdureiro venerado,
A: Dos cultivos vitalícios.
A: Prova viva é o vigário!

B: Quem seria vil à vida
B: De um varão tão bem visto?
B: Evoque já as viaturas!

A: O que viram é duvidoso
A: Se verdade, é uma vergonha...
A: Quem o vela é a viúva.

B: Verbalize tal vacilo
B: E veloz virá a verdade.
B: Quando vem a ser o velório?

A: Violaram-no em veneno
A: Varejando sua cabeça
A: Contra as vozes da varanda.

B: A viravolta já me veio
B: Não vazou-me quem foi o violento
B: Cuja várzea varreremos.

A: Quem vingou com valentia
A: O vaso de verdugos esverdeados
A: Sem vacilos ou vexames foi...

B: Vocifere tua voz, sem vetos a cada verbo!
B: A vilania ainda é vindoura
B: E viajaremos de véspera ao velório!

A: Quem soltou o sangue violáceo
A: Em vitupério e violência
A: Foi uma invejosa violeta
A: Da varanda vergastada. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Carta ao meu verdadeiro lar


"Está escurecendo. Tenho que voltar pras minhas terras, tenho que encontrar minha bella casinha. Mas como faço pra levar todas essas bugigangas que deixei aqui? São também fração de mim. Aceita-me como todos esses meus apêndices? Estou voltando, mas não tenho como bater à porta porque minhas mãos estão ocupadas com essas minhas tralhas. Abra-se pra mim? Semana passada o calor imperava, aposto que você sentiu também. Quase rapávamos careca de tanta quentura na cachola. O ar mantinha-se fresco, dançando entre moléculas. Nós pulando, nós em bellas gargalhadas, os pés sentindo a areia úmida à beira do mar. Ah, Mar, és também meu lar! Teus rebolados me instigam os caminhos... pra ti me vou, mas em ti serei nômade: aqui tenho meus álbuns de fotografia e minha casinha que tanto me bem-guarda. 


Pois Recife é também meu lar, mas só o é por ser Vida para minha casa. Minha casinha, a passos ansiosos, me levou até Recife, mesmo com alguns atropelos e pausas no caminho. Foi-se o tempo em que corríamos para tudo quanto é canto do mundo - porque afinal, para crianças, um ou dois centímetros já são gigantes mundos. Agora a gente tem fome. Fome de mundo, fome de dias, fome de êssencia, fome daquele tempero verdadeiro, que não precisa de sal: já se gusta por si só. Mas preciso da minha casinha por perto, pois ela passeia comigo. Às vezes se enraiza, é certo. Mas costuma acompanhar-me. É de muito belleza minha casinha. Toda amarela, com estrelas vermelhas em alguns cantos, meu lar vezenquando se camufla, mas isso é só porque é uma casa no campo. Está ficando escuro e o vento frio se achegando, abre a porta pra mim? Sinto falta de teus ideais, do sofá que guardas para mim, da escarola que me serves à contragosto. Sinto falta de tuas birras, porém mais ainda sinto falta de tuas andanças cantantes, quando acompanho teus caminhos por nossa janela. 


Casinha tão bella, de margaridas em parapeito, e veranesca paixão, só queria de avisar que gosto de, pela nossa janela, olhar o teu andar que se faz nosso, por entre política, gastronomia, cinema e futilidade. Pensa só, Casinha que tanto amo: agora o inverno já foi-se, por enquanto é tempo de Sol, Saias Rodadas, Dilma, Olinda - Tu Tão Linda. E se ainda não for tal época, se atranquila, a nossa estação há de chegar logo. Pois verão é tempo de janelas abertas, portas destrancadas, passeios na praça, pipoca e sorvete. Tempo de férias, tempo de comemorar novos anos em viagem (essa tal viagem de sempre que, pode parecer ingenuidade, mas tem pezinhos andarilhos por entre tantos mares, tantas ervas-daninhas. Por entre tanta orquídea, por entre o cão risonho da maior negritude que acompanha o passo do tal "eu e você-minha-amiga"). Temporada de Casa no Campo. Onde, como já diz Elis, eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. Isabella, obrigada por me abrigar sempre, por ser assim "a certeza dos amigos do peito e nada mais". As margaridas que me perdoem, mas minha Casa no Campo é recheada de mandacarus. Talvez eu tenha sumido em algumas estações, mas o inverno e o outono são sempre um pouco mais complicados, e acho que você partilha da mesma opinião. Acho que preciso visitar mais - muito mais! - minha Casa no Campo, tão linda e charmosa que ela é! Obrigada por tudo e feliz aniversário." 


(12/11/2010)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resina

Violino, tal qual meu amor
Talvez com traços violetas
Ante aquele verniz-madeira

Violino assim rasgado
Uma nota, som afinado
Nos fiapos dó-ré-mi

Violino, vi-o-lindo
E sofro em curvas de agudeza
Cordas apertadas que se ecoam só para si

Violino, artefato esconderijo
Cujo arco sinestésico
Toca o corpo e incita voz

Violino, quatro cordas
Quarto e vozes em sussurros
Vinho e tato em solidão

Violino, tão sofrido
Violino resguardado
A cabeça sua voluta, aguardando mil volúpias

Violino é meu amor
Que se faz em fricção
Em meus sonhos, utopia da mais pura ficção

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pedras


 - Qual será a de hoje?
 - Blowin' in the Wind.

E nenhuma palavra mais. Roger começou sua cantoria junto ao inseparável violão vermelho enquanto a tal moça escutava de olhos atentos às unhas sujas que se movimentavam em piscares pelas cordas e casas. A princípio era uma relação um tanto quanto bizarra: A moça caminhava pela grande avenida de metrôs, cinemas e bancas de jornal, enquanto Roger conversava com um senhor pedinte de pernas amputadas. De um salto, esqueceu-se do velho deficiente físico e, inflando o peito fraco com o máximo de garbo, apresentou-se:

 - Roger, O Músico De Rua. Prazer!

Ela, em gestos bruscos de quem fora pega desprecavida, soltava monossílabos avulsos, porém cabíveis. (Monossílabos, por mais que sem grandezas, guardam as maiores profundidades do ser humano. Resta a cada um escolher se o seu guardar é mostrado ou omitido.) Roger, O Músico De Rua, perguntava em insistência frenética que música a moça gostaria de ouvir – qual, qual, qual - deixando claro que pedia por ouvidos e não moedas. Em (como sempre) atrapalhada tentativa de mistério, a confusa moça deixou à escolha do homem. Ele que descubra, se é tão músico assim como diz. Sem meias palavras, fugiram da caixa do violão alguns acordes conhecidos, start spreading the news, I'm leaving today, I want to be a part of it, New York, New York. Observando os dentes daquela criatura, cada um com um ângulo diferente (imagine só: um mapa de senos e cossenos, diversos círculos trigonométricos, nesta boca infeliz!), seu pensamentos se voltaram à voz do homem que já beirava uns trinta anos. 


Pois não é que a moça, diante de Roger O Músico De Rua, o lendário desconhecido, o conhecedor de mundos cuja São Paulo não faz a menor ideia de quem seja, este mesmo; diante dele, a moça de cabelos sujos pelos ventos poluídos ouvia a apresentação única e exclusiva de Dylan cantando Sinatra. Roger O Músico De Rua não é algo tão distante de Bob Dylan O Músico De Vagões De Trem. A moça, em auge de miçangas e juventudes, foi-se embora antes que Roger começasse a já proposta segunda e última música do primeiro dia – mal sabiam dos próximos que viriam -, não sem antes bater palminhas com uma mescla de satisfação, simpatia e descompasso (descompasso este oposto às sabedorias musicais de Roger mas proporcional aos trilhos tortos de seus dentes amarelados.)

 - Obrigado pelo carinho e pela atenção. Nos vemos dias desses pelos aquis. - ele concluiu em ares joviais de certos pingos de rebeldia, as fuças aprumadas para sorrisos retribuíveis, transparecendo companheirismos. Ela, em passos largos de interrogações, absorta em entender a bizarrice dos ares que a mantiveram em sincronia amiga a um músico de rua de voz nasalada totalmente perdido no tempo.

Pois em outros dias de andanças e divagações se cruzaram novamente e ela, sem pestanejar, exigiu The Hurricane, cujos palpitares ecoaram ao mesmo tempo que seus conflitos internos da época, essas tais besteiras que importam, cujos mares não cabe a mim navegar. Dylan esteve novamente encarnado ao seu lado. Aplausos; sílabas; adeus; adeus não, eu diria até logo; se é assim, então até; sorrisos solitários de memória recente. Se encontravam pela hora do almoço (eles que nunca tinham hora certa para refeições), e a moça um tanto quanto sensata (talvez até um pouco demais) nunca permitira que Roger se ecoasse por mais de uma canção, em recuos e semáforos de anseio. 


Agora, frente a um pedido que conhecia e esperava, Roger O Músico De Rua, o bom, o ídolo único, o cara estranho, este mesmo; ele errara as notas, errara a letra, a tal resposta ficou pairando no vento sujo da cidade podre e ele não tentara tocar, não levantara um dedo para acalmar as trilhardárias perguntas da tal moça. Não, Roger Músico de Rua, um beijo aproveitador não ajudaria; esqueça. Tentara abandonar a canção e trocá-la por um Raul qualquer, sem ver que este não fazia jus àquela específica calçada movimentada onde estavam os dois sentados, intocáveis. Roger, para você não há como caçar respostas porque não perguntas nada. Agora nesta tentativa afobada, adivinhara errado o som que me cabe, e assim vemos que nossas desatinadas afinidades são bastante desafinadas. Ainda se sua saída fosse “don't think twice, it's all right”, ou qualquer merda do gênero. Mas não viste nada, assim com o olhos encovardados atrás de opacos óculos. Fácil olhar nos olhos dos outros quando eles não podem chegar aos teus. Pois eu mesma não acredito nem nunca acreditei em adivinhações. O que há não é nem sintonia; é, isso sim, sincronia. Diante tantas monodiscursos escuros mentais, a moça de nome desconhecido e desnecessário joga os cabelos como um lençol vermelho no varal e adeus:

- The times, they are a-changin. Sei bem, sei sempre a todo instante dessa avenida em pisca-pisca. Porém... it's all over now, Baby Blue.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mofo

Eu acá em lábios rachados
E tu aqui em bico de papagaio
Eu acá feito espantalho
Entre intempéries e merda de pássaro
E tu aqui cantando Rosa ao vácuo
Ao meu vácuo, meu pacto com o diabo
Esse diabo que tem a mim como bastardo


Eu morrendo-me em som de bolero e fado
E tua vitrola sendo samba, festa, chocalho
Este chocalho teu de sementes, penas, gingado
Tuas penas atentas de todo meu estrago


Este trevo teu, quatro folhas mais orvalho
E eu, irresponsável, a fincar dedos em cacto
Do cacto, o fato:
Teu otimismo é um saco.

domingo, 17 de outubro de 2010

Monólogo com Interlocutor


à memória de Caio F. Abreu, mesmo que não baste.

Eu estava sentado frente à televisão, enquanto você se banhava. O que assistia não sei, uma bobagem qualquer – prestava mais atenção na envergadura de minhas costas preguiçosas e em minhas ancas devoradas pelo estofado pútrido de pregas que cobria todas as poltronas da sua sala de estar. E você a demorar-se no banho. Talvez não tivesse nem começado-o ainda. Talvez tenha estado todo esse tempo lutando contra suas espinhas adolescentes e mirando-se, inchada, no espelho – ao mesmo tempo eu, aflito e púbere tanto quanto você, duelava com minha espinha dorsal que insistia em envelhecer. Nunca havíamos subidodescido juntos em gangorras ou, rindo em espelhados dentes de leite, roubado pêssegos daqueles bolos bregas e dulcíssimos de vovó. Aliás, vovó nunca foi um grande elo para nós dois, sendo a existência dela o único ponto (assim meio pangéico) em intersecção para eu-e-você. 


A gravata borboleta obrigatória vermelha atijolada me importunava, enlaçando-me em trejeitos além do tradicional pinguim: eu era, ali encarando um apresentador de tevê babaca, uma parede; minha face, incrédula do programa familiar ao qual me submeteram, desbotava o muro que fazia-se meu-corpo e, mais e mais, abotoava por entre sardas e penugens de pré-homem o black tie desaconchegado. Aquele terno era palavra-chave, era como texto grifado, como o sim do matrimônio. Você desnuda sob cachoeira de água quente em seu box três por quatro, e eu aguardando sua demora no outro extremo do apartamento. Tendo afinal que existir naquela situação, comecei a apertar os olhos à decoração exclusiva de sua-mãe-minha-tia na sala de estar. Melhor que acompanhar a língua de cobra da atual moça da tevê sobre divórcios, gravidezes e casamentos entre gente famosa – pois de casamento já me bastava esse tal que me levava àquela casa, com compromisso de acompanhar você. 


Três quadros de coelhos em acrílico saturado emparedavam-se nas texturas amarelas e meio tortas do ambiente. A mesinha de centro contava com bordados e uma espécie de presépio, digamos assim um santuário, todos os bonequinhos de gesso malfeitos involutariamente com o estrabismo em guache e o tempo, desengonçado tempo, já havia arrancado-lhes todos os dedos. Os pés, em compensação, tinham as pontas todas em cores, e me lembro bem de ouvir titia contando em um natal, com os ombros em estralos de tensão, que fora você quem os riscara, à caneta hidrográfica, em tentativa pedicure. Já era hora de sairmos e você lá em seus caprichos despidos. O sol devia estar ardendo lá fora, não tenho certeza porque a cortina milenar de estampas florais e arranjos azuis se adensava em tamanho pó que tornava o translúcido opaco. Lucidez é transparência? O único som audível naquele baú-lar de bajulação vinha das caixas de som televisivas. Os resquícios de barulho do chuveiro em sua cabeça pareciam mais tato que audição, surgia-me até a impressão de fumaça quente de umidade pela sala. De resto, minha mudez. Porque eu penso todo quieto. 


Uma vez, encuquei de ir na terapia, já mirabolava respostas inteligentes para perguntas clássicas e idealizava o modo mais cabível de deitar-se em um divã. Carreguei um de meus cabeceiros livros na bolsa para o caso da necessidade de algum intelecto que não fosse o meu, e antes disso embarcara em eleger meu favorito, drummond ou vinicius. Cheguei lá demarcando cada passo meu para eventuais cronólogos, mas o que ocorreu foi um monólogo: a mulher, altiva e em tom de compreensão pôs-me num sofá e, em perguntas do tamanho do mundo, deixou-me falar e falar e falar e eu não falei nada porque quando penso não falo e foi disso que lembrei quando estático entre as polias daquele apartamento-móbile esperando você, que não saía nunca do banho e ainda precisava atrasar cucos para que fosse possível o vestido, o delineador, o pente, o sapato, a bolsa. 


A casa vazia, só eu, você e a mulher da televisão, e nunca simpatizei muito com nenhuma das duas, talvez com nenhum dos três. Você também sempre me fechava a cara e me largava em monólogos para, desdenhosa, saltitar tremelicando e abraçar o labrador cor de chocolate da vovó. Éramos nós três e os santinhos da mesa de centro. Nós muitos e o telefone que explicitava nosso atraso para o tal casamento de tia distante. Nós milhares sem vontade de convivermos juntos e – o grito. Arrasador, que você manteve desde sua infância de mimos e não queros. Seu grito invadiu a sala e, grossamente agudo, espancou a cortina querendo ganhar mundo, fazendo cair dela todo o pó encrustado. O que fazer, entrar casa adentro, nunca havia vindo aqui, há tempos não falo com essa menina pentelha, por que afinal não tem mais ninguém nessa casa, por que eu aceitei ser chave desse casamento, fui. Mas em passos lerdos, arrastando-me pelo corredor de caro assoalho, no coração daquele apartamento: atrás a sala, aos lados fotografias emolduradas de seus pais em juventude e de seus sorrisos sapecas, algumas desfocadas e sem brilho, uma ou outra com vovó, e de nós não havia nada, pois retrato é daquilo que foi. Nem fomos, nem somos. À frente, a porta, e um feixo de luz em linha reta sob suas madeiras. 


Os gritos se espaçavam mas ainda tinham força, nesta hora – atrasada – não mais com susto mas com um certo pavor, talvez uma pontinha de escárnio. Forcei a maçaneta e abri, meticuloso como pinça. O ruído da porta por instantes chocou se com seu grito e em minha cabeça aquele zumbido todo era som de demolição de casas cinquentonas. Você virou o rosto e tinha os olhos arregalados, irritados com tanta água que caía do teto, seu braço tremelicava com o dedo rijo, apontando. Aquela situação não deixava de ser ridícula. Você esperneando e implorando sem dicionário que eu retirasse da parede azulejada um baratão que nem era tão grande assim mas possuía pernas delgadas e grossas, lembrando até as de jogadores de futebol. Os pelos pareciam ramificações das pernas – seis! –, enraizando a barata naquele cubículo que pertencia a você. Situação ridícula e plausível. Lembro que parei incrédulo no limiar da porta, fantasiado de pinguim sem rosto e um ar de e-agora exalou-se, com um aroma lírico que talvez nenhum banho retirasse, nem nos límpidos rios indígenas. Éramos nós três. 


De um impulso que nunca antes aflorara-me, rasguei-me e, mudo, arranquei com a palma da mão em direção à barata. Num golpe só, acabou-por descascar-se e duas pernas e meia ficaram infiltradas no azulejo alaranjado, enquanto a carcaça boiava em direção ao ralo que não atravessaria. Você me encarou como dizendo por-que-você-fez-isso e eu olhava soluçante para a minha mão aberta em escarro e gozo e morte e meu paletó já continha um mar dentro de si e olhava para seus cabelos como que pensando dizer não-sei-porque-mas-foi-você-que-suplicou. De súbito, você fugiu do box em saltos e tascou sua toalha, deixando-me parado trás a porta de vidro. Assisti a parte de seu desfalecer-se e, enquanto mentalizava o quanto você continuava ridícula como sempre, espiava com os cantos dos olhos esses seus despontes de carne, sua escápula transcorrendo da cortina epiderme e sua face acidentada de pavor e acne, assim limpa e um pouco avermelhada. Acabrunhei-me ao relógio mas este, incompetente, parara de tiquetaquear após tantas águas. Você me encarou, com as costas horizontais e o pé esquerdo sobre a tábua da privada, secando as batatas da perna, como que assumindo em-cinco-minutos-estou-pronta-pode-deixar. Isso era um sai-daqui-já-chega-você-é-insuportável. 


Voltei para a sala rastejando, o corredor com os rastros úmidos de meu terno molhado. Então era a vez da moça do tempo falar das regiões de pancadas fortes de chuva e das temperaturas máximas e mínimas. Eu, pensando quieto e afundado nas poltronas de sua casa durante os exatos cinco minutos em que você se aprontou sem maquiagem nenhuma e em seguida saimos correndo sem olhar um para a cara do outro mas ao mesmo tempo tentando parar um taxi porque a moça da meteorologia estava certa e no verão há pancadas de chuva – eu pensava quieto em seus cabelos desgrenhados com um resto de xampu porque você nunca soube lavá-lo direito, em seus olhos levianos pedindo socorro, em seu dedo em riste tremendo o braço e balançando seus seios por pouco não mais infantis que você tentava esconder enquanto gritava surda em nosso primeiro e único diálogo.


p.s.: sim, eu me utilizei de uma foto de Psycho, do Hitchcock, para uma história totalmente outra, mal aê.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Zarité


Pensa só:
Se balança o lenço
Sem senso
De vento
A dança sem sono
Sem sina
Sendo sonho
Samba o centro
Do açoite
Sentido
Há segundos
Passados,

Se a sombra
Se some,
Se assume
Essa dança
No solo absorto
De sangue
Um sussurro ou outro
Ao Erzuli, loa de
Suor e sossego,

Se a dança semeia
Uma sorte na vida
Um doce sortido
Sacos de café,

Se a dança se revolta
Esmigalha a senzala
De suja cinzês
De certos passados
Que agora tem vez,

Se a dança se solta
Se salta
Se soa
Seu sinal
Sai do sulco
Que sobra
Da servidão,

Se sopra
O sibilo
Da brisa
Da chuva
Da seca,

Acerta-se
Sem sequer
Cerimônia
Como o som
Do sol
Em céu
De sempre,

Pensa só:
Dança só:
Dança soluços
Só dança.

domingo, 3 de outubro de 2010

Gravação


"Não é necessário sair de casa. 
Permaneça em sua mesa e ouça. 
Não apenas ouça, mas espere. 
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio. 
Então o mundo se apresentará desmascarado. 
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés." (Franz Kafka)


"Nem me venha com essas tuas ladainhas. Bem sabes que te conheço de outros carnavais. (Carnavais antiquíssimos, por sinal.) Se te encaro agora nesta singela mesa de cozinha, assim com sombrancelha e olho formando ponto interrogador, é porque quero saber a pontuação de tua face, os acidentes desdentados dessas doze horas em que, como todo dia estiveste fora, mas das quais não todo dia voltas de olhar machucado e censurado, precisando costura ou conserto.

Tu nem aguentas tomar teu café, estou aqui esguelhamente atenta aos teus bebericos em falso. Pensas que me engana? Descobriste o amargo. É, eu bem notei. Amargo a alguns parece turvo, a alguns é alergia, a alguns é como batalha desigual. Onde já se viu honra em cavaleiro armado tentar duelo com gente nua de ataque e defesa? Café é bom para quem o compensa com prazeres de vida. Na boca destes, café é o próprio prazer, um tipo meio elixírico, meio lírico; café é pedacinho de vida, moído mas com essência incrustada.

Por que teus olhos estão presos nesta xícara de sombra imbebível? Por que não me miras? Por que finges que sou mais uma cadeira da tua cozinha maltrapilha? Mais um gostinho de chá de cadeira, é isso! Chá é como fumaça, a gente capta no ar, a gente bebe fragrância. Chá é incenso líoquido, lembra sabores e dissabores. Dissabores, hm... conta-me a razão de toda esta tua impessoalidade? Esta tua ausência de pessoa. Pela manhã sorrias, lembravas até os sóis de janeiro. Mas agora... agora lembra-me túmulo, uma tumba sem qualquer retumbância - agora arrepias-me. Ajusta teus binóculos reguláveis aqui para nossas redondezas, tu aparentas desfoque, bem como o ato de vestir a miopia que não te pertence. 

Até porque talvez ela não fosse assim a moça certa. Ela mesma, não disfarces! Conheço mais tuas mímicas cerebrais que ti - ainda mais quando perdido em lentes tu estás. Que te passou? Hoje de manhã disseste que a voz dela atendera ao telefone junto com ela toda. Bela voz, todo o país discador sabe. Mas ela esconde levianas desgraças em seu pretexto de secretária eletrônica. 'Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagem', a tal moça diz todo instante nos milhões de telefones brasileiros, ela ali robótica, repete e repete sem dó nem piedade aos tantos saudosos, desesperados e fofoqueiros por aí, só precisando de trocar palavras com quem não atende.  E aquela voz fria dessa moça que tu tanto amas, mas que nunca recebe tua fala ao telefone, nunca dá-te chance de ouvir viva voz. Já te alertei, e tu nem prestaras atenção: tanto ligaras para esta moça, em tentativa invólucra de ouvir os lábios dela (pois sempre ouvirias, ela em fala ou gravada), e não percebestes que o som só vem dos lábios quando estes são espontâneos. Lábios têm a espontaneidade em cada rachadura, em cada curva dimensionada projetada. Ouviste hoje à mulher ou à mecanização dela? 

Ao primeiro café de cada dia, empolgara o riso confabulando sobre essa senhorita, maravilhosa senhorita, que levara o telefone à orelha e substituíra a própria voz gravada. Conta-me os detalhes, completa-me este álbum de fofoquinhas! Teu almoço foi solitário? Teu olhar devorava só o comercial completo porque era este a única companhia? Não duvido que tenhas salpicado pimenta pelos feijões - esses seus vícios por substituições de prazeres. Esperta-te, e aprende a separar os tons; a humanidade foge quando a repetição se imortaliza: a frase assim, idêntica em voz e tempo, para tantos necessitados de real voz voraz. Não sofre nesses tantos! Beba um copo dágua, inventa pr'ele o sabor que te apraz - beba sim um copo d'alma. 

Mas... que é isso? E só agora eu te percebo em situação calamitosa! Pára com isso, não te revomites ao mundo, isso acaba-te todo! Socorro! É o horror, é o horror! É a dor de um eletrônico fervor! Ó, salva-te à medida que tento te ajudar! Por favor!"

Os olhos revirados, enfiados nos ouvidos, só tinham foco no cérebro, única paisagem definível. A boca, babando escarro em pingos no copo vazio produzia aguardente agudo, desses que cortam gargantas desavisadas. Os lábios, pobres lábios, trancaram-se em sangrenta intersecção de dentes costurando com restos de cílios idosos os pontos de acidentes. Os últimos regozijos de poço esguichavam do rosto daquele homem na forma de espinhas adultas compostas por estresse; o corpo, estirado à cadeira, intacto para reaproveitamentos necrófilos. Um bigode digno de Dalí estampava, em caneta de escritório, as outonais maçãs do rosto.

Dizem os vizinhos que depois ela enlouquecera; que vive de camas, psicólogos e manicômios até os dias de hoje. Mas reumanizara aquele a quem tanto falara. A quem tanto desentendera, desajudara, desesncantara, pobre senhora, gastava horas e horas em tentativas de auxílio àquele desvairado. Era preciso soltá-lo logo, alguém ali perto chamava! Era preciso desamarrar, descosturar, voltar os ohares aos seus devidos lugares! Era preciso desentranhar os sentidos, desestranhar o homem do mundo. Pois não se salva gente sem ajuda dessa gente. A dona senhora catou as mãos baratosas do amigo, tentou desanuviá-lo conduzindo seus dedos pelas encrencas de seu rosto. Não havia tempo; talvez fosse aquela a única chamada, a última das possibilidades, o último vício. "Desmecaniza-te, homem!", bradava ela entre soluços, louca e de subfaces explodindo em artifícios, os braços espalhando-se pela cozinha há horas já ensanguentada, "Não faze-te tal qual a mulher que desprezara-te! Ouve, criatura!"

Dentre restos e carnes, secreções e odores de lágrima, remorsos e hipnoses, as narinas continuavam intactas, na medida do possível. Um cheiro de forno, molho ao sugo, uns toques de parafina e castiçal, toalha rendada. Trejeitos de noite fresca. "Alguém me acuda, alguém me ajuda, não há tempos a perder!" O olfato despertou ao homem movimento próprio, é preciso, é preciso! Subitamente, é preciso! E o desenlaçar-se foi preciso. Tal qual despertar-se. Ainda havia tempo, afinal: O telefone continuava tocando. Bip.