segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ode ao Tomate

















Em terra de Neruda
Eu me calo
E miro o mar

Em terra de Neruda
Toda casa é primavera
Todo sismo é maré brava

As calles sinuosas
Tem cada paralelepípedo
De sapato feminino

Em terra de Neruda
Fim de tarde é gaivota
Longo cílio de Pacífico

As janelas se navegam
Nos sinos de toda rua
Nos seios em ode à lua

Em terra de Neruda
Todo vidro é floreira
Todo Chile é de brinquedo

Nada serve
Ser brinquedo
E quebrar tolo nos Andes

Ser chileno por Neruda
É estrela e resistência
Só se quebra de amores

Em terra de Neruda
Que sei eu
De amor e vida?

Em terra de Neruda
Nada sei de poesias
Ou quaisquer humanidades

Não tenho Matilda
Sebastiana, furores
Nem o Chile nem cebolas

Mas olho à esquerda
Um tomate em escarlate
Uma ode ao amor
Que Neruda ensinou.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Terremoto

















Juanito chegante
No verniz dos tacos
Desfila os bigodes
Sísmico lutre apianado

Juanito galante
Mexerica em degradè
Miados posando p'ra foto
Espanholar de ronronices
É Chile todo em terremotos

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pablo

San Telmo, em Buenos Aires, pode ter em suas calles de domingos os mais dramáticos tangos em novelas de marionete. Os italianos que parlem, parlem, parlem, mesmo que a seus modos cheguem a reger orquestras. O leque negro no olhar indígena ou até as mil asas do beija-flor, não importa. Difícil haver - e se ver - mais graça que en Pablo, que eu diria até Pablito. Existem muitos tipos de garçom no mundo, dos mal-humorados aos mentirosos de otimismo, passando pelos destrambelhados, desesngonçados, desesncontrados, desesnganados, também os galantes e os bons de papo. Por Nova Iorque, São Paulo, Barcelona, Sidney e Verona. Mas é em Olmué, rente à praça principal, que Pablo recita suas gastronomias. Seja atum vietnamita, seja batata saltada ou agridoce salada, Pablo se empolga exibindo as novidades que se emprega a servir. Arregala os olhos feito girassol e gesticula com as mãos de grossas unhas. "Cual és la diferencia entre el atum de Vietnã o de Japón, por ejemplo?" No que ele incrementava: "Bien, yo no sé al certo, pero hay una diferencia, és un plato maravilloso!" E, de pé na cabeceira da mesa, em espanhol chileno tão gentil, recomeçam as histórias dos cardápios, dos companheiros indígenas mapuches e das músicas locais. Os olhos não miram tão longe, pois os amigos estão a poucos centímetros, ao sabor de peixe e ensalada. Talvez sua vista intente, inconsciente, a diferencia latino-americana, increíble como o atum do Vietnã. Talvez, talvez, quem vai saber?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Perros

Perro, perrito
Tiro um érre de teu nome
Escancaro teu ofício
És perito da cidade

Perro, perrito
Tiro um érre de teu nome
Em vão mostro os obstáculos
"Pero, porém", tanto cão em Santiago

Ou é culpa
Da hipnose de teus olhos
Feito Capitu, Jaci, Basilisco

Ou resulta
Do xadrez de teu andar
Descompasso sincrônico
Croniquíssimo!

Em crônicas se passa tua vida
Entre praça e parágrafo
Pois poema é demais métrica
Aos teus ciscos de latido

Todo texto seu se preposita
Homenagem ao malandro da esquina
Que ronca fomes e dá comida

Perro, perrito
Tua visa se aconchega
Patrimônio dos latinos
Em desfolhada antologia
Cujo título nomina Chile.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Amor Vocativo

- Não acredito, amor! Que presente lindo!
- Você merece, amor. Merece isso e muito mais, no seu aniversário e sempre!
- Nova York deve ser maravilhosa, amor! Quando vamos? Ah, eu te amo tanto!
- Eu te amo demais, meu chuchu! E vamos nas próximas férias. Ainda precisamos conseguir passaportes, reservas de hotel, pacotes turísticos...
- Nossa, é mesmo, pode deixar que eu cuido dessas coisinhas. Obrigada, amor! Será uma viagem maravilhosa, só eu e você.
- Só eu e você, amor!

E eles se beijam feito gelatina de framboesa. E assim, gelatinando, eles passam o tempo até chegarem as férias, enquanto aprontam os ultimatos da viagem. No aeroporto:

- Amor, estou tão ansiosa!
- Você vai adorar os Estados Unidos, querida! Assim como eu adoro você, minha linda!

Em estado gelatinoso, eles se dirigem ao guichê da polícia federal, onde são verificados os passaportes. Tudo certo e carimbado à tinta preta, eles pegam o passaporte de volta. Rumando a sala de espera do avião, a gelatina começa a se dissolver:

- Eu não te amo mais. 
- Amor, pare com essas brincadeiras. Daqui a pouco vão nos chamar para entrar no avião!
- Mas eu não te amo mais.
- Por quê? O que eu fiz?
- Não fez nada.
- O que aconteceu então?
- Eu vi.
- Viu o quê? Amor, você está doente?
- Vi a foto do seu passaporte. Você não é a mulher bonita que eu conheci. Você é horrível. Não consigo amar uma pessoa feia como você. Adeus.

Tão quieta e sozinha quanto entrou no avião, saiu. Ele, que tivesse o passaporte mais belo do mundo; em carne e osso, conseguiu fazer-se o ser mais horrível do mundo. No verão nova-iorquino, ela e todos os assobios e piscadelas. 

Lição para a vida: Nunca julgue ninguém pela foto do RG, da carteira de motorista ou de estudante, pelo carômetro escolar e muito menos pela foto do passaporte. Não há ser vivo que saia bonito naquela maldita 7x5. 

14/01/2011
No ônibus, rumo ao Chile, após passar pela alfândega.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Latidos em Érre

Um minuto é muito tempo
Pra silêncio
De vogais

Silenciar vogais
É silenciar oração
Discurso, interjeição
Dos seres vivos deste mundo

Silenciar vogais
Leva consigo o som
De toda consoante
Dos seres vivos deste mundo

Não faço um minuto de silêncio
Porque choro é tom vogal
E soluços também se vogalizam

O leite de teus seios, mulher
É vogal tal qual
A erupção do estômago
Teu bocejo antes de apagar a luz

O ínfimo toque entrepasto
Dos dentes caríticos de um cavalo
E o berro bem ouvinte da vaca
Em rótulas parindo o quarto bezerro

São todos vogais por serem
Não vagais mas, entrelinhas
Voz de ser vivo

Silenciar vogais de máquina
É como tirar, não doce, mas rúcula
Da boca da criança
Maquinaria é consonantal

Não quero silenciar minhas vogais
En cuanto en la Ruta 7
Se quilometra o motor
De consoantes mortes

Vogal
O farfalhar minúsculo dos cílios
O rangido torcicólico quase inaudível
Do pescoço astrônomo e do girassol

Vogal
Do cão, o latido
A língua para fora
Bambolê entre as rodas de um caminhão

A ossada espremida
Vibrando no corpo
O ganido vogal da própria língua
E a benzamorte insistindo na agonia

Uns metros na frente
O império das rodas
Caminhonesca rota de sangue
O incessante zumbido dos érres.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Subte

Un hombre en el subte, oíndo nuestra lengua portuguesa:
¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Escala

Eu poderia dizer que meu sono é leve ou pesado, que é formiga ou elefante. Mas acho que, analisando bem, o sono é a parte mais insegura de mim. Se desmaio em meu próprio colchão, então podem cair o mundo e todo o sistema solar, não abrirei os olhos tão fácil. Em compensação, cochilar em transporte público, por exemplo, é mais angustiantes que passar noites a fio em olhos escancarados de veias vermelhas. Pois não só sinto uma pontinha de medo de talvez, por uma infelicidade do destino, perder meu ponto e só acordar em Diadema quando na verdade deveria estar em Santana.Acho que meus poros e digitais se atexturam mais ainda, pois só uma força de atrito enorme (envolvendo o vidro do ônibus e meu cocoruto molengo de sono) para me acordar com tanta frequência.

Houve também uma vez, há uns dois meses atrás, que a literatura me absorveu mais que o normal, digamos assim. São raras as vezes em que consigo lugar para sentar no metrô, não sou sozinha no mundo e meus horários coincidem com os de milhares de estudantes e trabalhadores. Na Sé são abertas duas portas, uma para evacuar e outra para reespremer todo um bolo de narizes mãos e pelos de novo. Quando meus pés começam a pedir folga, não há delícia maior: abre-se a primeira porta e metade do vagão de adeserta, circulando consigo não só os pés que precisam bater cartão na hora certa, como também o malcheiro de suor, respiração e existência tribal, por instantes não em sociedade. Eis que então as cadeiras, cujo plástico azul se mantém quente por outras bundas, se encontram vazias e muitas. É preciso correr para sentar em alguma, antes que a segunda porta se abra e uma nova procissão trabalhadora se avolume na péssima estrutura proporcionada pelo governo tucano.

Porém, naquele dia havia lugar em sobra a me chamar logo que adentrei-me no trem. Cansada e sem ninguém necessitando do meu assento, abri A Morte de Ivan Ilitch e afinal a tal morte cheia de detalhes se fazia muito mais interessante que a aula de matemática. Só me arreparei do mundo real quando, em três estações depois da que eu desceria, terminei um dos densos capítulos. A aula já havia começado e eu até hoje não tenho muitas certezas sobre o que diabos é um senóide.

Em escala maior (e internacional, aliás!), vi afobada uma uruguaia cujo nome é Violeta mas que, etimologicamente desonrando-se, tinha o rosto em escarlate numa mescla unicolor entre nervosismo e vergonha própria. Estávamos eu e família desembarcando em Buenos Aires, os olhos piscando caminito, tango, Maradona, alfajor e mucho más. Violeta poderia estar num canto resolvendo os próprios probleminhas mas, pelo contrário, só sabia lamuriar-se entre uma ligação e outra. Violeta fora vítima da própria organização; passara a noite arrumando malas e documentos. Fora ao brasil para uma reunião de trabalhos e devia voltar logo, nem deu tempo de fazer valer alguma das minúsculas e cinzentas felicidaes urbanas de São Paulo (se é que há alguma felicidade para novatos internacionais). Em Montevidéu, lar doce lar, com histeria e ansiosidade esperavam em ancas gordas a mãe com tristes rugas, a irmã com tristes viuvagens e a louça com tristes rachaduras -- vítimas que são das discussões familiares. 

O voo de retorno à casa infernal e às belezas latinas decolava às sete com destino Buenos Aires e escala Montevidéu. Sentara ao meu lado no avião classe econômica e, dormindo no ponto em escala digna da bela Aurora de nossas infâncias, desceu conosco na Argentina, muito contrariada consigo mesma. A mãe já discutia ao telefone e eu poderia entender todas suas multipolaridades (nenhuma delas com presença de saudade. Esta palavra não existe em nenhuma língua mas com certeza deveria existir em qualquer ser humano que vê-se abraçando o ar), caso entendesse a língua espanhola em velocidade cinco.

Violeta desligou o telefone e em surto de bigorna soltou os lábios repetindo substantivos e mais verbos no mais envolvente espanhol. Dei  meus pitacos na história e ela, atrasadíssima para os afazeres de casa, num pré-choro preocupado, saltou os dentes brancos na pele índia e, sorrindo, puxou num arranco um espelho e um batom aveludado, numa cor meio roxa meio rosa, meio ela:

-- Un o dos días y... dicen que los argentinos son muy guapos. Ai ai, yo me voy a comprobarlo!