Um minuto é muito tempo
Pra silêncio
De vogais
Silenciar vogais
É silenciar oração
Discurso, interjeição
Dos seres vivos deste mundo
Silenciar vogais
Leva consigo o som
De toda consoante
Dos seres vivos deste mundo
Não faço um minuto de silêncio
Porque choro é tom vogal
E soluços também se vogalizam
O leite de teus seios, mulher
É vogal tal qual
A erupção do estômago
Teu bocejo antes de apagar a luz
O ínfimo toque entrepasto
Dos dentes caríticos de um cavalo
E o berro bem ouvinte da vaca
Em rótulas parindo o quarto bezerro
São todos vogais por serem
Não vagais mas, entrelinhas
Voz de ser vivo
Silenciar vogais de máquina
É como tirar, não doce, mas rúcula
Da boca da criança
Maquinaria é consonantal
Não quero silenciar minhas vogais
En cuanto en la Ruta 7
Se quilometra o motor
De consoantes mortes
Vogal
O farfalhar minúsculo dos cílios
O rangido torcicólico quase inaudível
Do pescoço astrônomo e do girassol
Vogal
Do cão, o latido
A língua para fora
Bambolê entre as rodas de um caminhão
A ossada espremida
Vibrando no corpo
O ganido vogal da própria língua
E a benzamorte insistindo na agonia
Uns metros na frente
O império das rodas
Caminhonesca rota de sangue
O incessante zumbido dos érres.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Latidos em Érre
Postado por
helena
às
12:00:00
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile,
poema
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Subte
Un hombre en el subte, oíndo nuestra lengua portuguesa:
- ¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
- ¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.
- ¿Adonde se van ustedes?
- A Independencia, vamos a la feria de San Telmo.
- Entonces ustedes deben salir en Bolívar, no és tan lejos.
- Cierto, cierto. ¿En Bolívar?
- Sí, sí, en Bolívar.
- Gracias.
- ¿De donde son ustedes?
- San Pablo.
- Ah, iBrasil!
- ¿Usted ya se fue a Brasil?
- Ya he visitado Bahia, cuando Argentina no estaba en crise.
- Bahia és muy lindo!
- ... pero yo no fue hasta San Pablo.
- No pierdes mucho. San Pablo és fea.
Postado por
helena
às
12:23:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile,
molécula
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Nota #1
Postado por
helena
às
12:13:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Florida
Postado por
helena
às
12:09:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Escala
Eu poderia dizer que meu sono é leve ou pesado, que é formiga ou elefante. Mas acho que, analisando bem, o sono é a parte mais insegura de mim. Se desmaio em meu próprio colchão, então podem cair o mundo e todo o sistema solar, não abrirei os olhos tão fácil. Em compensação, cochilar em transporte público, por exemplo, é mais angustiantes que passar noites a fio em olhos escancarados de veias vermelhas. Pois não só sinto uma pontinha de medo de talvez, por uma infelicidade do destino, perder meu ponto e só acordar em Diadema quando na verdade deveria estar em Santana.Acho que meus poros e digitais se atexturam mais ainda, pois só uma força de atrito enorme (envolvendo o vidro do ônibus e meu cocoruto molengo de sono) para me acordar com tanta frequência.
Houve também uma vez, há uns dois meses atrás, que a literatura me absorveu mais que o normal, digamos assim. São raras as vezes em que consigo lugar para sentar no metrô, não sou sozinha no mundo e meus horários coincidem com os de milhares de estudantes e trabalhadores. Na Sé são abertas duas portas, uma para evacuar e outra para reespremer todo um bolo de narizes mãos e pelos de novo. Quando meus pés começam a pedir folga, não há delícia maior: abre-se a primeira porta e metade do vagão de adeserta, circulando consigo não só os pés que precisam bater cartão na hora certa, como também o malcheiro de suor, respiração e existência tribal, por instantes não em sociedade. Eis que então as cadeiras, cujo plástico azul se mantém quente por outras bundas, se encontram vazias e muitas. É preciso correr para sentar em alguma, antes que a segunda porta se abra e uma nova procissão trabalhadora se avolume na péssima estrutura proporcionada pelo governo tucano.
Porém, naquele dia havia lugar em sobra a me chamar logo que adentrei-me no trem. Cansada e sem ninguém necessitando do meu assento, abri A Morte de Ivan Ilitch e afinal a tal morte cheia de detalhes se fazia muito mais interessante que a aula de matemática. Só me arreparei do mundo real quando, em três estações depois da que eu desceria, terminei um dos densos capítulos. A aula já havia começado e eu até hoje não tenho muitas certezas sobre o que diabos é um senóide.
Em escala maior (e internacional, aliás!), vi afobada uma uruguaia cujo nome é Violeta mas que, etimologicamente desonrando-se, tinha o rosto em escarlate numa mescla unicolor entre nervosismo e vergonha própria. Estávamos eu e família desembarcando em Buenos Aires, os olhos piscando caminito, tango, Maradona, alfajor e mucho más. Violeta poderia estar num canto resolvendo os próprios probleminhas mas, pelo contrário, só sabia lamuriar-se entre uma ligação e outra. Violeta fora vítima da própria organização; passara a noite arrumando malas e documentos. Fora ao brasil para uma reunião de trabalhos e devia voltar logo, nem deu tempo de fazer valer alguma das minúsculas e cinzentas felicidaes urbanas de São Paulo (se é que há alguma felicidade para novatos internacionais). Em Montevidéu, lar doce lar, com histeria e ansiosidade esperavam em ancas gordas a mãe com tristes rugas, a irmã com tristes viuvagens e a louça com tristes rachaduras -- vítimas que são das discussões familiares.
O voo de retorno à casa infernal e às belezas latinas decolava às sete com destino Buenos Aires e escala Montevidéu. Sentara ao meu lado no avião classe econômica e, dormindo no ponto em escala digna da bela Aurora de nossas infâncias, desceu conosco na Argentina, muito contrariada consigo mesma. A mãe já discutia ao telefone e eu poderia entender todas suas multipolaridades (nenhuma delas com presença de saudade. Esta palavra não existe em nenhuma língua mas com certeza deveria existir em qualquer ser humano que vê-se abraçando o ar), caso entendesse a língua espanhola em velocidade cinco.
Violeta desligou o telefone e em surto de bigorna soltou os lábios repetindo substantivos e mais verbos no mais envolvente espanhol. Dei meus pitacos na história e ela, atrasadíssima para os afazeres de casa, num pré-choro preocupado, saltou os dentes brancos na pele índia e, sorrindo, puxou num arranco um espelho e um batom aveludado, numa cor meio roxa meio rosa, meio ela:
-- Un o dos días y... dicen que los argentinos son muy guapos. Ai ai, yo me voy a comprobarlo!
Postado por
helena
às
09:36:00
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile,
prosa
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Ida
Postado por
helena
às
18:11:00
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
argentchile
sábado, 29 de janeiro de 2011
Sapateado
A última canção, que seja em coro
Que tente o tom
Que tenha compasso onomatopéico
Que solte enfim a interjeição
Reprimida pelas grossas lentes prisão
Pelas chapas afiadas das seis às seis
Pelos olhos dos outros
Enquanto a miopia é a grande peste.
A última canção que tenha percussão
Que balance cabelos
Batuque as ossadas
Que tenha vento de trem
Porque trem sempre esteve a nos guiar
Mesmo sendo de berço tão metálico
Quanto fábrica indústria revólver
A última canção, que tenha voz de menino
Que conte lunetas, histórias e passos
Afinal, são 107 passos
Que se acabe essa aflição
Esse esboço mal-dormido
Essa vida vista mal
Que se implante óculos em pupila
Que se ouça buzinas e estalos
Que se faça bela Mary
Que se veja bela Mary
Que se saiba sapatear sem olhos
Mas para danças é preciso chão
Mesmo que por ínfimos segundos
Entre um salto e outro e outro
E a forca tira força
Tira som do pé da moça
E passa o grito à boca
Sem nenhuma afinação
Sem a voz sincronizada
De uma peça musical.
Que tente o tom
Que tenha compasso onomatopéico
Que solte enfim a interjeição
Reprimida pelas grossas lentes prisão
Pelas chapas afiadas das seis às seis
Pelos olhos dos outros
Enquanto a miopia é a grande peste.
A última canção que tenha percussão
Que balance cabelos
Batuque as ossadas
Que tenha vento de trem
Porque trem sempre esteve a nos guiar
Mesmo sendo de berço tão metálico
Quanto fábrica indústria revólver
A última canção, que tenha voz de menino
Que conte lunetas, histórias e passos
Afinal, são 107 passos
Que se acabe essa aflição
Esse esboço mal-dormido
Essa vida vista mal
Que se implante óculos em pupila
Que se ouça buzinas e estalos
Que se faça bela Mary
Que se veja bela Mary
Que se saiba sapatear sem olhos
Mas para danças é preciso chão
Mesmo que por ínfimos segundos
Entre um salto e outro e outro
E a forca tira força
Tira som do pé da moça
E passa o grito à boca
Sem nenhuma afinação
Sem a voz sincronizada
De uma peça musical.
Postado por
helena
às
03:22:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
sábado, 22 de janeiro de 2011
Devassalador
- Quantas, Seu Tonho?
- Menino, você me veio aqui não faz nem uma hora!
- Mas... não tem nada?
- Espera um pouco, vou buscar... tem duas.
- Ai, Seu Tonho, que miséria!
- Hoje é dia de semana no meio da tarde, vem pouca gente. E você se assossegue, moleque! Tá com fogo nas calças, é?
- Brigado, Seu Tonho!, depois passo aqui de novo!
- Ê, menino doido...
As pernas finas feito graveto saíram em disparada do Bar do Seu Tonho -- estabelecimento totalmente típico de esquinas -- atravessando as vielas quebradiças até chegar na rua onde, à quarta casinha à direita, aquela em tom amarelado, tinha cama comida e água, na medida do possível. Os outros moleques da rua, concentrados em aquecer as mãos para virar todas as figurinhas em modos magistrais, quase nem repararam no estardalhaço apressado de Lucas. De quase em quase, pode acontecer de tudo.
- Lucas, vem cá e traz aquela sua repetida do Robson do Fluminense, que eu preciso completar meu álbum e vou ganhar ela de você é no bafo!
- Sai da minha frente, Edu, não tenho tempo agora!
- Você tá é com medo, isso sim.
- Me deixa em paz!
Estrebuchando, o menino se jogou na maçaneta da porta, entrando em casa em plena afobação, enquanto todo o bando lá fora gritava, covarde pra cá, covarde pra lá, para em seguida voltar às discussões habituais de "você tá roubando!" "ah, não! Não aceito isso, devolve minhas figurinhas!" "não sabe perde-er!", e por aí ia. Dentro de casa, ah sim, estava tranquilo, ninguém para atazanar ou se empenhar a dar palpite. Pai e mãe em hora de trabalho, a irmã devia estar na casa de alguma vizinha, coisa com a qual não precisa se preocupar. Iniciou-se, então, o ritual. Não que fosse instante raro ou digno de atenção individual, um momento importante para a humanidade, marco demarcante de rumos do mundo. Talvez rumos mundanos, isso sim. A casa, modesta, era térrea, e a porta de seu quarto dava de cara com a janelinha pricipal. A mesma janelinha pela qual bizoiavam olhares curiosos -- mexeriqueiros -- das tantas velhas de ossos tortos que, sem vias de comprar uma bengala, se apoiavam no carrinho de feira cheio de ferrugem e uma contada quantidade de grãos e tomates. Se o passo era cansado mesmo, por que não dar uma espiada, só pela segurança da casa, no interior dos aposentos da família Pereira? Mãe trabalhadeira, pai macho e respeitoso, família em certa ordem. Uma olhadinha pela janela, só pra assegurar que não hajam quaisquer eventualidades negativas.
O menino já ia começar sua atividade, e saiu cheio de vergonhas fechando a veneziana de madeira carcomida. Voltando ao quarto, começou a procura. "Não é possível, não é possível, peguei naquele saquinho não faz nem duas horas!" Meteu os dedos dentro de todas as gavetas do armário, não estava. Nem junto dos pares de meia! "Ai meu deus, ai meu deus, onde está aquele saquinho maldito? Não pode ser, não pode ser, por que papai teria encontrado? Ele não pode ter encontrado, não pode. Escondi depois de mamãe fazer minha cama." Já começava a suar, metade por medo das indagações paternas, metade porque tinha vontade de achar, mesmo. Apalpando o lençol desbotado da irmã que, mesmo já em pré-plenitude adulta, dividia quarto e abajur com ele, sentiu ali, o saquinho cheio de ângulos pontiagudos: cá se está.
Por que lá haveria de estar?, Lucas perguntaria se não estivesse de olhos arregalados em sua compulsão por abrir o saquinho, matematizar o conteúdo e, em seguida, humanizá-lo, talvez até por demais, nesse quesito. Os dedos mansos de unhas roídas desataram o nó já tentando jogar tudo no chão para, ali no quarto mal iluminado, fazer valer mais uma vez todo o rito.
- Dois, quatro, seis, oito, dez, doze... calma.
Dois, quatro, seis, oito, dez, doze, catorze, dezesseis, dezoito...
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete.
Enfia a mão no bolso, inteira, apalpando o que é o quê. "Mais as duas novas. Dezenove. Razoável, já, hein. Uma só já é suficiente, mas dezenove!, rico deve estar é o Seu Tonho!" Afobado, só depois de ter em mãos e ninho suas pequenas preciosidades é que estava em condições de sentir o calor infernal que se aglomerava no quartico de miserinhas. Despido da abafada camiseta, saca uma das tampinhas vermelhas de cerveja, com metal todo bem cuidado, e espalha as outras dezoito ao seu redor. Do tamanho de uma unha, lá está ela. Bonita, sim, em lingerie branca como ela toda, inteira decorada em dois tons de sombra e luz, em pose aos olhos do menino, afoitos. Pois revista de mulher pelada esvaziaria muito mais os bolsos de Lucas, já preocupado com as figurinhas nas moedas contadas que a mãe dava com aperto na mão; cada vintém era valioso porque deveria ser entregue em porção igual à tal irmã. Ela, porém, juntava tudo numa caixa de sapatos para comprar um estojo de canetinhas, daquelas bonitas, brilhosas e aromatizadas, que não falham nunca, nunquinha.
Lucas poderia ter metido a mão nas humildes economias da irmã, mas de que valeria? As figurinhas são possíveis e, sendo as revistas muito caras, tinha gratuitamente em mãos coisa mais instigante, em forma feminina, estampada bem na tampa de certa garrafa de cerveja. Em um giro trezentos e sessenta graus, vistoriou uma última vez a casa completamente vazia e, comprovando tal contexto, finalizou o ritual, dando início a outro maior ainda (porém maior só de espírito porque afinal o garoto estava ainda em infâncias). Da bermuda azul de beiradas sujismundas, com o impulso da mão que o arrancou para fora, viu o mundo uma minhoquinha pelada e fina, que Lucas acariciava enquanto olhava a pin-up devassa da tampa etílica. Cuidando do bem-estar próprio, Lucas não conseguia ser tal qual adulto nem em situação daquele tipo, que aliás costumava ser cada vez mais recorrente. O menino se afobava aos montes em gana prazerosa enquanto via à imagem da mulher, mas nunca conseguia ser brutal. Delicado, isso sim, com uma singeleza do tamanho de um mar -- o rito do menino, aliás, lembrava brincadeiras no mar, que a gente até se perde quando nela está, mas nunca perde atenção porque senão a correnteza leva. A pele se eriçava toda, por conta da força não do menino na coisa mas da coisa nela mesma, lembrando asfalto de rua mal cuidada -- parecia até, pra dizer a verdade, a rua em que Lucas morava, a mesma que por um momento crucial de mundo e tempo atritou-se junto a um carro em freios desvairados, trovejando assim no roçar do pneu com o chão. "É o pai, é o pai!" O menino amedrontado (sem nem saber direito o porquê, pois em verdade nenhum mal havia para a humanidade tal ato de carinho próprio) rasgou-se a juntar todas as tampinhas de cerveja, todas as belas e devassas mulheres que, do tamanho de uma tampa de cerveja, tanto entretiam seus seis-anos-quase-sete. Era tudo culpa desse tal medo sem motivo, porque afinal, pai que é bom, nada. Estava ainda em trabalho e só foi dar com os pés na pequena casa por volta das oito da noite, inclusive atrasando a janta. O saquinho ficou sobre o travesseiro, fazendo um pouco de volume, é verdade, mas nada muitíssimo perceptível. No dia seguinte seu conteúdo se espalhou mais uma vez pelo chão, assim como mais uma vez todo o rito de prazer se fez a única sensação da casa, ante tanta falta de tato neste mundo. Mas, durante a janta, pai mãe Lucas irmã em torno da mesa modesta de arroz feijão banana, sim, até durante a noite, que só assim se fortalece. A sala inteira, longe de calada, só tinha ouvidos para discussões tolas ou levianas. Nada muito sério, valha-me deus! É certo que o menino vez ou outra soltava impropérios irritantes e apimentava a relação árdua com a irmã, mas era também só por causa daquele medo já contado. Pra esquecer da mulher etílica, que por sua vez, porém em vão, serve como passatempo enquanto não se fazem valer os sonhos de esperança, diversão, pipoca e sorvete, com a trapezista de um circo que foi embora semana passada. Tinha belas pernas, aquela moça. Não tão belas quanto a brancura leitosa dos dentes, que se arregaçavam por detrás da boca opaca em batom escarlate. Lá no topo do círculo circense, no teto do colorido picadeiro, ela ia e voltava, ia e voltava, incessante, ir e vir, ir e vir, ir e vir e ir e vir e ir e vir e ah ah ahhh! Circo é rito.
Lucas poderia ter metido a mão nas humildes economias da irmã, mas de que valeria? As figurinhas são possíveis e, sendo as revistas muito caras, tinha gratuitamente em mãos coisa mais instigante, em forma feminina, estampada bem na tampa de certa garrafa de cerveja. Em um giro trezentos e sessenta graus, vistoriou uma última vez a casa completamente vazia e, comprovando tal contexto, finalizou o ritual, dando início a outro maior ainda (porém maior só de espírito porque afinal o garoto estava ainda em infâncias). Da bermuda azul de beiradas sujismundas, com o impulso da mão que o arrancou para fora, viu o mundo uma minhoquinha pelada e fina, que Lucas acariciava enquanto olhava a pin-up devassa da tampa etílica. Cuidando do bem-estar próprio, Lucas não conseguia ser tal qual adulto nem em situação daquele tipo, que aliás costumava ser cada vez mais recorrente. O menino se afobava aos montes em gana prazerosa enquanto via à imagem da mulher, mas nunca conseguia ser brutal. Delicado, isso sim, com uma singeleza do tamanho de um mar -- o rito do menino, aliás, lembrava brincadeiras no mar, que a gente até se perde quando nela está, mas nunca perde atenção porque senão a correnteza leva. A pele se eriçava toda, por conta da força não do menino na coisa mas da coisa nela mesma, lembrando asfalto de rua mal cuidada -- parecia até, pra dizer a verdade, a rua em que Lucas morava, a mesma que por um momento crucial de mundo e tempo atritou-se junto a um carro em freios desvairados, trovejando assim no roçar do pneu com o chão. "É o pai, é o pai!" O menino amedrontado (sem nem saber direito o porquê, pois em verdade nenhum mal havia para a humanidade tal ato de carinho próprio) rasgou-se a juntar todas as tampinhas de cerveja, todas as belas e devassas mulheres que, do tamanho de uma tampa de cerveja, tanto entretiam seus seis-anos-quase-sete. Era tudo culpa desse tal medo sem motivo, porque afinal, pai que é bom, nada. Estava ainda em trabalho e só foi dar com os pés na pequena casa por volta das oito da noite, inclusive atrasando a janta. O saquinho ficou sobre o travesseiro, fazendo um pouco de volume, é verdade, mas nada muitíssimo perceptível. No dia seguinte seu conteúdo se espalhou mais uma vez pelo chão, assim como mais uma vez todo o rito de prazer se fez a única sensação da casa, ante tanta falta de tato neste mundo. Mas, durante a janta, pai mãe Lucas irmã em torno da mesa modesta de arroz feijão banana, sim, até durante a noite, que só assim se fortalece. A sala inteira, longe de calada, só tinha ouvidos para discussões tolas ou levianas. Nada muito sério, valha-me deus! É certo que o menino vez ou outra soltava impropérios irritantes e apimentava a relação árdua com a irmã, mas era também só por causa daquele medo já contado. Pra esquecer da mulher etílica, que por sua vez, porém em vão, serve como passatempo enquanto não se fazem valer os sonhos de esperança, diversão, pipoca e sorvete, com a trapezista de um circo que foi embora semana passada. Tinha belas pernas, aquela moça. Não tão belas quanto a brancura leitosa dos dentes, que se arregaçavam por detrás da boca opaca em batom escarlate. Lá no topo do círculo circense, no teto do colorido picadeiro, ela ia e voltava, ia e voltava, incessante, ir e vir, ir e vir, ir e vir e ir e vir e ir e vir e ah ah ahhh! Circo é rito.
Postado por
helena
às
16:00:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
prosa
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Poema Amarelo
Dia desses tive um sonho
Em que tu só me chamavas
(Tão lindo, tão lindo)
Num querer de seduzir-me
Pois não é que abro o olho
Me vejo toda mijada
(Resquício de um sono findo)
Teu nome: privada.
Em que tu só me chamavas
(Tão lindo, tão lindo)
Num querer de seduzir-me
Pois não é que abro o olho
Me vejo toda mijada
(Resquício de um sono findo)
Teu nome: privada.
Postado por
helena
às
16:32:00
2
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Poligamia
Só vim aqui te avisar:
Não sou somente tua
Nem sob sol nem sob lua
Só vim aqui te lembrar:
Fração minha cochila no meio da rua
Te aguarda, sob lençol de nuvens, toda nua.
Não sou somente tua
Nem sob sol nem sob lua
Só vim aqui te lembrar:
Fração minha cochila no meio da rua
Te aguarda, sob lençol de nuvens, toda nua.
Postado por
helena
às
16:33:00
2
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Desalegria
À Larissa Brandão, que é a minha mexerica
Só te peço uma coisa, menina:
Junte todos os teus dedos
Descasque essa mexerica
Devore cada gomo alaranjado
Imprima todo o divino néctar
Em um riso que me boto a esperar
Noite e dia
Até hoje não chegou
Menina, absorva a fresquice
Liquidez em alegria dilacerada
Nutra-te de toda graça, manhã, doçura;
Fiapo de sol escarlatando cabeleira
Faça-te casca, gomo, semente e sulco
Faça-te lâmpada laranja em camarim
Que é pra ver se tu te recordas de mim.
Postado por
helena
às
16:36:00
4
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
domingo, 9 de janeiro de 2011
Meu relógio não é à prova d'água
Tic
Tac
Tic
Tac
Ping
Ping Ping
Ping Ping Ping
Ping Ping Ping Ping
Ping Ping Ping Ping Ping;
A chuva é mais rápida que o tempo
pos se expande em diagonais.
A chuva rouba o tempo
do relógio do senhor
do almoço da secretária
da pelada em bola de meia.
A chuva para o tempo
um segundo se torna obsoleto;
um segundo somente um
é cachoeira nas lentes de meus olhos.
Um segundo equivale
à queda de cumulus, mundos
talvez também de muros.
A chuva para o tempo
a chuva para o menino
o menino para para a chuva:
"Não há raios nem trovões
só pingos, poças e pés!"
Chover;
chora e vê
chorar de olhos abertos é crer em mundo
crer no segundo de uma gota
pois se me pinga também sal
e minha lágrima vale instante
é, então, nuvem, muro, muro
talvez menino de língua estendida
bebendo o tempo do mais puro.
Tac
Tic
Tac
Ping
Ping Ping
Ping Ping Ping
Ping Ping Ping Ping
Ping Ping Ping Ping Ping;
A chuva é mais rápida que o tempo
pos se expande em diagonais.
A chuva rouba o tempo
do relógio do senhor
do almoço da secretária
da pelada em bola de meia.
A chuva para o tempo
um segundo se torna obsoleto;
um segundo somente um
é cachoeira nas lentes de meus olhos.
Um segundo equivale
à queda de cumulus, mundos
talvez também de muros.
A chuva para o tempo
a chuva para o menino
o menino para para a chuva:
"Não há raios nem trovões
só pingos, poças e pés!"
Chover;
chora e vê
chorar de olhos abertos é crer em mundo
crer no segundo de uma gota
pois se me pinga também sal
e minha lágrima vale instante
é, então, nuvem, muro, muro
talvez menino de língua estendida
bebendo o tempo do mais puro.
Postado por
helena
às
16:38:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Incenso Parafina
A fumaça de meu vício
Não tabaco ou baseado
É o clímax do fogo em parafina
Meu fogo, te acendo puro
Quando a luz foge da cidade
Para ver teu breu e sombra
Perspectiva de casa toda
E dos fantasmas que ressurgem
Minha silhueta enegrecida na parede
Meu fogo, tua vela quase explode
A estática de um meio-fio
Enquanto escorre vazio
Toda a viscosidade possível de luz
E meus dedos tocam a caliência de teu plasma
Mas fogo, fogo meu que guardo em bolso
Se tua vela é incendiária
Porque ainda, eu desnuda,
Não fiz-me de ti?
Resistes feito soldado
Eu acarinhando-te com a palma da mão
Senhor fogo, tenha cuidado
Pois estou muito doente
E por isso presa em casa
Espirro, tusso ou algo da estirpe
Um sopro meu te mata em pronto
Cof Cof Atchim Snif
A escuridão se fez plena.
Ó céus, ó céus!
Minha gripe matou fogaréu!
Preciso agora cuidar do velório
E acender muitas velas
Pro meu fogo que morreu
E me deixou por instantes no escuro.
Não tabaco ou baseado
É o clímax do fogo em parafina
Meu fogo, te acendo puro
Quando a luz foge da cidade
Para ver teu breu e sombra
Perspectiva de casa toda
E dos fantasmas que ressurgem
Minha silhueta enegrecida na parede
Meu fogo, tua vela quase explode
A estática de um meio-fio
Enquanto escorre vazio
Toda a viscosidade possível de luz
E meus dedos tocam a caliência de teu plasma
Mas fogo, fogo meu que guardo em bolso
Se tua vela é incendiária
Porque ainda, eu desnuda,
Não fiz-me de ti?
Resistes feito soldado
Eu acarinhando-te com a palma da mão
Senhor fogo, tenha cuidado
Pois estou muito doente
E por isso presa em casa
Espirro, tusso ou algo da estirpe
Um sopro meu te mata em pronto
Cof Cof Atchim Snif
A escuridão se fez plena.
Ó céus, ó céus!
Minha gripe matou fogaréu!
Preciso agora cuidar do velório
E acender muitas velas
Pro meu fogo que morreu
E me deixou por instantes no escuro.
Postado por
helena
às
21:32:00
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pajarito
À Paula
Há quem confirme feliz
o voo de todos seus amigos
mas meu querido pajarito
tem como habitat o solo
não por falta de quereres
nem descaso ou preguiça;
ainda é época de ninho.
Certo dia em tempestade
de seu berço foi ao chão.
Flor de jabuticaba (que pena!)
deixou de ser sua jardineira.
Sob as gotas grossas grandes,
aos predatórios perigos felinos,
pajarito desespera, e pia pia pia
"Que mamãe me acuda, que papai me salve!"
Mal sabia o pequeno infante
que o quintal onde se achava
era parte de uma casa.
Poderia ser cadeia ou manicômio
poderia ser abrigo de insensíveis
mas, thebaida, lá viviam três mulheres sábias:
uma velha e duas filhas
de coragem, voz, direitos
sempre com curtas madeixas
escrit, estudo e militância.
Bebericavam vendo a chuva
e atentando à proteção da casa
enquanto, sobre mundo, discutiam tese e opinião.
Eis que pajarito se ensopava
seja chuva trovejante
seja saliva dos gatos à espreita
e papai mamãe não sabiam que fazer.
Planando vista com vidraça
o olhar traceja céu ao chão
"Nosso gato tem na boca um passarinho!"
Correm as três em alarde
abrindo espaço entre gotejos
"Gato, largue mão desses desejos;
abra boca antes que seja tarde!"
A bobice do felino somada
à ordem firme das mulheres
fez do predador cair mandíbula:
de lá, tremelicando, saiu em pulos pajarito.
De mãos quentes meio úmidas
acasularam pajarito amedrontado
soltando-o, vívido, dentro da casa.
Com calma, paciência e histeria
descobriram ser filhote
--pouca pena, rabo, bico.
O outro dia amanheceu bonito
feito orquídea em cores quentes
que, sem qualquer aviso prévio
de repente, floresce.
Pai e mãe preocupadinhos
se achegam à janela
iniciam coral: "venha, filho!"
Nisso as sábias, que são sábias
mas não entendem língua de pássaro
focaram vista no olhar do pajarito
e o moleque só encarava janela.
Portas fechadas em casa
o felino no sofá
pajarito esperando os pais
e saltita aqui e acolá (firuli firulá!)
Essa história é tão bonita
que ninguém nem acredita
"Tu és mesmo aflita por mentira!"
Mas eu vi de próprio olho
como pode?, já não sei
"Bicho de bico tem igual expressão todo dia."
Pois vi da ponta nascer lábio
pajarito abrir sorriso
Ao ver planar mamãe-papai
com, em bico, besourinho.
Deu-se início ao hino à vida
mamãe passando ao pajarito
nutriente gosto abrigo
os dois bicos se fundiram
com besouro sendo vértice
currupios ensaudosados
fotografia que guardo em memória.
O mundo das três sábias
num instante era estátua.
(Ninguém sabe mas seus óculos reluziam
Os cem fogos de artifício dos olhos.)
Eis que um dia,
Tão orquídeo quanto aqueles
Das auroras de outrora
o felino achou uma fenda
foi-se ao quintal de faiscância
e lá se deu toda a perfídia.
Pajarito aprendia a voar
a estímulo familiar
mas, ainda em raras penas
saltitava entre mato e primavera.
Eis que o gato pula, ataca
o instinto imperando
orfaniza o pajarito.
Pobre pobre pajarito,
pajarito tão sozinho
covardia pelas sombras
e patas fincadas ao chão.
Pajarito, pajarito,
não te aflijas tanto assim
ainda há casa, sábias, tempo.
És tu pássaro, mas não cuco.
E mesmo fosses tu um cuco
e a portinhola se abrisse para tu voar
haveria mola e tempo para tu te acostumar.
Pajarito, pajarito,
se findou em rapidez
nem deu tempo de chorar.
Pajarito, pajarito
tu que eras um pardal
nem cantou a hora triste
de a corda se acabar.
Hora de portinhola escancarar
pajarito frágil olhar pra fora
ver o tão enorme mundo
e se trancar pra sempre no ponteiro enferrujado.
Pajarito, eu te peço:
salta o tempo e acá rebola
pois por ti as sábias choram.
Postado por
helena
às
16:48:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
poema
sábado, 25 de dezembro de 2010
Parentada
à Maria Fulô, nossa árvore-de-natal-cabide que eu nominei mandacaru
Não sei se é culpa das tais novas tecnologias ou se tal situação é inversamente proporcional ao meu crescimento (neste ano me tornei mais alta que minha mãe, gente!). Talvez também seja pelo estilo meio chita de correr o tempo neste ano tão rápido. Só sei que cada vez mais sobra espaço na casa, que antes lotava durante o natal. Eram bonitos os natáis daqui de casa -- pela noite, a casa inteira virava uma suculenta mijadra (prato árabe típico de vovó) de filhos, primos, tios, avós, tios-avós, primos-tios, filhos-netos, todas essas confusões dignas de novela mexicana e vez em quando até vizinhos tinham presença garantida. Talvez o espaço superlotado se dividisse em três: parentes, comilança e presentes. Hoje em dia, cadê? A criançada cresceu e não ganha mais bicicleta. Nem caixas gigantescas de bonecas medonhas e trilíngues. Nem os envenenados carros de fricção maiores que cabeça de criança. Tudo pequeno (digamos minimalista, que atualmente é um termo que está na moda), a gente ganha celular, dinheiro, emepetrês, livro ou devedê. Acho ótimo, pois meu saldo desse ano foi Walden, A Esperança e ainda posso tomar a liberdade de usufruir d'O Caçador de Pipas, Outra Vez (do Che) e cedês da Elis e do Bosco, tudo presente que parentes mais próximos ganharam.
A esposa de meu tio tem família no Paraná, e lá foram eles comemorar o natal, levando junto a Maria Júlia e o João, os pequininíssimos que ainda esperavam a chegada de Papai Noel com um saco cheio de presentes, entrando pela porta da sala. Eu mesma vi Papai Noel poucas vezes. O de verdade, digo, pois desde pequena já havia sido alertada por mamãe que Papai Noel de shopping é de mentirinha. Como a família não possuía as tais vestes vermelhas, sempre chegavam com uma história de que "Papai Noel não sabia que o natal ia ser aqui em casa, passou na casa da vovó antes e deixou os presentes lá. Tó o seu!" Esse ano, meu pai, exibicionista como sempre, decidiu esculachar com a imagem do bom velhinho e saiu pela casa se vestindo toscamente com o paletó vermelho e a barba sintética. "Eu enganei todos vocês! O Papai Noel que subiu no telhado da casa da vovó naquele natal era eu!", gritava meu pai em alegrias para mim e todos meus primos. Há quem tenha soltado risos de canto com tal graça, mas um ar de dúvida surgiu no ar. Meu priminho, o mais novo no recinto, ainda tinha esperanças nos presentes pedidos via cartinha, diretamente para o Pólo Norte, entregues direto pelas mãos do velho. Aprendeu as verdades da vida num baque de segundo.
Há um tempinho atrás, na hora da ceia tão esperada -- pelos adultos por motivos óbvios e pelas crianças porque o fim da ceia era equivalente a abrir presentes --, os mais velhos sentavam-se à toalha florida de comidas rebuscadas enquanto as crianças se acomodavam no sofá, junto à programação comemorativa -- horrenda -- da tevê aberta, ao mesmo tempo em que, estabanadas, derrubavam arrozes e pedaços mal cortados daquelas carnes que ninguém sabe direito o que é. Ontem, com a ajuda de alguns bancos improvisados a mais, não duvido da possibilidade de sentarmos todos juntos à mesa para devorar loucamente a comida quando nem fome sentimos direito, em meio a milhões de assuntos paralelos muito diferentes entre si que, às vezes, se entrelaçam e confundem a mesa inteira. A partir daí, inicia-se outro assunto totalmente outro, e assim vai até a pausa para todos se atentarem à hora da sobremesa. Rabanada, rabanada... Se não fosse a presença de uma amiga de mamãe -- cozinheira por excelência -- não teríamos rabanada!
Poderia agora finalizar a crônica com lamúrias e saudosismos que de nada valeriam. Dizendo que doismiledez teve natal mais melancólico, faltando hipérboles, vovô Ivan, Icleia (viúva do meu finado vô que, espalhafatosa, fazia-se engraçada e extrememente brigável), tio Guto e as crianças (que já contei terem viajado), Tiquinha e Juju que só vem no vintecinco, tio Leo para encrencar com o mundo inteiro e aquele monte de criança pentelha correndo por todos os cantos. Mas acho que está bom assim. Não minto, pois foi também natal de alegrias e presentes emocionantes, aquele ditado dos pequenos frascos que todo mundo já está cansado de saber. Acabo este registro ao mesmo tempo em que, veja só!, o disco da Elis também se acaba -- "Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação". O almoço do dia vinte e cinco (com os restos da fartura de ontem) me espera, com também uma certa parentada. Um beijo, bye bye, até logo e, sempre, "quaquaraquaquá", minha gente!
Postado por
helena
às
14:02:00
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
prosa
Assinar:
Postagens (Atom)



