terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempos para cá

no começo a gente era bobo
e nem sabia das coisas

hoje a gente é feliz
porque não sabe das coisas

a gente assovia
finge que sabe
e fica sendo feliz
até que o amor (não) acabe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Infância sem lirismo

a casa em que nasci
não era casa
era apartamento
na Abílio Soares
não-sei-que-número
nem quais andares

acontece que tenho um problema:
todo poeta que se preze
escreve um poema
à primeira casa

mas eu não sou de casa
sou de apartamento
e só depois fui ser de casa
não tinha hortas nem cabras
nem insetos nem goteira
só escadarias e cimento

tenho um problema ainda maior:
não sou poeta
mas tento.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Imortal


Isso aconteceu. E não somente isso aconteceu como também tenho total e absoluta certeza de que é verdade o acontecido – aconteceu de verdade –, pois o ouvi não de qualquer um, mas da própria, da dita cuja, a que fez ocorrer o referido fato, a Velha Duse, que sem ela nada seria. Não fosse ela a abrir a secura da boca fina para me contar a verdade, tintim por tintim, eu, certeza, não botava fé. Não falaria nisso nem para criticar, que não sou gente de dar ibope para o que não vejo graça. O caso foi sério, seríssimo, e daria muito o que falar não fosse o jeito quieto de Duse, que não fez alarde.

Antes que me chamem de mal-educado, já deixo claro que estava a conversar com a velha senhora, cheio de bons tratamentos, e quem me falou para retirar o “Dona” da frente do sujeito, manter o nome como é de batismo, foi ela mesmo, foi Duse, ou Dona Duse para aqueles que ainda pensam que não tenho respeito pelos mais idosos.

Quando soube do caso, tentei recobrar a memória para ver se lembrava de ter ouvido algo. Afinal, Duse mora na casa ao lado da minha, e por consequência nos vemos todos os dias ou quase.

Me mudei para aqui em casa, de onde escrevo e olho através da janela, há bem uns cinco anos, e de mim mesmo pouco mudou. Deixei metade do que tinha no lixo, que me parecia tralha demais, e o resto veio comigo, somente o essencial, para a casa nova, dois andares, vazia. Duse, que no começo era só uma vizinha, bateu em minha porta para saber quem eu era. Parecia cordata, bem simpatia, mas imagino que – com razão – a velha estivesse somente querendo saber se eu, que a partir daquele momento dividiria paredes com ela, não seria nada de muito perigoso ou agitador o suficiente para fazê-la acordar de suas sestas ou de seu leve sono noturno. Sei disso tudo, de seus hábitos de descanso, por dois motivos, sendo o primeiro o mais indelicado: ela bem que ronca um pouquinho, coitada. E também porque escolheu sua casa em arquiteturas altamente iluminadas, com janelas por todos os lados, voltadas ao quintal. Do segundo andar de meu sobrado, podia ver todos os seus pontos estratégicos de sono, mas não pensem besteira não: nunca teve uma vezinha sequer que vi ou tentei ver a Dona Duse sem roupas. Não sou calhorda a este ponto, vejam bem. Mas aos poucos, por essas e por outras, passei a conhecer bem aquela senhora, e durante os cinco anos de estadia pude acompanhar cada mudança de tom de seus cabelos, que rapidamente esbranqueceram.

Se eu estivesse em casa, no andar de cima, teria visto. Mas estava em horário de trabalho, e não vi. Perdi a cena. Dona Duse deixou de ser Dona no dia seguinte, quando nos encontramos em frente à minha porta, eu vindo do trabalho tal qual todo dia, ela com o carrinho de feira lotado de alfaces, couves e cenouras. E um pastel na mão, penso que de queijo, a velha não é boba nem nada! Perguntei como ia, ela ia muito bem (ela sempre vai muito bem), alguma novidade?, ah meu filho novidade é o que não falta!, qual é a nova da vez? E ela me contou tudo, até arrumou o carrinho na vertical, parado sozinho, para não gastar os braços segurando o peso todo enquanto me explicava.

A véspera tinha sido um dia de altos e baixos. Duse não gostava de sol, desses sóis fortes que doem os olhos, e também não gostava de chuva. Quando chove a casa fica toda acinzentada, e somado a isso vem aquele barulhinho de pingos atrás de pingo no telhado, ou seja: quando chove Duse dorme o dia inteiro, se sente velha, se sente inválida, desconfortável, como se estivesse em tempos perdidos. E depois não dorme de noite. De onde ia tirar mais sono? No dia anterior o sol havia se aglomerado nos cômodos, de fazer doer até o corpo, para Duse que já tem suas muitas décadas. E também a chuva despencara, brutal, tudo no mesmo dia, durante a manhã. Os gatos que dividiam a casa com ela entraram em situação de alvoroço. Eram três, todos monocromáticos. E nunca que se aquietavam. Quando o sol entrou, correram pelo quintal, entre cada uma das lagartixas. Não se cansavam. Aí veio a chuva, torrencialidade absurda, os gatos correram para dentro, a saltar janelas até invadir o quarto de Duse, que em contraponto encostava cada uma das venesianas em seu esforço idoso de andar pela cada inteira, que aliás era até pequena. Depois, ela se sentou em sua cadeira de balanço e ficou ali, parada, calada, espiando o movimento dos gatos, que iam de um lado para o outro querendo telhados e besouros. Foram poucos os minutos necessários para que dormisse, a cabeça redonda pendendo para uma angulação torta, diagonal.

A chuva cessou de uma vez, tal como seu início, e o dia continuou acinzentado, porém um pouco mais claro. Duse continuou seu sono, imperceptível que estava às coisas do mundo. Sonhava algo com laços de fita, um baile, cães gigantes, um sonho até que feliz para uma senhora que mal saía de casa para diversões. Sonhava e talvez sorrisse (não há certeza sobre isso, pois quem me contou foi a própria, e a própria dormia), dançava com um e com outro cavalheiro, em rodopios, enquanto os cachorros gigantes integravam o corpo organizativo da festa, se faziam de orquestra, de garçons, de mâitres. Mas isso tudo não importa, se sonhou, se não sonhou, o que havia em seus sonhos de idosa. Só que, se sonhava, embarcava em suas histórias e cada vez mais peso botava sobre seu sono. Não chegou a ouvir a maestria dos gatos ao empurrar a persiana da janela do quarto, assim que os ares secaram. Eles, malucos, saltaram e voltaram ao quintal, onde tinham espaço para serem inquietos e diferentes de todos os outros gatos de velhos, que são sempre dorminhocos e parados.

Depois que a chuva parou, como um fim de explosão, a gravidade puxava tudo para baixo, como sempre puxou. Somado a isso, também havia o mal das águas, que escorria e carregava o que encostasse em seu caminho vertical. Frutos caem no chão, folhas, árvores, fiações e telhados baratos estatelaram-se pela cidade. O que acontece com os insetos voadores quando começa a chuva? Sempre tão pequenos, rápidos, conseguem escapar dos diâmetros das gotas? Ou morrem. Quando cai a tempestade, tudo desaba junto, tudo finge que se acaba, menos os sonhos de Duse, que bailava com um milhão de rapazes diferentes. Os gatos pulavam ao redor da árvore que, fragilizada, semantinha ainda consistente e um pouco mais desfolhada. Eram lindos os gatos. Estavam a se morder, não de briga, mas de brincar, quando dos galhos mais altos e finos da árvore caiu um pardal minúsculo, de poucos tempos, encaixotado em seu ninho. Ou somente no que sobrou dele: o emaranhado de galhos e organicidades estava destruído, torto e fraco por completo. Chegava ao ponto de se esfacelar, misturando-se ao corpo pequeno do pardal imobilizado. Fez um barulho mínimo, o som de um quase nada, mas o suficiente para despertar Duse, que levantou em sua rapidez extremamente lenta.

O gato, um deles, num salto abocanhou o bichinho e correu em fuga até o outro lado do quintal. Sua boca era pequena, mal cabia o pardal inteiro; mais um pouco e vomitava. Aguentava firme, mas não sabia o que fazer, como direito fazer. Começou a morder de leve, e o pássaro foi cessando. Não podia se debater por muito tempo, e parou. O gato forçava um dente, forçava outro, forçou todo seu sistema bucal contra o pequeno animal que se derramava sobre sua língua áspera. Ao mesmo tempo, almofadava com as gengivas e o céu da boca ao dorso do pássaro, e quase o cuspiu fora, assim que o sentiu imobilizado. Mas Duse já estava a abrir a porta de seu quarto, sabia que algo acontecia, mas o quê, levava susto fácil e precisava checar o que era. Se Duse visse o bicho cuspido, o gato lambendo, mordendo, arrancando penas e carnes, não sobraria para ninguém, aí é que seria um deus nos acuda e o gato sabia disso, Duse disse que os gatos entendem bastante bem as normas de convivência da casa. Olhava para os lados e não sabia onde esconder seu novo tesouro. Guardou o corpinho defunto dentro da boca e deitou-se na grama, atrás das árvores, como se fosse mais um dos frutos caídos da estação. Como se não tivesse matado o pardal com as pontas dos dentes. Duse percorreu o quintal inteiro e tinha certeza: algo estava errado – fora de sintonia. Olhou para o canto do quintal e lá estava o gato, separado dos outros, que a tudo ignoravam. Ele correu em disparada, aos trupicões, mas foi encurralado perto do portão alto e fechado. Deveria ter aberto a boca antes, largado o bicho morto na terra, soterrado, para ser esquecido e degradado. Mas tempo não tinha mais. Sua boca sangrava de leve, aquele sangue típico de gato que apronta, e vinha direto dos machucados que levou no atrito interno com o bico do pardal. Duse abriu a boca do gato, as mãos também já avermelhadas, escorrendo, e de lá arrancou o filhote antes que levasse uma mordida ou um arranhão, não por mal, mas por falta de opções. Deu meia-volta e o gato ficou ali mesmo, parado, muito bem sentado no chão de ladrilhos. Seus olhos acompanhavam cada passo da senhora que fazia seu máximo para chegar à lavanderia. 

O pássaro, mortinho da silva, se aninhava em suas mãos de grandes nódulos e veias saltadas. Mais parado que ele, não existia nada, edifício algum que ganhasse de sua imobilidade mórbida. Ela o posicionou sobre um tapete velho, na pia da lavanderia, e se transformou em uma pessoa mais serena do que qualquer lenda de deuses. Tocou com as almofadas dos dedos, bem nas pontas, ao peito murcho do pardal. Não se mexia, definitivamente. E guardou o choro para depois, restando somente o escorrer de lágrimas que se expandia sem balbúrdia, com a leveza de quem respira. Apertou o que havia de músculo no bichinho, tocando não em peles ou pedaços, mas sim em pontos-chave, pequenos botões do corpo que se escondiam pelos tecidos e órgãos. O pardal estava morto e o gato não daria as caras por mais uma meia dúzia de horas. Duse seguiu, chegou perto do peito meio depenado, apertou-o nas costas como a uma marionete delicada. Parecia que sua operação tinha base em um abraço tátil, na proporção dos dedos, e as mãos sendo um segundo corpo inteiro, pleno. Um abraço cirúrgico, estratégico, cuidadoso. O coração voltou a bater depois da infinidade dos segundos, um ecoar imenso se orquestrava na lavanderia, conjunção entre o pulso fraco e velho de Duse e o peito fraco e infante do pardal, que um pouquinho depois abriu os olhos.

Que a morte existe, a gente sabe, a gente já viu, a gente já sentiu no estatelar de algum parente. A morte está por aí, rondando, e matou o passarinho. Duse, sabe-se lá como, o ressucitou. Não acredito em Deus, não acredito em milagres, não acredito em magia, mas Duse, para mim, é um caso a parte. O passarinho já sumiu, deve ter ido embora para o mundo. Mas está vivo, assim como Dona Duse, a Duse, que ressona sua sesta e permanece em vida há muito tempo. Mês que vem fará cem anos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

São Paulo

Maria bonita
ou meio sem-sal
Maria custódia
Maria nariz largo da batata
Maria paulista
medo da polícia
malícia (nos olhos
de quem vê
w x y z)
pelas ruas frias
(e batatas fritas)
onde passa
não qualquer outras
mas essa maria
sofrida
desvazia
mas não rasa.

Maria vive todo dia
em constante
afogamento:
não achou ainda
possível fuga
pro fogo que a inflama por dentro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Carta ao homem

que não é seu
que nunca é feio

não tem que ser grande
não tem que ser pequeno
- é do modo que é - 

que não é dom, que não é dama
que não é cama nem é bom
(que para ter o bom
é preciso ter o ruim)

que não tem um só jeito
uma forma, um só meio

que é de quem o tem:
o seio.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Aquilo que é visto de longe

tudo que lívia não via
eu via e calava
eu
não ia
e amava
lívia
(tão linda!)

amava
sem sossego
sem alívio
sem
nem aconchego
na vida.

domingo, 11 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Malemolência

não era de todo linda
mas era uma moça calma
na timidez das sandálias

eu olhava de longe
com ares deleite
e todos os dias
pairava
a pensar

se era a sandália
quem roçava o chão
ou se era a moça
arrastando a vida.

não sei, não sei
só sei que era calma

como se soprasse brisa
nas próprias pegadas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Às vezes

às vezes
as vozes 
se calam
e lacram-se
aos vícios
dos vasos
sanguíneos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Fogueira

de datas e dias marcados
janelas cortinas espasmos
faz escuro nessa noite
de todos os fogos
- o fogo -
de onde vem minha gente
e o sono da brasa laranja
na nossa noite de paz

dente tantos entrementes
de dores sobremesas e sobressaltos
faz falta um resto de céu
nesses meus gestos de amores

falta faz também
algum gotejar qualquer
nessa agonia sonora de chuva
vento que aumenta e dança
chama atenção
                          sem ser convidado

pois nunca amei nenhum Pedro
nunca visitei Petrópolis
muito menos Pretrogrado
não cogitei suicídio
(por enquanto a vida é boa)
e nem sequer d'uma carta
esperei resposta

pois não tenho afinidade
com nada que seja infinito
(infindável e inferível)
tudo isso que me deixa
deixar para depois,
que me faz
perder a hora

como a janela que perde o solstício
e a estrela que foge
dos olhos de vidro.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Joanas

hoje-agora não é dia
pra rimar memória antiga,
pra declamar más notícias

hoje-ontem já foi
desde as mãos
condoeu-se e caiu
quebrou as pernas

ontem, ontem
semanas passadas
pra quê tantos ontens?
justo a mim
que não tenho nada
nem calada me contento

não sei das joanas que habitam meu ventre
ou se é a maré
a confundir cada lua
fazer uma cheia nos olhos
de tudo que acho
e não sei.

os pontos marcantes dessa meia-noite
disseram que hoje é também
a_manhã
como se tudo embora se fosse
menos esse pingo de dúvida

que me enche o saco.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Metrô

Uma velhinha sentou-se ao meu lado. Ela era pequena e falava baixo, de um jeito mole, mas sempre sorrindo.

- Sabe a propaganda da Ultrafarma?
- Desculpa, oi?
- Pro-pa-gan-da da Ul-tra-far-ma. Sabe?
- Como ela é?
- É assim. A mulher grita "Aristides, não esquece o guarda-chuva!" Eu te vi sem casaco e pensei "Aristides, não esquece o casaco!"

Rimos e conversamos sobre guarda-chuvas e sobre o clima, atéo trem parar na Sé, onde ela selevantou.

- Tenha um bom dia!
- Desculpa,oi?
- Te-nha-um-bom-di-a!
.
.
.
tive.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conceição

há pouco conheci Conceição
comedida, desconhecida
convivente covalente em covardias;
questionou meu nome
e minha sede
os olhos baixos a pairar no chão
em descanso e descaso
diálogo envergonhado

me tomou o rosto
me arrancou as placas das ruas
e permaneceu calada
no estreito imundo da calçada
poeta sem alfabeto
comigo por perto
e
decerto:
desespêro e desespéro
Conceição se pos a chorar nas palmas das mãos
me olhou em último
(lástima!)
saiu a correr seus casos
seus sacos de pão
e eu ainda sem os mapas que me levam para casa
e sem Conceição
pois dela nem sei
se é uma
ou se são várias mulheres
escondidas nos botões de Conceição.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Noite

Hoje a lua acordou míope e não pôde ver os olhos de Luiz. Era escuro ele, esfumaçado, rapaz calmo mas em alto e bom tom; pequenas orelhas e boca larga, na esperança-dúvida de pardo. 

Hoje a lua acordou alta, gigante, maior que o polegar de qualquer pai. E justo hoje, justíssimo justamente, ela se esqueceu dos óculos finos que mal a mal se encaixavam na alvura arredondada de sua face. Estava míope ela ao mundo e, entrementes, sem mentiras, o mundo a ela, revestido da translucidez das nuvens moucas. Não choveria nesta noite clara, ainda que precisada de gotas de água, das bem gordas, sobre os ratos e telhados. Luiz, em sobreponto, chorava calado um chorinho incolor, ensimesmado, por onde jogava sobre si mesmo todas as culpas do mundo. Vez em quando lhe dava esses ímpetos de choro: se entristecesse frente aos outros, só chorava depois quando só, em ruas desertas ou nas madrugadas de cotovelos duros sobre a mesa da cozinha. Luiz fora sempre assim, amanhecia triste? não contava a ninguém. Segredava em manter rastros, restringia-se ao silêncio dos riscos. 

Hoje a lua acordou chateada porque quase cega. Mas triste, triste-triste não estava, triste de verdade isso não, não podia. Porque ela sempre foi o mais branco dos pronomes, não por própria culpa, mas por assim refletir as luzes claras. Por sua brancura, não tinha razão de entristecer. Quase-cega, sem paisagens e posturas e pestanas, fechou os olhos para a cidade escurecida em desestrelas. Desistências? Não se ouvia cousa alguma – sapatos de salto, cochilos, cochichos, risadas – nada afora o soluço que escapou dos grandes lábios de Luiz. Não via, porém, se era bonito ele ou feio, se tinha charme ou graça, se magro ou gordo, se branco ou preto. 

Soubesse ela falar, talvez diria a ele que parasse de tristeza com calmas de choro, que esquecesse toda dor. Mas não disse – porque é muda, não sabe nem cantar. E porque é, acima de tudo, uma lua branca e não pode por isso saber tudo o que já passou a pele escura de Luiz. 

Pouco pensou antes de descer ao chão e fazer subir a maré. Foi com calma, paciência, perolando seu trajeto noturno onde, nas ondas geladas, nadou junto do rapaz por toda a noite. Cada passado instante era que a lua mais e mais se aproximava para enfim ver os trejeitos de quem chorava na noite muda. Os instantes se passavam em parecência cada vez mais ligeira, chantageando de manhãs, e ambos, seja Luiz ou seja a Lua, esmoreciam de leve, aos poucos. Como quem não quer nada. A luz do farol aparecia por trás dos corpos intocáveis pela própria transparência. Entre eles dois, não se tinha mais tristeza: não se tinha mais branco, não se tinha mais preto. 

Enquanto isso, um ou outro por aí insiste dizer que a escuridão na pele de Luiz e maldição, desagrado divino, pobreza, algum fato merecido de, primeiramente, xingos. Também os mesmo são que escancaram os bonitos passeios marítimos da lua como se fossem sumiços por eclipse. Esses todos, que dizem e dizem, nem tem o que dizer, ai. Mal sabem eles as lindezas da volúpia transparente. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Da eternidade

quando eu for uma velha cansada
dessas que assistem novela
e perdem no bingo - todo domingo
não vou cair no ponto-morto
de piscar por longos tempos
como se estivera ainda acordada
e nem vergonha terei
de minha dentadura cadente
decadente.

pois quando eu for uma velha cansada
espero ficar bem velha
e nada cansada,

muito menos casada
com qualquer um que não seja
os livros que você me deu
nos tempos das belas dedicatórias
aos sempres mais delicados
que enfim nem deram certo
mas são talvez mais eternos
que uma velha cansada qualquer.

domingo, 23 de setembro de 2012

Poética

não faz muito tempo
eu me perguntei
que fim levaria
minha poesia
e pra onde tinha ido
essa maldita

fiquei aflita
saltos de agonia
e a safada chegou
certo dia
com fome e carinhos
como se nada
tivesse acontecido

ainda assim decidi
não quero mais ser poetisa.

a partir de agora
só o que me importa
é viver toda
e qualquer
poesia

porque enfim entendi
que ser poeta
não é nenhuma proeza.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ruptura

desde outros carnavais
nada deu nem me tem dado
tempo loucuras estórias
tulipas almoços fragrâncias
amores no fim da tarde
no meio da noite
ou dispor do dia

a única amostra que me deu
foi seu desdém
desordenado

disso
abri mão
joguei fora;
larguei qualquer resquício
e agora
voo.

sábado, 15 de setembro de 2012

Borralheira

baile
brilho
balancê e
beatles;
babado
batom
botão
beleza;

o boy
que deseja
quedê
           ?
           seja
a boca
o beijo
cabelos
no baile

mas dela
                 aceno
                 bocejo
doze badaladas

BYE
BYE

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Resquício

do que foi ou viu
nada mais vale
se aquilo ou isso
malgrados ou malefícios

se jogou do particípio
de toda sua vida
(indicativo)
conjugado ao
                 pre
                 ci
                 pí
                 ci
                 o
                 .

momento presente-gerúndio
muito-menos-que-perfeito
na queda
sem baque
sem fundo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Boca

1. A boca antes gritava
    A boca gemia e seria vermelha
    Não fosse o então brancor
    De sua palidez

2. A boca larga
    - boca delgada -
    De gente sedenta
    Em setenta dentes
    Da boca úmida
    Unida à outra boca
    Falando mais e em dobro

3. Engolindo também o dobro
    Do choro
    E do mal cheiro
    - malfeitor -
    Transfigurador defeições
    Ou foices ou frases
    Os ases da sorte
    Um corte de azares
    No beiço apertado

4. A boca calou-se
    Nos escombros
    C A L A B O U Ç O
    E foi aí que o corpo
    Se acabou.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Questão Literária

quanto existe
de um amor murcho?
quem é protagonista
de um rio sem curso?

não sei, neste mundo
o que me dói mais:
se é o livro ir pro lixo
ou o lixo ser luxo.

injusto
é palavra ter custo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

bússola

virei a noite
inteira
acordada
procurando pelo norte
da alegria que está longe:

talvez ocupada;
talvez morta.

domingo, 19 de agosto de 2012

Poema para Sara Winter

cara sara
(loira e magra)
aqui a carne é quente
mas também
a carne é crua
e grita e canta
e dança e sua
vai além de só uma nua mulher.

cara sara,
agora saiba:
o movimento virá
nas
ruas.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Campos

Haroldo percebeu novos ares
antes de qualquer farol
dos faraós da poesia
nos sóis a sóis paulistas

e riu, noigandres,
nos grandes baús de rima fácil
na poesia de seu dia
                            diagramático
                            dialético
                            diamante
na diária correspondência
carbonal
carnavais de caetanos
palavra por palavra
signo pós signo
sem
si
nem
fi
nal.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Costura

bordei meus amigos
numa saia rodada
de algodão e boas rendas;
                             fazenda.

brotei incontáveis flores de linha
carinho sorriso
teoria na prática
e falta de idade

na dança a saia
                         girou
arre-------------mate
como se fosse um abraço
onde também fui bordada
e de meus amigos matei a saudade

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Botões

abotoei nosso carinho
que-nem vestido de algodão
em menina de pele macia

o carinho desbotou
ficou largado no armário
e a casa do botão
ficou
vazia

sem companhia
nem campainha

de nada servia mais
o tapete de
boas
vindas
(que então se encheu de pó)
e ninguém nem se importou
pois ninguém abriu
a porta.

terça-feira, 31 de julho de 2012

malmequeres

triste foi o dia que
não te vi:
tu saíste em transatlântico
e eu fiquei a ver
                          na
                          vi
                          os

na frente fronte sem ponte de férias
o mar que tricotei nos olhos
quando parada na beira do porto

tu nas eu
           ro
           pas viraste senhor
nas casas de meia-calça nas coxas de cinta-liga

já eu
te dei como morto
segui minha vida sozinha
(e muito bem, obrigada)
diga-se de passagem
diga-se ao pé da
                            e  s  t  r  a  d  a

sábado, 28 de julho de 2012

falls

ponteiro     LEAF
poesia        LIFE
poema        FILE


até que leia e releia
chegue à falência and


LEAVE IT ALL.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

p.s.

mando a mais nova polêmica
acerca do ser-poema,
selo em carta pelo mundo:

mando dez beijos nos pés
indo até o cocoruto
de amor bruto inconse-
                                   quente
conselhos de quem suspira
sustenidos nos ouvidos
(malucos, alucinados
sob as luzes do abajur)

sei de cor e salteado
-- sapato sem salto,
solado descalço --
cada palavra (dis)cursiva
decisiva em nossas curvas

e deixo um p.s., pergunta
percalço de cada pegada
quiçás em sementes insones:
pois 
"onde anda a poesia
nessas linhas de poema?"

(enquanto isso
nossos versos
se abraçam;
qual fossem, do outro,
vereda.)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Conto da despertação

A Louca da Rua, apelido Maria do Pranto, tanto gritou, esganiçada, que tirou da cama o Seu Osaías, e cortou pela metade cada mariposa que dele habitava os sonhos naquela noite. Era mariposa da cor que fosse, grandes pequenas falantes dançavam com as antenas por entre Seu Osaías tão sorridente como nunca antes. Se chacoalhava com a música que saía do farfalhar das asas, mas isso tudo em pirlimpisques foi só piscar os olhos e se acabou -- depois de acordado foi aos poucos se esquecendo de tudo, embrutecendo o tecido da face sem feição, até que só restaram aos dias de hoje uns calmos tiques, meio obsessivos, quando ele avista uma mariposa, ainda que do outro lado da janela (o lado ao qual ele nunca se aventura aliás).

Acordado mais cedo, olhou pela janela, os olhos nauseabundos, e e assistir ao nascer tosco do sol urbano e responder o bom-dia da Louca da Rua, preferiu a primeira opção. Ela seguia choramingosa e de voz fraca após tanto berro, que só acalmava quando a luz do sol amarelava tudo o que havia sido sombra debaixo da amendoeira da calçada. Lá, apertada no canteiro mão-de-vaca, a mulher passava seu tempo de mil horas, roçando os dedos sobre a fibra da roupa todinha em tons de marrom. 

O sol subiu naquela manhã igual a todos.o.s.dias, sem graça de beleza, e Seu Osaías sem graça sem rima só eterno pretérito imperfeito voltou a dormir até a hora do almoço. Maria do pranto morreu nalgum dia amanhecido, em seu voo capenga de asas marrons, na direção de todas as chuvas. Seu Osaías, quando acordou, só soube dizer (mal sabido e assoviando, o maldito) -- graças a deus. Voltou a dormir e sonhou uma infinidade de coisas bonitas que de nada serviram quando acordou.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Velhas palavras

eis que:
            sim;
esqueci
como se
escreve

daquelas velhas palavras
nada mais é novo
nada mais
me serve

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lobisomem


Villa Lobos sumia
toda noite de lua cheia

É que a cada nota perfeita
novidade e céu sem nuvem
Villa Lobos virava outro
virava noite compondo uivos

O povo como um relógio
minguava-se atrás da lua
e dormia feliz na inspiração canina
como se fosse canção de ninar
que vinha por entre as cortinas
pelas janelas abertas da vila

Depois, de dia,
aí vinha o resto da vida
como se fosse cartão-postal
parado
mu(n)do
sem-sal.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Definições

frederico, frederico
então diz que poesia é risco?

pois eu digo que além disso
acima de tudo poesia é riso
ou de gozo ou de nervoso
riso alto ou recolhido

às vezes um cisco no olho
às vezes a queda
                           de
                           um
                           cílio.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Flor chilena

se quero agora escrever
é porque Violeta já quis um dia

nada de poema (re)lento
lirismo parado, sem tempo
sem saber denada

não me importa não saber de mim
ou de ti
mas sim saber do mundo violento
- e vermelho
em que voou Violeta
ainda nem velha
longe das vistas,
rosto de índia
marca de varíola
Violeta pajarita
que não se aguentou sofrida
e morreu (como viveu)
mulher bonita.

há de estar feliz e de estar triste
pois Violeta canta e toca
e pinta e ama
e me faz chorar
enquanto eu, fraca
              (eu tola)
só me faço escrever
uns bobos versos diários
sem voz sem força

pois há de estar beirando a arte
tal qual fosse a própria vida
e nunca (nunca!) deixar
adestrar-se.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conto da apertação

Dinossaurava, com as mãos de unhas roídas postadas para a frente, abanando o vento e o caminho que vinha. Passava lento, complicando-se em cada pegada, e já nem mais as horas sabia ler por detrás dos longos pelos abandonados na era do preto e branco. As costas dromedárias deviam doer grunhidos no chegar cansado da tarde parda de pardais escondidos em vielas paulistanas. O amarelo nas sacadas e portas altas era o outono intocável do centro velho, entre postes de luz apagada, entre o dia que vinha à trabalho e a lua que não fazia questão nenhuma de postar-se parada vendo as vidas se cruzarem em bem-ou-mal-quereres. Ali nos víamos, amarelados pelos abajures da cidade, eu e o senhorinho, que andou tal como andava antes, parou rente à minha vista e tirou o marrom sujo dos sapatos junto com os sapatos todos, enlameados, sobrando de inteiro só o cadarço sujo. Saiu descalço, lento e doído, manchando o chão gelado com um sangue tão mirrado e tanto, nem nele cabiam adjetivos mais. A equipe de limpeza chegou naquela mesma semana e o sangue fraco, esparramado, foi-se em queda pelos bueiros, pelos cheiros do centro velho. Os pés do senhor cicatrizavam de poucos, à revelia das plaquetas precárias, enquanto (entretanto) as dores se enfrioravam cada vez mais. Passou dia, passou outro, e os cadarços, por travessura alheia, resistem segurando os velhos sapatos sobre a fiação, dependurados, espiando a todo tempo a cidade que nem mesmo a lua teve vontade de ver.

sábado, 9 de junho de 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Saga

qualquer quem
cada um
(cadafalso)
caiu da escada
gradual
            degrau
                        abaixo

estrela cadente
em cadeira de rodas
descansa luz
sossega o facho
e se fecha quadrada
no tapete da sala.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Considerando

não é deus quem cria
o mundo o nome o queixo da filha
o vestido as coisas bonitas
a rua a rosa o amor de maria
a chuva de gotas sem rima
em minhas duas mãos vazias
a pedra que em minas caminha
a itabira que guarda adalgisa
lili e fulana e folia
e a sombra da miopia
  o encontro da utopia
e quadrilhas
                   em quadras redondas

pois esse tal deus
já ficou para tia;
pois a poesia
faz quem quer
seja
homem
ou
mulher.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Rotineiro

Li outro dia
que a poesia de Drummond
era ofício;
carga horária e literária

Aí foi que percebi
nas linhas duras, deitadas
nas serifas das palavras
que não sei que é escrever

Não faço mais questão
de letra e ponto final
conjugação conjugal

Abdico da chuva e do amor
esses traumas da escrita
tempo exato do relógio

E me ponho a estar atenta
tentada a toda tentativa
testemunha de tropeços e tolices
a estudar a poesia;
a política e a física
a falta de filosofia:
me proponho.

(caem pingos; eu escrevo
caem noites; eu escrevo
cá em ventos; eu escrevo)
Mas acaba que não escrevo
me acabo cravada em traves

Olhos vendados às venturas
às vivências de poema
e me vendo por poemas circunstantes
circuncidados circulares por compasso
sem história, sem passado nem passante
um apanhado de fonema fácil

Então foi que larguei tudo isso
e fui ver que a vida é bonita
e que há muito o que fazer
e que

        ahhh

Me ponho sem palavras
como quem pensa antes de dormir
mas o sono dos dedos impede os registros
e no dia seguinte não lembra mais nada
só acorda com a sede mais bruta do mundo;

Esquece tudo e
bebe água.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Menina de cá


De todos os tudos, tantos, os fios da meada, as calças com furo, só um sempre é que existia, no meio das incertezas. Daí, as dez estrelas, pouco que seja. Sabia que no céu tinha bem mais que isso, mas as dez já bastavam, e o resto? Era isso mesmo, era resto, era luxo. Barbarita era um amor; mas um amor pequeno - e, não obstante, um amor bem baixo, em comprimento sussurrado. Não que a culpa fosse dela, que nem mesmo era, ela tampouca, onde já se viu coisa dessas; pois vivia Barbarita numa vila pequena, na cidade mas não na cidade em si. Os portões enferrujados eram enferrujados demais e só se abriam de quando em quando, nas horas exatas em que Zé Mandinga sentia fome de pão, coisa que nem sempre acontecia.

Zé Mandinga era; era aliás bem coisudo: a cabeça grande, o pé engruvinhado. Vivia de saracoteios curtíssimos pelos cantos e recantos, ele mesmo um desencanto, e nessas e noutras acabava que ninguém sabia direito o que fazia da vida. É que era Zé Mandinga o mais velho da vila, que por si só já tinha em suas janelas apertadas um tanto de anciões que quando mais moços construíram suas próprias casinhas sobre o chão de terra, e por lá criaram um apego forte, apertado, que nem aos poucos se desvencilhavam do lugar, acostumados que estavam à vida monótona e sabida por todos, que era de todos e a todos pertencia. Zé Mandinga desde sempre fora dos mais avoados, tratando de construir só – e se desse só – o básico da casa, mas fez bem feito, arrumado, os tijolinhos mais alinhados que constelação de noite clara. Na frente tentou plantar um par de margaridas, e no começo até que deu certo, mas acontece que o começo foi um tanto grande de tempo antes. Os dois pés de margarida foram caindo, torteando, até que as pétalas tocaram o chão. A partir daí, elas todas – tão poucas – viraram também chão.

Também a partir desse aí foi que ninguém mais partiu da vila, e Zé Mandinga abriu mão da escassa jardinagem, decidiu por se voltar aos livros muitos, demais, e se embrenhou nos misticismos. A partir daquele aí foi também que todos os moradores se adaptaram à convivência com os insetos, que nem se importavam com a ausência de plantas quando tinham, em toda casa toda cozinha todo bem-perto, vasilhames de açúcar ou de coisas com açúcar para matar saudade do que nem se lembra. E, por fim, a partir daí, um pouco depois, as mulheres pararam de parir, e só sobrou o nascimento de Barbarita, impunemente festejado em cada número da vizinhança com uma alegria pouca, mas um tico maior do que já se tinha por ali.

Daí Barbarita virou menina e moça ainda não, porém já menina era quieta em sussuros, um algo além das quietices de menina que não pode isso nem aquilo nem um nada, não pode nem sonhar com fada nem brincar de espada. A vila nem tão pequena era, mas nem por chuva de milagre encontraria ela algum dos senhores com ancas de brincar de bambolê ou joelhos para correr em pega-pega. Aí ficava Barbarita quieta, aos cochichos, aos cochilos, cantandinho pelas portas das casas vizinhas, fingindo não estar atrás dos biscoitos de leite da Dona Norma ou dos desenhos que o Velho Célio riscava num caderno antigo de folhas destacáveis, para depois ir na casa do Seu Mendonça, como quem não quer nada, para pegar emprestada a caixa de lápis de cor que o homem guardava num caixote de lata azul. Pegava, pintava na mesa da cozinha e deixava o apontador no outro extremo da mesa, para se forçar cada vez mais a não quebrar a ponta do lápis dos outros – tamanho desrespeito diminuir o que já era pequeno, pensava sem querer a diminutiva Barbarita.

 Ô seu Zé, seu Zé Mandinga, Zézínho Senhor...

Ele já dizia não, não mesmo, fora de cogitação, e reclamava das artrites e artroses e de uma ou outra tosse, e continuava a andar pra lá e para mais lá ainda por dentro dos portões, pensando na vida, arrumando torneiras e catando tatu-bolas – isso o que todo mundo via, que uma parte ele sumia e ninguém entendia nada, essa história toda de mandinga.

 Mas seu Zé, seu Zé Mandinga, Zézínho Si'ô, o moço do sorvete acabou de passar ali na rua, não viu?

E não, não mesmo, fora de cogitação, “ô menina caspulenta” e ela reticenciava com um risinho breve semibreve mínimo quase semínimo mas nem tanto assim porque tinha que ganhar confiança de Zé Mandinga.

 E não por quê?

Ela perguntava quase que em sopros, envergonhada, na tentativa final e ganhar uma fração de dia. Mas não, que ele já havia feito as compras e ela não tinha nem porquê nem autorização de sair. Barbarita não insistia; dava meia-volta, volta-e-meia ia dar, e calava a própria voz rouca, meio arranhada de quase nunca falar. Os velhos ficavam diatodo quietos, pairando entre cortinas, e as flores falavam baixo demais para Barbarita ouvir; os únicos que respondiam eram os gatos vira-lata, matusquelas e quebradiços, que ora brincavam ora soltavam só resmungo ou camundongo na porta da casa, e assustavam mesmo que sem querer, sem ferir.

A noite caiu cedo e o barulho emudeceu como de costume, ao paradoxo contrário da cidade pisca-pisca: tudo se apagava na vila, e ressonava com cuidado de não acordar os outros, e do lado de lá do portão os postes de rua iniciavam sua brancura de abajur, que de longe se enfileiravam, na ideia de que uma só lua não bastava para contentamento geral. Dormir parecia um impropério, desperdício, despertável, navegável, mas a janela fechada da pequena, que se abria (quando aberta) para o muro arrastivo, não dexava passar nem os tais dos gatos, que cantavam e pediam e repetiam do lado de fora, em coro desaforo pelo menos para espantar maus agouros. Daí ela dormia cochilando, sempre cochilando, cochichando sua rouquidão.

Zé Mandinga acordava mais cedo que todos para ficar pensando muito sobre as coisas do mundo, os tijolos, os cadeados, as calçadas mal projetadas, o resto de erva daninha que insiste em sempre infernizar do lado de fora, bem na porta do portão, o que se passa com Dona Luzia que anda meio louca e ruim e moeda, e o que se passa com os escombros do Haiti e com o que lê no jornal por conta própria. Na verdade Zé Mandinga é respeitado por todos os moradores da vila e na verdade de verdade é assim meio mal-visto, meio tido por ridículo, por se encafuar por aí, por pensar um bem tiquinho, por sumir e ser mistério e ser dos moradores o mais sério e velho e inquieto e por ter construído o próprio teto sem uma goteira sequer nunca na vida. Pois o homem entendia tanto que quando amanheceu saiu voltou como que ressucitado, citando cantoria de modinha antiga, trouxe pão e coisa dos que pediram tal favor, esperou dona Marícia voltar de algum lugar e fechou as velhas grades de novo à chave. Sentou no banco de sua varanda e esperou, separando feijão.

Complicada essa técnica de separar o feijão – demanda olho e frieza, mão rígida e desatrapalho para não tirar nem deixar de mais, o que faz mal e o que é só meio feinho. Zé Mandinga durante o separo do feijão não só pensava: raciocinava, tinindo, atinando, e tudo que saía dependia do dia: às vezes feijão problemático de menos, à vezes demais problematizado. Quando Barbarita acordou e saiu da porta fininha de sua casa, do lado mais pra lá, sentiu o ar friorento, desventado, voltou-se e revoltou-se sem rebeldias, aturando a suave gelidez. Andava lenta, apertada em si mesma, e foi chegando até a soleira de Zé Mandinga com uns fiapos de tecido colorido para se distrair. Ele de pronto entregou um envelope branco, feito de papel grampeado, e de lá ela retirou com olhos baixos um folheto bem chinfrim, em preto e branco e papel jornal, do circo do litoral, que chegava para temporada.

– Eles já montaram tudo, a lona e tal e coisa.
– É de dia?
– De noite, lá pro comecinho, mas já noite.

Barbarita ficou quieta, roçando os mindinhos nos feijões já escolhidos. Olharam uma pro outro, outro pra uma, uma pro feijão, feijão pro outro, feijão e todos e o feijão podre escondido sem olhar para ninguém. Zé Mandinga ficou impassível como sempre, os pêlos da sobrancelha beirando tocar os cílios, enquanto a menina visivelmente fechava a cara. Os labiozinhos inocentes, sem nem saber o que é lábia, labuta ou máfia, se trancaram enquanto o olho baixo se encaixava em outro ponto sem importância alguma, em fuga muda. Barbarita se subiu numa raiva enorme e roxa, por completo ilustrada, maquinando maquinando maquinando na cabeça pequena de pessoa pequena que era e seria por mais um bom tempo. Ergueu a mão num lance rápido – num átimo – e fez jorrar os feijões já selecionados direto ao chão, em mistura mais-que-pura aos grãos podres e renegados. Zé Mandinga não estava de todo perplexo; no íntimo sim, embora por fora se forrasse sem foco na velha cara de máscara, parada, idosamente desvairada e também um pouco caída nos lados. Prosseguiu sentado enquanto a menina se levantava e arrumava a velha saia de veludo que se engruvinhava à aridez da meia desfiapada.

Ela se sentou no canto mais longe, na ponta dos longos degraus, onde ficou se remoendo na mudez matutina, matutando enrouquecida. Achava um absurdo aquilo tudo, a pensar que aquele Zé Mandinga era mesmo um homem ruim, ruim de todo, pois porque mostrar o tal papel se de nada serviria, se ela não poderia ir ao circo nem de dia e imagine só durante a noite, e se ele que podia deixá-la sair não deixava nunca. Era mesmo um sujeito ruim, só podia ser, para fazer piada assim da cara dela, onde já se viu pior humor em cima de criança menina, que nem ao circo podia ir nesta vida?

O resto do dia se arrastou feito vestido de noiva abandonada no altar. Desse modo, arrastado e arrasado, se esvaiu na noite que dormia cedo. Barbarita desde aquela hora não trocou sequer palavra com Zé Mandinga, que ficou só olhando de longe enquanto fazia suas aividades do dia: distribuía mantimentos pelas casas, trocava ideias com a vizinhança e com a sua nova muda de azaleia no jardim, consertava um fogão uma pia um motor de motocicleta e sumia por aí – bem mais aí que se encontra por lá – com um plural de livros por baixo dos braços esqueléticos.

Durante a noite, as luzes da vila se apagaram e não adiantou nada. O resto da cidade estava inteiro acordado para ver o que ia acontecer no circo, que nunca antes havia aparecido por aquelas desconhecidas – quase sumidas – bandas. Mas nem tudo ainda estava pronto, um corre-corre ao redor da lona estendida evidenciava todos os artistas em si mesmos, ensimesmados em conjunto, limpos de maquiagens e figurinos coloridos, atrás de escadas e fios e fitas e paetês e mais uma porção de cacarecos que ninguém além do mágico sabia direito para quê servia. Barbarita de sua janela não via nada, mas pelas frestas de sobre o muro um pouco de luz e burburinho chegavam. Dormiu rápido, num tris tristonho, de angústia recatada, e não falou para ninguém nem da graça desgraçada de Zé Mandinga, a quem a partir daí ela iniciou uma missão de mau-humor, nem do circo que chegava. Parecia até que tinha vontade de sair há tempos vários antes, e pisar em cocô de cachorro alheio, e soprar dentes-de-leão nascidos no canto das calçadas, e atravessar a rua de mãos dadas e ver por acaso o instante exato da noite em que os postes de luz se iluminam. Essa vontade, porém, só apareceu em seus olhos naquela tarde passada. Já tinha visto o circo na tevê, não o circo propriamente dito – o símbolo, o ser, o estar do circo em circo, circo em si –, mas um ou outro malabarista nos programas de domingo, ou num filme desses de cachorro que passam durante a tarde.

Tanto faz como acordou e como passou o dia, pois continuou como estava antes, descontinuada e contida, descontaminada de um quê que ninguém sabe – ninguém lembra. O importante é que deixou Zé Mandinga de lado, e só o viu quando o tal tocou sua campainha para entregar o pão de sua mãe. Ela pegou o saco, soltou um murmúrio de obrigada e fechou a porta sem nem tempo de respostas. Depois o dia se acabou e os barulhos do circo, mais fortes do que a véspera, pareciam esperar-se para a chegança de Barbarita, com um tanto de alegria que não tinha. Dava para ver do lado de dentro do portão, sentada na soleira da casa, do outro lado as crianças passando com o pai a mãe a avó o avô ou quiçá a vizinha carente, todos de roupa de domingo que Barbarita só usava nas rezas dentro de casa, porque de lá não saíam nem para a igreja cujo menino santo a mãe tanto estimava desde que a mãe dela a ensinou a estimar.

– Bárbara!
– Hum?
– Jantar, vem.
– Tá.

E ia. Ia indo, gerundioso passo a passo rastejante porém de pronto ali, quando virou para trás e viu a bicicleta amarela, que há um quarto de hora havia passado reto pela rua, voltando e parando bem na frente do portão, encostada e visivelmente bem-cuidada (como dava) por um rapaz alto, de ossos opacos ante a pele, meio desarrumado, com ar de desamarrado. Não tinha bochecha quase, de tanto esfomeamento acumulado, daquela hora que chega que, de tanto vazio na barriga, a fome desiste e passa como coisa simples, como chuva de verão, e assim se segue a vida vivendo, vivendo, vendo, indo. A coisa foi rápida, o tempo pouquíssimo de o tal do moço parar, deixar um papel entre as grades frias do portão, tocar a campainha uma vez duas vezes e sair direto, sem nem para trás olhar. A história ia ser de amor, Barbarita a pulular até o portão velho, acabado, e pegar o papel onde estariam muito bem caligrafadas as palavras de algum poema belo e platônico de doer os olhos, cada letra mais redonda que a outra, respeitando a margem da folha de carta muito da bem pautada. Ia ia ia iria ninguém ria porque ninguém estava por ali naquele instante oportuno. Quieta saiu correndo, quieta voltou, desacalmada, com o papelito dobrado na mão. A mãe, àquela altura, cansara-se de chamar e fora até a porta descobrir o que acontecia que a filha ora bolas nunca foi de muito atraso, sempre veio em hora exata. De forma que Barbarita só o que pôde fazer foi soltar sem querer um soluço de angustia pareceu um arroto suave de certo modo – ou de falta de modos que tanto a mãe implicava. Não podia encostar os cotovelos na mesa, que coisa feia, e assim de mãos sob a mesa foi que abriu o papel e não passava de mais um chamado ao Circo do Litoral, dessa vez oficial, e o tanto de tons de cinza economicamente mal impressos dava a entender que ao vivo as cores seriam muitas. A mãe não estranhou, e logo mandou que a filha fosse dormir. Ela ia de qualquer jeito, que a vergonha não a permitia abusos de pedidos, e ainda mais para o durante a noite! O céu estava frio naquele tempo escuro, encurvado, quase turvo. Mas do lado de fora, ah! do lado de fora. Do lado de fora não era nada que um gorro na cabeça não arrematasse. Não era frio de matar nem morrer, isso sim muito menos, mas na sozinha vila incomodava talvez bastante além do que no resto da cidade. Deitou e esperou o sono, as persianas de madeira abertas e o vento beijando o vidro em logo primeiro encontro direto. Do sono não vinham nem os carneiros. Deitou e esperou os gatos, nem unzinho chegou. Deitou e esperou o beijo da mãe como se tivesse beijo além da benção no pé da sala. Piscou e piscou mais lento, brincando de ver chegarem os cílios frente aos seus olhos opacos, fortefracos como caco de vidro. Aí começou a música e apareceram por cima do muro as dez estrelas de cores amarelas, vermelhas e roxas, rodando pela refração torta da janela. Só acordou no dia seguinte e não contou para ninguém. Não fez questão de falar com Zé Mandinga, mas sentou em sua soleira para olhar sem parar o portão, até que a chuva largou seus primeiros pingos. Se assim continuasse, seria a próxima noite uma solidão sem estrelas, nem uma duas dez. A noite que se seguiu dormiu rápido, desmantelada, antes de o circo se arranjar e estrelar. O céu, um papel molhado, caindo pedaço.

**

Já na última apresentação da semana, o portão enferrujado se abriu de leve depois das oito da noite, mas abriu bem pouco, o suficiente para passar escondido, depois de uma ou outra conversa, o corpo magricela de Zé Mandinga seguido da pequeninice de Barbarita, de roupa bonita para ver de perto as dez estrelas e o riso de dentes e a pipoca desdentada e quem sabe até ver de longe o tal rapaz daquele dia, em segredo absoluto. Mas dele último só achou a bicicleta amarela, num canto molhada, esperando rouca e quieta, a olhar para as luzes restantes do lado de fora da lona, na cidade inexplorada.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sesta

(sobre o de García Márquez)

dia desses me vi sonolenta
piscar lento
desatento
em releitura do relento
me deitei sobre um bom livro
nas palavras desmedidas
despudoradas
em cada letra deitada
nas curvas, tipos de leito
(qual leite morno antes do sono
não muda nada
e afinal bem faz dormir)

já quase dormia fundo
assobios no nariz
os dentes se entreolhando
de cílios (c)errados
compenetrados sem pudor
na capa da pálpebra

pois perdi a minha página
e não sei mais onde estava
para onde foi o parágrafo
semáforos em que parei
antes de raiar o dia
antes de cair a luz.

domingo, 13 de maio de 2012

Trilhos

parei
para pensar
perdi o trem

fiquei por lá
fui bem além

para onde?
já nem mais sei

mas continuo contudo
contente descontentada
exponencial cotangente
a tanta gente
ao mentecapto
sentimento
até que o próximo trem
chegue.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

passarinha

ma(is
colibri
curió-sa
anu-dez
noitibó: noite e só
rouxinol
saurá castiçal sarau
pequeti-tico-tico
mim-ti-tuim
realejo
bem-te-)vi
por entre as roseiras.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Navegação

ri ma
        ria

e baila
na baía
dos gracejos

e faz a mala
choro muxoxo
comida entrouxada

e canta mar afora
mas canta feio
e para a canção no meio
ah que pena
mas prossegue

chega noite
lua cega
de tão grande olho branco
que ri triste manco riso
e pisa na água
e desliza nela
maré

mesmo (as)sim
re mar
          ia

e foi.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poema de quebra

se o quarto está escuro
pega um prego e martela;

a luz vem do furo
que é,
de quebra,
janela.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Comissão da Verdade


-

não peço
meias verdades
meia boca
meia furada
mentira pela metade
se é que isso existe
metonímia parte
                        por
                             parte

:

só peço
sua opinião
palavras ou gestos
qualquer manifesto
              ato de rua
              protesto
uma tarde de lua
de luta e de festa

!

uma noite de luta
tiro de policia em sua testa

.

me despeço
assim como a rua
despida de carros
tomada por gente
sangra do seu sangue
vermelho
              quente
e a mudança ainda
ven
      ta

(

pois me despeço

e a memória não
se despedaça

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Reacalanto para Chico

( depois da noite em que o vi cantar ao vivo)

Hoje acordei com quereres
de saber mais de Chico
mas o homem, pretérito do velho
(qual novo Francisco)
mas o homem, tímido e mordido
não se diz

Acordei
com os ouvidos em xique-xique
e quero falar de Chico
aqui lá aos quatro cantos
Chico já desbigodado
Chico já sem Marieta
mas com nova namorada
pra mandar "beijos para os seus"
e também beijos ao Chico

Mas o Chico como está?
Está cá, está tranquilo,
depressivo ou além mar?

Chico está tipo assim
(tipo pra vida inteira)
ou será que está só feliz?

Quero saber de Chico
se anda fumando
se anda nas ruas
se anda desandado
(mas acho que não)

E bater um papo
falar sobre o Gabo
trocar um cinema
saber como vai essa vida em Paris
e o que ele acha desse Sarkozy
e o que ele acha daqui do Brasil

De Chico eu quero um pouco
daquela monotonia
daquela monocromia
e um pouco daquela alegria
que é dura, que é flerte
que é o errado do certo
o vice dos versos
a pinta dos restos
a ruga dos cantos
essas cantorias
de voz e de estórias
poesia tão prosa

Pra saber de Chico
há que nascer um pouco
há que fazer-se louco
e depois se aguentar
e há que saber de Milton,
Bethânia e Jobim,
Vinicius e Lula
e da quase Tropicália
quase carnaval
fase temporal
e as tantas mulheres
e o tanto cansaço
e o tempo do maço
e o que não é fácil

Hoje acordei para saber de Chico
nem pouco nem tanto
mas como é de noite
e eu não sei de nada
vou dormir em Acalanto
pr'amanhã me levantar.

sábado, 21 de abril de 2012

Maternura

Mara, Marina
moça moribunda
mulher maltrapilha

amor bugiganga
de mãe
             para filha.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

edgar

uma noite fria
para ler
            allan
            poe
                 sia.

terça-feira, 10 de abril de 2012

ego de casal

querida eu
                nice,
queria constar
que somos só um
eunice em mim
eu em eunice
(parece bonito
e no entanto difícil)

pois para que
demarcar nosso fim
se eu sou nem nome
se eunice é de si?

o amor com eunice
vai festa, é feliz
é fogão à gás
quando acaba a luz

assim
(cada um por si)
seguimos
eu e       eunice
tudo numa nice

sexta-feira, 6 de abril de 2012

num passeio nas pocilgas
passa guerra passa paz
ela pessoa
     possível
     sem pressa
passo-a-passado
lento compasso
anda para trás
em pés descalços
revira pestinha
uva passa e passanel
escolhe as memórias
recolhe os abraços
(lembrete de nuvem)
no ver
         dadeiro
ou falso.

domingo, 25 de março de 2012

Que(rer)

Às vezes eu acho
Que não falo
                     - te amo
Pra não dar o braço a torcer
Pra toda a história não se distorcer
Pra, enfim, ficar mais tempo
Junto de você

(E o amor é coisa pequena
nesse mundo de lunetas,
cliques, pixos e clichês.)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Casos

Passo um tempo a esperar
A hora em que você me busca

Ver a calma escuridosa
Na cidade cedo adormecida

Nós acordados com o motor do fusca
Sem lembrar de falar de amor

Como se idade fosse música
Como se fosse
                        nada além do que for.

domingo, 11 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Porcelana

Pequena, seis anos
Uns cachos com trança
Mão dada na mãe

O peito com bojo
A tinta nas unhas
Dez dentes de leite

No pé, salto alto
E a mãe se distrai
A pequena tropeça
Se rala no asfalto.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Conforto

à querida Giu

Só acho engraçado
Esse tanto de coisa que a gente nem ri
E acha engraçado

Vejo graça nas histórias
No erro besta que dá certo
No que é feio mas é belo

E vejo graça demais
Não na menina
Mas no jeito todo dela
Como se fosse ela nuance

E vejo graça em seus passos
Seus causos, seus risos
Seus sisos, seus sinais

E nos ossos magros, marginais, das mãos
Na lembrança vermelha dos óculos
Que nem sequer cheguei a ver

Vejo graça nos traços da menina
Seus carinhos tracejados
Ela muito gracejada
Mas a todos rejeitando

Menina de riso
De prosa, de ponta
Menina de tanto e intento
Se lança aos bons ventos
Depois pede calma

É que acho engraçado isso tudo
Falar sobre amor
Amar de verdade um tanto de gente
Nas horas que dá

É que acho engraçado esse medo
Dos palcos que vêm
Do pouco a perder-se no nosso jardim

Como se a menina não visse
Ou as borboletas não viessem
Mas vêm, amarelas, em rimas
Dançando ballet no jardim

Porque não deixa de ser engraçado
Essa tal coisa de amor
Que faz choro, faz arte
E adubo, e saudade

Acho mesmo muita graça
E nada, nada disso passa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chuva de irmã para irmã

Vamos fazer silêncio
e ouvir a chuva
-
Fazer silêncio para cada gota
uma por uma
-
Vamos pensar na morena
que vai à janela e fuma
sem medo de se ensopar
-
Vamos chorar de lembrar
da sopa sofrida da mãe
muita água e mistura nenhuma
-
E vamos lembrar das fotos antigas
eu você roupas de bailarina
pensando num mundo de plumas
-
hoje não tem arco-íris
mas tem um par de lacunas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Primeiras palavras

faltou (mais)

lar
dessa boca
sem
       sol

entrecortada
entrechuvas
a voz saiu
rouca
louca
pouca
fracarinhosa
        tinhosa
        sem ninho

dia-
     logo quieto
eu desbocado
     labiaberto

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Léu

Enquanto eu
                     rio

Você aí
              tá mar
                        assim
                        sendo assunto
                                  atenção
                                 (assumpção)

p_ mudo
e mudança - mais dança

fon fin fan fin fria
até que a luz ia
(s)e foi pro beleléu

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Não é nada grave

se a poesia não pesa
se poeta flutua
imagina então nós dois juntos
na lua.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pedestal

a moça que desce a escada
desce com calma
cada passo por passo
(quase salto)
aos poucos bocados

a moça que desce a escada
não sabe o que faz
(pouco fala)
não diz quando falha
e sorri, e se espalha

a moça mal desce a escada
faz charme
torna um segredo suas carnes
vacila um tropeço no ar
e morre de enfarte
enquanto o corrimão de prata
prossegue intocado
como se fosse obra de arte.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Incrível

A um tanto de gente
(incluindo Gabriel, Giu, Ian, Ive, João, Lau, Lulu, Marcelo, Melyna, Nicole e Roni)




Em casa de minha vó, o tempo passava de óculos escuros. A vó saía quase toda manhã, enquanto eu estava na escolinha, ia ela pros seus afazeres e religiosidades, e nesses tempos de ultravioleta não havia outra saída senão proteger os olhos, justo ela minha vó - que, não bastasse ter de acompanhar a morte dos oito irmãos, ainda tinha que, naquelas épocas, ver chegar a catarata na vista de várias amigas. Quando voltava para casa, a idade já perseguindo-a, esquecia-se de guardar a televisiva armação de plástico vermelho e não percebia a escuridão nem quando a noite chegava, mesmo sendo o apartamento (e aliás a cidade toda) de uma luz um tanto sombreada. Era nessa hora, ainda bem, que chegava do trabalho a minha mãe. Ela de pronto lembrava à vó que tirasse os óculos escuros quando chegasse em casa.

-Mas eu esqueço!
- Mas tem que lembrar!
- Mas eu nem percebo a diferença!
- Mas faz mal, dá depressão, tudo o mais. Enfim, não pode, mãe.

Minha vó saía com passo de formiga, esbragoando baixinho e de cabeça baixa, como sempre fazia, honrado o ditado que diz "estava eu com meus botões". Ela bem rápido voltava, com medo que minha mãe acreditasse muito nas manhas dela, e conversavam por uma ou outra meia hora. Depois disso íamos embora, e assim se repetia sempre, senão isso, bem quase. É que, como minha mãe e meu pai tinham de trabalhar, desde pequena eu passava as tardes na casa de vovó, bons tempos de gibis, uns punhados de Lego, manteiga fresca saindo pelos buraquinhos do biscoito de maizena. Era um apartamento todo rendado o de vovó, ela enérgica por todos os cantos, atrás do gato meio pirata, meio doente, que em um miado esganiçado já me botava pra correr - eu morrendo de medo porque afinal o gato era mais velho que eu.

E a tevê, movida a bombril, hesitava entre o canal dois e, se não me engano, o nove, num troca-troca entre as mestras da culinária cujas receitas minha vó sempre mudava uma coisinha ou outra por puro capricho, e os programas infantis que eu selecionava como se seguisse uma linha política. Nada de pokemón, dragonball, digimon e outras violências de olhos puxados, nada de espiãs, desenhos frufru por demais, nada de gente fantasiada de banana. As tardes eram um festival de ra-tim-buns. Foi também na casa de vovó que, certa feita, descobri uma velha série chamada Anos Incríveis, que passava todos os dias no mesmo horário - e eu assistia sempre. Adorava me sentir mais velha vendo as histórias daqueles meninos do ginásio americano, todos com uns poucos anos a mais que eu. Não achava que as pessoas pudessem crescer tão rápido como na tevê, não entendia porque o pai de Kevin era tão inconstante e ao mesmo tempo conseguia se manter com a pose de chefe de família. Adorava acompanhar os passos libertários da irmã mais velha, Karen, que sumia de casa para suas riponguices. E adorava perceber como Paul, o amigo magricela e esquisito, conseguia ficar cada vez mais bonito com o passar do tempo - como se fosse se ajeitando por si só. E adorava ver como eles andavam juntos o tempo todo, mas mesmo assim tinha uma ou outra coisa que não havia meio de eu entender naquele programa, e guardava a dúvida comigo, que não era lá coisa muito preocupante.

Não entendia porque é que Winnie Cooper e Kevin Arnold não se juntavam de uma vez. Afinal não estava na cara que os dois se gostavam? E não entendia como diabos aconteciam as tais férias de verão. Lá, as férias de verão eram uma época consagrada pelo tanto de novas pessoas, passeios diferentes, crescimentos bruscos, emocionites e paixões de temporada. Mas pra mim, quando pequena, não passava de um pouco de mar no litoral paulista com mãe e pai. Ainda nesses tempos visito a vó, que nunca deixou de morar longe de mim, e aliás hoje em dia vive com gatos muito mais amáveis e mais novos que eu. Vira e mexe assistimos juntos, eu a vó e os gatos, a algum filme, mas nada de Anos Incríveis. Depois de um tempo a tevê os tirou do ar e nunca mais voltei a ver Kevin Arnold.

É até engraçado que depois de todo esse tempo eu me lembre disso tudo, ainda que eu exagere nessa coisa do tempo, porque na verdade não tenho muita noção de relógio e de muitas outras coisas. E ainda hoje sei bem que sou pequena, a mais nova entre os amigos todos, tão entendedores eles de um tanto de coisas cada um, um pouco de arte, de física e mecânica, de história, cinema e de cantorias, e eu aqui meio besta. Mas é que adoro me sentir mais velha (ou então na idade certa) quando perto dessa gente toda, e adoro conversar com o Marcelo no caminho de casa, num abraço contínuo que não pede nem explicação, e adoro ver como a Lulu, que era um pouco mirradinha, embonitou de vez. O Ive ainda quebra as agulhas da máquina de costura mas, ainda bem, não deixa de aparecer de surpresa na porta de casa. O Gabriel fala bonito de um monte de coisas que eu nem entendo, a Giu virou poema e tudo ficou maluco de uma hora pra outra.

Adoro acompanhar cada passo libertário de todos juntos, e pensar igual sem querer pensar. Nunca me esqueço de um episódio em que o Kevin e o Paul, no auge dos tempos de ginásio, devoraram escondidos uma enciclopédia inteira sobre sexo, interessadíssimos e ao mesmo tempo morrendo de vergonha um do outro. Eu, no sofá da vovó, não entendia boa parte, e o que entendia acabava por ficar vermelha de vergonha - ai que boba! A cena renasceu semana passada, quando o Ian apareceu com um gigantesco Guia Sexual da Mulher, todo orgulhoso do tanto que já tinha lido em tão pouco tempo, esse menino bonito, e daí todos entraram na fila para ler depois. É que adoro os agoras de nós, e adoro o verão que nos deixa voltar à nudez. Adoro também entender quando a Laura é um pote de doce, daqueles em formato de bichinhos, ainda que às vezes quebrado, mas que dá para consertar fácil, fácil. E adoro me sentir em casa quando não estou de verdade em casa.

Agora também acho que eu entendo um pouco mais a demora do tal romance do Kevin e da Winnie, que tem a ver com não dar o braço a torcer, e na verdade não passa de medo de amor - um medo besta para caralho, sejamos francos. De resto só posso dizer pouco, pois essas palavras tão pouco têm de poesia, ainda que todo meu pessoal compense essa minha ausência de lirismos. Enquanto fico aqui feliz de passar meu verão com esse bocado de gente, hoje minha mãe ouvia distraída, sem nem prestar atenção, a música manjada que abria o programa na voz de Joe Cocker, bem menos piegas que no balancê original dos Beatles. Não cheguei a ouvir a música inteira, e ainda bem. Esse é o tipo de música (maldito tipo) que gruda na cabeça e fica até a semana seguinte. Segunda-feira voltam as aulas.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Insônia

seu Ademir
(ideia devir)
demora - demais -
para dar a entender
o que dói
o que dança
o que é sem par
o que quer dizer
em seu densamento
de tanto pensar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os dois juntos

Amor depende do ponto
De vista:
Para alguns,
É igual cuidar.

Para outros,
Dar o cu.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Retrovisor

e nem por um triz;
mas por dois:
quando você veio
e quando depois se foi.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Janelas

joão
um homem normal
lia jornal
              mas só as manchetes

joão
jogou tudo pro alto
num salto saiu
de seu mundo abstrato

e
  tudo
         virou
                 poesia
                           concreta.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

todo dia ele faz tudo sempre igual

  dívida com
  a vida é
  deixar
de       ver
    pelo
  dever
de     todo dia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

E se

Eram irmãos siameses
Que muito e muito se amavam
Até que a separação
Os deixou bem de saúde
Os deixou só na saudade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tu presencia en las paredes

Os pais não pensavam grande nem pequeno, pensavam na verdade numa simplicidade que não pensa nem nada nem em nada. Mal sabiam eles que se abster da opinião, naqueles tempos, já era o necessário para aceitar e inclusive apoiar. Achavam melhor não se envolver e não pensar no assunto, prosseguir no todo dia de trabalho e mercado e relógio bem ajustado para não dar confusão. O tempo era curto para o pai chegar em casa e qualquer atraso já era uma complicação, justo ele que tentava com todas as forças não se envolver com coisa nenhuma. Vicente esperava o pai, sentado no colo de algodão da mãe, ouvindo-a sussurar medinhos, aquilo tudo todo dia. Não entendia que tantos não-me-toques os adultos tinham todo tempo, mesmo que assim o fossem desde que ele se dá por gente. E não entendia um tanto de coisas, normalidade de seus cinco anos, mas perguntava o tanto de coisas um tanto demais. E não entendia também que mal havia andar na noite da rua, no labirinto largo das ruelas amareladas da cidade.

- Faz mal? É perigoso? É feio?
- Não pode, Vicente.
- Mas e se precisar sair? Se acabar o pão e a gente tiver que sair para jantar?
- Depois do horário não pode, Vicente.

A mãe estalava um beijo na bochecha redonda do pequeno e ele abraçava em resposta, já percebendo que suas tantas perguntas continuariam só perguntas e, além disso, continuariam tantas, tantas demais. Ele pensou e tentou um pouco mais.

- Mãe, mas me explica. Não pode ser perigoso porque, abre a janela e vê lá, tem um monte de guardas na rua! São tantos guardas que não tem como acontecer qualquer coisa ruim com a gente, mesmo sendo de noite.
- Chega desse assunto, agora. Já falei que não pode sair de noite, não falei? Então pronto.

Ela levantou Vicente do colo e, erguendo-o meio desajeitada, arrastou o pequeno até o quarto, meio risos, meio irritada. Mandou que botasse logo o pijama, limpasse os dentes com capricho e se enfiasse direto debaixo dos lençóis, que no dia seguinte tinha aula. O menino estrebuchou de leve, disse que queria esperar o pai chegar mas a mãe disse não, nenhuma palavra a mais ou a menos, nenhum ponto. Ela tinha essa mania, esse jeito de ser um pouco tanto faz, que por isso se expressava na ausência de pontuação em qualquer uma de suas frases, fosse alegre ou fosse triste. Por segurança, preferia manter sempre a mesma expressão de quem não sabe de nada e não quer saber mesmo. Era pena, porque tinha o rosto bonito, de bochechas contidas e nariz bem arranjado. A boca fina e apertada tinha um tom bonito de rosa, como se houvesse acabado de passar batom, mas se calava na maioria das vezes. Apagou a luz do quarto e deixou Vicente dormir, enquanto ia à sala ler suas revistas e esperar o marido que deveria chegar muitíssimo em breve.

Vicente, deitado na cama, o lençol coçando-lhe o queixo, sempre demorava para pegar no sono. Ficava pensando e deixava o tempo rolar, os olhos fechados sem fazer nenhuma força. Nem percebia porque era menininho e porque ninguém de verdade repara nisso, mas seus cílios longos pousavam um sobre o outro como num flerte, como se nada mais houvesse e o país estivesse sorridente. As pálpebras, já acostumadas com o teor das noites, não se moviam nem um átimo de susto quando começava a música. Era baixa, em tom de sussuro, mas ecoava por todo o quarto pequeno de Vicente também pequeno. 

Até pareceria, caso Vicente já houvesse crescido o suficiente para perceber, uma cena de cinema tudo aquilo, quando visto pelas lentes mais adequadas. A maçaneta girava e rangia alto que nem tudo naquela casa meio velha. Que nem tudo naquele governo de ideias velhas, nem um nada condizentes ao tanto de alegria que antes andava o país -- não um pedaço do país, mas o país por dentro, nas entranhas, e por conseguinte também o alrededor do país. O pai dizia boa noite, comestá?, a mãe respondia que "igual, ainda bem" e os dois juntos se calavam para um abraço. Os passos de encontro faziam ranger os tacos do chão em sincronia às músicas da casa ao lado, sem  nem perceber, mas só Vicente, que dormia no quarto da ponta, ouvia tudo. As casas eram germinadas, espelhadas sem querer, ficando a cama estreita de Vicentito meticulosamente simétrica à do vizinho, que mudava todo o tempo. , que ouvia música toda noite antes de dormir.

Uns anos atrás lá vivia um brasileiro esquisito, que com o tempo e o decorrer das  coisas sumiu de vista, foi-se embora para outro país dessas latinoaméricas. Seu Juci era um velho orelhudo que passava um tanto de tempo fora de casa. Dizia um espanhol duro, carcomido, coisa comum de quem não se acostuma a trocar de língua assim tão de repente. Não que falasse muito, porque preferia não. Morava sozinho na casa ao lado, ouvia música durante a noite e não tinha mulher nem empregada, por isso Vicente ouvia pelos corredores de ouvido gordo a mãe já falando que era muito esquisito o vizinho, que não tinha ninguém consigo, que com certeza vivia de erradagens com revistas de homem e malandragens politiqueiras. Dizia isso a mãe, sem nem saber direito do que falava, e logo ruborizava, ao contrário do menino, que achava aquilo tudo muito engraçado, mas ai!, ai dele se risse! 


Depois que Seu Juci foi embora a casa ficou um tempo vazia, todo mundo achando que ele ainda morava lá, enfurnado em seus livros por causa do novo regime, na verdade todo mundo num misto de desconfiamento e deixares para lá. Uma velha em seguida mudou-se para lá, mas foi embora muito depressa. Dizem por aí que era neurótica por limpeza e, já com o bolso mais ou menos garantido, passava o dia com panos e vassouras pelos cômodos da casa, solitária. Encontrara um ou outro papel suspeito pela casa, por entre os móveis pesados, e na semana seguinte preferiu morar na casa da filha, no outro lado da cidade, sem contar para ninguém -- só para a vizinha da frente que, faladeira que só ela, contou tudo para cada morador que visse passar em frente ao seu portão. Depois, foi a vez de Florencio, quarentão das esquerdas secretas, que ouvia músicas proibidas antes de dormir, bem no quarto grudado ao de Vicentito.


O menino, aliás, nunca fez questão de mostrar a Florencio que suas noites não eram tão sozinhas assim e, além disso, que sua resistência não era tão mistério, porque uma simples parede delatava seus gostos desgostados pelos homens que escoltavam não a rua, mas o país. Aquela noite Florencio esqueceu o rádio ligado e adormeceu. Vicente, ainda sem o sono dos que nada querem, ouviu no taco do chão um barulho grosso, algo como um livro caindo. Um calhamaço pesadíssimo de palavras talvez clandestinamente serifadas ou somente, clandestina sem destinação -- feitas depois frases feias, desgracentas --, mas no íntimo de uma beleza lúcida, flamejante, como se cada letra representasse a voz vedada das ideologias proibidas, movimentadas, esse livro mesmo evidenciava o sono pelo qual Florencio se deixara fechar os olhos e cair a vasta leitura no chão. O som foi mais alto que as vozes da cantoria, numa altura que pai e mãe com certeza devem ter ouvido mas não se importavam, fosse livro ou fosse tiro. Pensavam, tão tolos, que não pensavam em nada naquilo, e que tanto fazia -- fosse livro fosse tiro --, que afinal a casa já estava completa de família, mãe pai filho todos jantados e no horário certo, que do outro lado da porta tanto fazia, eles tão tolos como se tal posição coubesse no país. 


O dia seguinte acordou mudando de música, quando a mãe de Vicente foi acordá-lo com o uniforme escolar bem dobrado sobre seu braço alvo.


- Vicente, acorda.
- Deixa eu não ir hoje, mãe?
- Claro que não, você está doente por acaso?
- Não, mas, mãe.
- Mas o quê, menino? Não está doente, vai à escola. Levanta já!
- Talvez eu esteja doente sim, nossa, me deu uma dor de cabeça, não consigo nem pensar direito...
- Pare já de drama, agora além de tudo deu para ser mentiroso?
- Não, mãe, mas.
- Toma aqui seu uniforme.
- Só hoje, mãe!
- Nada disso! Ninguém manda você passar a noite deitado pensando na morte da bezerra. Depois fica com sono e joga os estudos para o lado. Tome sua linha!
- Mas mãe, a escola é chata e só ensinam coisas chatas lá, não quero ir.
- Não adianta, você vai à escola hoje, amanhã, depois de amanhã, até que tome rumo na vida. 
- Mas mãe, eu não gosto daquele professor.
- Nem me venha fazendo drama. Se você leva castigo na escola é porque faz coisas que não deve. Se não for à escola, vai acabar sem fazer nada da vida que nem o vizinho, aquele safado que acha que fazer coisas escondido e levar gente para conversas sem fim na casa dele é fazer alguma coisa da vida. 


Vicente parou quieto e esfregou os olhos cheios de remela de criança. Estendeu a mão, pegou o uniforme monocromático e virou-se de costas para a mãe enquanto despia-se do calção de pijama. Ela também parou de falar e a música de Florencio continuava resistindo, ecoando em volume maior que os roncos perdidos do homem, que recuperava sem querer todo o atraso de seu sono. A calça estava já ficando apertada de tanto que o menino espichava em sua terna fase de crescimento. O quarto ficou mudo sem querer para a mãe escutar os dizeres do rádio de Florencio, por entre os chiados dos péssimos e desprecavidos auto-falantes.


- Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião... que eu não mudo de opinião.


Ela arregalou os olhos e esticou o pescoço para o lado, tentando decifrar a língua portuguesa da voz tão filhote que cantava palavras com certeza proibidas, tanto lá quanto cá. Saiu do quarto chamando o marido, afobada e ainda tonta, crédula de que chamar militar para "só dar uma olhada, meu bem" ainda fazia parte de não tomar partido. O menino não entendia aquele português tão-brasileiro que se repetia e repetia, aflitivamente limpo, até se acabar baixinho, a voz se diminuindo de pouco em muito pouco. Sabia que português e espanhol eram muito parecidos, mas só pôde concluir da música que ela falava de coisas que não se podia falar, ainda que, não houvesse muita lógica em proibir o que alguém diz se não se sabe o que alguém fala. Os pais conversavam com vozes ligeiras enquanto tomavam o café e o pai sozinho se aprumava para ir trocar uma e outra ideia com os guardas que passavam pela avenida ao lado todas as manhãs em vistoria e olho duro. 


Vicentito passava, lento sonolento, o creme na ponta do pente para manter intactos os cabelos arrumados para o lado. A música mudava mais uma vez e começava de um baque, sem medo, com o sotaque chileno que Vicente conhecia desde sempre e nunca outro conhecera. Foi ao banheiro lavar a cara e quando voltou o rádio chiava que 


- Con septiembre ardió de sangre la ciudad que ya no tienes, con la espera se hizo sombra tu presencia en las paredes.


O menino, um pouco sem entender nada, ficou na dúvida se aquilo tudo de palavras era para ele ou se dele era para Florencio, com quem nunca trocara nem meia palavra, nem meio batuque na parede. Dava o nó dos sapatos pretos e a música continuava escancarando as amarguras do país, os machucados do país e o chiado torturante na voz do Chile. A respiração cresceu mas logo as mãos pequenas calaram o fungar de seu nariz, que chorava calado de olhos cerrados encostado à parede, sem saber se a ausência tão doída viria a ser a de Florencio ou a dele que cumplicitava em ouvir canções proibidas todas as noites e, não obstante, a partir daquele dia também pelas manhãs. Como se despertasse ilegal e passasse o dia assim, marcado, para depois, ilegalizado, adormecer nas belas vozes da América. Sentiu mais medo por sobre o já medo e deitou-se na cama virado de lado, com calma para não amassar o uniforme. Deu três toques na própria parede e portanto na de Florencio, apostando que o velho dormisse na mesma posição que ele próprio, com os pés apontando a janela. Antes de deixar o quarto, ainda ouviu o rangido das molas da cama e o sonido curto, rasteiro, do botão do rádio se calando. Molhou de chorinho o pão do café ouvindo na cabeça os versos do rádio, entrementes a mãe olhava pela janela o pai que conversava com um dos muitos guardas da cidade.


- Tal vez un día te tuve, tal vez te perdí sin verte, tal vez nunca abrí tu puerta, o tal vez jamás la cierre. 

Quando voltou da escola, não sabia de Florencio, como única nos outros dias soubera por aqueles horários. Jantou emudecido e cantando, deitou umedecido de rosto e, na falta do homem com o rádio (que, à revelia calado e desaparecido, nunca mais deu notícias) passou a noite de olho acordado. No dia seguinte, Vicentito piscava duro de sono, resultado insônio da falta de música. Ainda deitado, não quis ir à escola e, de rosto esticado para baixo, puxou a mão da mãe até sua testa, que cada vez mais esquentava. Ardia-se todo, coitado, na febre esquisita da resistência.